Chico da Tina, deixa-nos ser teus amigos.

por Arte-Factos em 22 Maio, 2019 © Chico da Tina

No início deste ano, algures entre Fevereiro e Março, um site nacional de gags e memes destacou a estreia de Chico da Tina. “Põe-te fino” foi o single (?), com vídeo à medida de o mesmo site o declarar o único artista capaz de fazer frente a Conan Osíris. Olhando para trás, we can’t help but wonder: teria Chico o mesmo destino que Conan? Ou, depois de Salvador Sobral, levaria Portugal à vitória? Nunca saberemos.

Põe-te fino” é uma entrada a pés juntos.

Chico da tina tu és ‘memo fodido
Chico da tina deixas-me ser teu amigo?
Chico da tina porque é que és tão ofensivo?
Chico da tina sê mais compreensivo!

Palavras que ficam na memória, sobretudo pela carga emocional: quem lhe passou tal sentença? Um hater que não sabe lidar ou um fã cauteloso com a carreira do seu ídolo?

No dia em que um Chico foi agraciado com o Prémio Camões, decidi ver o que este amigo Chico andava a fazer.

Os números são impressionantes: o vídeo supracitado superou já os 260 mil plays no Youtube. Há vídeos react no Youtube e Twitch. Há debate no Reddit. Há uma tímida presença em social media. Mas há, sobretudo, boa música.

Chico da Tina não trabalha com nomes reconhecidos pelo grande público, mas trabalha com Bejaflor, o que só pode ser bom sinal. Tem presença, imagem à medida, gera empatia (quem não se reconhece em versos com eu tou com o cravo na bolsa Guxi / litra na mão cirandar por aí?) e deixa-nos curiosos. E não é disso que se faz um bom artista?

Depois de “Põe-te fino”, seguiu-se “Deus nos livrai”, “Guxi” e “Mobilete”. Todos com a promessa de virem a fazer parte de EP “Trapalhadas”, que deverá contar com pelo menos 6 faixas, de acordo com o alinhamento no Genius.

Ora, o nome do disco é apenas mais uma manifestação da sua genialidade. Trap, electrónica, hip hop – um caldeirão de sonoridades urbanas que deixariam Stormzy e Odd Future muito orgulhosos. Canta à desgarrada com emoção e toca concertina com mestria, o cruzamento da tradição com a modernidade que tanto está em voga.

A escrita é crítica e caricatural. Copiam as cenas estrangeiras a qualquer preço / Agora todos querem ser a Rosalía / Mas estes fakes dão-me vergonha eu confesso / Quer ser rapper tipo US mas é na tuga a moradia / É um desperdício de tempo e de recursos / Não é só no zoo que se produzem ursos. E mais nada. Tudo dito?

Chico da Tina desconstrói o que se faz por cá no género. Vozes do trap e do hip hop que não abraçam a sua identidade, preferindo ser papel químico que reproduz cegamente o que vem de fora, reforçando estereótipos sociais e revisitando até à exaustão lugares comuns.

Usa fluentemente a gíria regional minhota e linguagem vernacular sem filtro – ouvidos mais sensíveis poderão experenciar náuseas ou até otites -, fazendo na palavra o que faz na melodia. Tanto referencia particularidades da sua herança cultural, como se posiciona em relação ao presente: moça, escuta, esse teu post activista no insta é mentira. Presente esse cada vez mais contraditório e dissonante, revelado pela omnipresença quotidiana das redes sociais que, mais cedo ou mais tarde, evidenciam a essência camuflada por filtros e apps.

Ao que parece, vem de Viana do Castelo. Mas é um artista de alcance nacional. No vídeo para “Guxi” destila charme nas margens do Rio Lima, com a emblemática Ponte Eiffel de Viana ao fundo. Juntam-se à cena o grupo minhoto Rancho Folclórico das Lavradeiras de Vila Franca e a melhor cerâmica das Caldas da Rainha. E ainda recorda o poder kármico da sabedoria popular: Desejo-te em dobro o que desejas pa mim.

 

 

Vivemos na era da informação. Tudo se sabe, todos se conhecem, o quotidiano alheio está acessível na palma da mão. Mas a biografia, o background, a motivação ou o manifesto de Chico da Tina, não – pelo menos, não de uma forma evidente. É pela lírica que nos diz ao que vem.

Cada um tem a sua vida e vive como lhe apetece
E eu rio-me de ti mas é sem stress
E se tu te ris de mim isso não me aquece nem me arrefece
Tu não te precipites quando ouvires o meu trap
Mal sabes andar já queres correr fast
Se não compreendes um caralho mano mais vale tá quieto
Que eu não sou contra nada não discuto ideologias
Eu desmascaro é estes fakes que simulam ter ideias
E as ideias que têm são as ideias da moda
Hoje sou vegetariano amanhã que se foda

Tentei chegar à fala com Chico da Tina, queria saber mais, mas a entrevista não foi possível. E bem, que um poeta atento aos males contemporâneos tem mais é que se dedicar ao pensamento e não se deixar perturbar pelas cabaneiras.

Chico da Tina suscita a mesma estranheza e curiosidade de Conjunto Corona, Bro-x ou mesmo Ena Pá 2000, num registo diferente. Ficamos sem saber se isto é mesmo para levar a sério ou apenas uma manifestação conceptual, irónica, passageira. O tempo dirá. Mas, por agora, já ultrapassou o meio milhão de views no Youtube, esse indicador de sucesso no século XXI.

A história mudou
Tocava na rua
Hoje toco no show
Quem me criticava
Só se enterrou
Quem disse que eu ia ser grande
Adivinhou
País inteiro a vibrar
Com o meu som

E sem nunca esquecer as raízes.

Propz pa Viana é de lá que eu sou
Monserrate Campo da Agonia é lá que eu tou

 

A música de Chico da Tina está já disponível no Youtube.
A tour internacional ainda não foi anunciada, mas foi já confirmada a sua presença nas Jornadas Mundiais da Juventude de 2022. Mais info sobre evento aqui »


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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