Dancer in the Dark

por Joao Torgal

Se o consenso numa manifestação artística é já, por si só, um conceito altamente discutível, então dificilmente alguém poderá associá-lo a Lars Von Trier

Título Português Dançando no Escuro
Ano 2000
Realizador Lars Von Trier
Elenco Bjork, Catherine Deneuve, David Morse
País Dinamarca
Duração 140min
Género Drama, Melodrama, Musical
Dancer in the Dark
10/10

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(Ilustração: Tiago Dinis)

Se o consenso numa manifestação artística é já, por si só, um conceito altamente discutível, então dificilmente alguém poderá associá-lo a Lars Von Trier. Polémico, panfletário, implacável para com as actrizes e cinematograficamente perturbador, o realizador dinamarquês é daquelas figuras capazes de criar amores e ódios com um fulgor semelhante. Apesar da violência melodramática de Ondas de Paixão, da crueza teatral de Dogville e Manderlay e do misticismo mais violento de O Anticristo ou mais melancolicamente apocalíptico de Melancolia, Dancer in the Dark (2000) será talvez dos filmes em que o cineasta consegue uma assertividade irónica mais brutal e uma crítica social mais mordaz.

Selma (Bjork) é uma emigrante checa nos Estados Unidos, radicada com o filho Gene numa pequena aldeia da América profunda (a terra das oportunidades, seguindo a sarcástica designação de Von Trier). Honesta, ingénua e trabalhadora, tem uma vida marcada por uma doença aparentemente irreversível e hereditária que lhe vai progressivamente roubando a visão. Contudo, é suficientemente determinada para ter em mente um objectivo definido: poupar dinheiro suficiente para, através de uma cirurgia, impedir que Gene venha a sofrer do mesmo problema. O principal refúgio está nas pessoas que a rodeiam, numa comunidade aparentemente marcada pela comunhão e pela interajuda, com destaque para a inexcedível Kathy (um belo regresso de Catherine Deneuve), e numa secreta paixão pela música e pelo teatro que a faz entrar num universo idílico não concretizável na realidade. Quando a simpatia dos vizinhos é substituída pela traição diabólica, todo o mundo de Selma se desfaz, com consequências verdadeiramente trágicas.

Em Dancer in the Dark, é encetada uma crítica feroz ao sistema de saúde americano, à pena de morte e, de um ponto de vista mais geral, a um certo moralismo cínico e a uma sociedade profundamente desumanizada. Fá-lo  sem complexos, manietando e dando um verdadeiro murro no estômago no espectador e induzindo-o a sentir sentimentos que vão da piedade à revolta. Este é o estilo de Lars Von Trier e, goste-se ou não, é impossível não lhe conceder valor pela forma firme como põe o dedo na ferida, como cria obras cinematográficas que não deixam ninguém indiferente.

Para a força da mensagem, a forma tem uma importância fulcral. Não só pela fotografia minimalista, pela filmagem tão in your face e pelo ambiente perturbador, tão característicos na obra de Von Trier, mas também porque o dinamarquês serve-se do género musical para construir um notável anti-musical, capaz de desafiar a fundo quaisquer convenções e estereótipos (leve, descontaído ou pouco profundo) que lhe possamos associar. Aliás, não deixa de ser paradigmático que, num filme musical, tenham tanto impacto os espaços de silêncio, fundamentais para a crescente tensão dramática e para o ambiente depressivo que se pretende impor. Musical ou anti-musical, a banda-sonora seria sempre fundamental e, neste campo, a escolha foi irrepreensível. Não só porque Bjork volta a ser musicalmente extraordinária,  aqui em toadas mais épicas e melancólicas,  mas também porque, num papel muito exigente, revela uma capacidade de interpretação surpreendente. Destaque para I’ve Seen It Allque, mesmo sem Thom York (presente apenas na versão do álbum), é maravilhosamente arrepiante e mostra como a exposição da dor pode ser paradoxalmente tão bela.

Para culminar cinco ou dez minutos finais de uma dureza psicológica capaz de abalar os mais insensíveis, devidamente acompanhados pela versão a capella de New World, Von Trier deixa-nos as seguintes palavras: “Eles dizem que esta é a última canção. Eles não nos conhecem, só será a última canção se nós deixarmos”. E, a partir daqui, as marcas do filme e a reflexão consequente seguem na cabeça de cada um.


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