Já temos lenha para uma fogueira daquelas difíceis de controlar. Que é como quem diz que temos uma acesa polarização em mãos com “Loss“, a novidade dos Gaerea. Ainda estávamos nós meio a lamentar estarem a escapar-nos por entre os dedos, cada vez mais internacionalizados, ao ponto de já nem parecerem nossos, e os encapuçados portugueses afinal deixaram outra coisa para trás: o estilo em que se iniciaram. Bem sabemos quanto melindre isso causa. Mas como correu, realmente, a aventura?

Os alarmes já soavam bem alto. O afastamento do black metal era progressivamente maior, até os singles começarem a sugerir que a migração já tinha sido completa e o rótulo “metalcore” começava a aparecer por aí fora. O suficiente para causar muita confusão. Então agora os Gaerea são os Abigail Williams ao contrário? Mas que é isto? “Loss” não é obra para ser avaliada como um disco disto ou aquilo. E mal entra “Luminary”, temos riffs pertencentes a outro campeonato. É a confirmação e há que aceitar: esqueçam lá o que ficou no “Limbo” e no “Mirage”, temos um metal extremo polido, de atmosfera “pós”, voz limpa e refrão acessível, por entre estruturas mais progressivas, com restos do black metal que ainda possam sobrar, e outros tipos de voz meia limpa, meia berrada, a lembrar alguns actos secundários do melodeath como uns Darkane. É mesmo uma roupagem completamente diferente, e isso tudo antes de chegar a “Stardust”, talvez o maior choque do disco, que puxará as mais improváveis comparações a Sleep Token e outros gigantes contemporâneos a desfrutar ainda da berra.

É um disco de recruta de novo público, correndo o risco de alienar uns quantos fãs antigos. Têm que tomar partido do facto de nunca terem sido uma banda de black metal assim só, e criar admiração pela coragem e capacidade de tornar esta fórmula ainda bastante singular e com os temas a resultar bem – uma “Hellbound” terá qualquer coisinha mais à antiga para quem quiser, e “Nomad” tem umas invenções assim mais à Enslaved do que a outras bandas-tabu. O tempo dirá onde fica “Loss”. Há uma cerca que divide as pessoas que acham que a “Stardust” é a melhor coisa que aqui está, e as que a consideram um enorme prego no caixão dos Gaerea como os conhecíamos. E também haverá uma cerca temporal que nos permitirá olhar para este “Loss”, um dia, como um renascimento, um início de uma queda, ou um percalço. Uma coisa é certa, a atenção e o sucesso multiplicam-se e agora então é que não os apanhamos!


Partilha com os teus amigos