Há um corpo de trabalho tão grande dos Gong e nunca passaram aqui por estas páginas digitais. E, para quem ainda não foi hipnotizado pela sua sonoridade única, até pode não ser fácil descrevê-los ou contextualizá-los. Se dissermos que, dentro do cenário progressivo clássico, dentro de toda a cena de Canterbury, dentro do mais criativo psicadélico… Eles conseguem ser dos mais excêntricos, é credível? É uma boa maneira de estar a contar com o quão trippy pode ser este novo “Bright Spirit” e como ainda o conseguem após quase sessenta anos de carreira e após quase duas dezenas de discos (isto sem contarmos com os “heterónimos” todos).

Poderão haver muitas formas de descobrir e ter o primeiro contacto com os Gong, mas dificilmente alguma delas é marcada pela indiferença. Por exemplo, se alguém ficou embasbacado com as melodias nada usuais de “Flying Teapot”, ainda tem aqui muito disso. Logo em “Dream of Mine”, o primeiro grande tema, e com o qual viajam pelo Médio Oriente dentro e por outra divisão cósmica qualquer, com ácidos. Essa prolonga-se por “Mantivule” dentro e já só estamos dentro de um caleidoscópio em “The Wonderment”. E será por aí, a partir do meio do disco que se sente que fica menos aventureiro, e que até se sente que as melodias menos ortodoxas estão lá mas com menos entusiasmo. Mas não é por isso que o disco desfalece ou que fica uma experiência mista. Começou com mesmo muito gás, como quem marca logo dois golos nos primeiros quinze minutos e depois tem que andar a defender, para não deixar empatar.

É uma analogia paupérrima para um disco tão excêntrico, para uma experiência tão celestial, para um conceito tão espiritual. Mas reforça o que temos mesmo que lembrar: o tempo de carreira que já têm. Por esta altura, isto podia estar muito mais brando e facilitado. Mas não, honram a memória do lendário Daevid Allen, sendo este o terceiro disco após o seu falecimento, e continua ou conclui uma trilogia dessa homenagem à sua memória. Como se fosse assim que soasse a sua ascensão à próxima dimensão da sua existência. As tais coisas que temos que tentar inventar para descrever um disco de Gong que soe tão louco e maravilhoso como o “Flying Teapot” ou o “Camembert Electrique”. Em 2026. Só isso já é obra.


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