Mastodon

Emperor of Sand
2017 | Reprise | Metal

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Os Mastodon são uma banda de identidade bem definida mas não deixam de ter várias facetas. Muitos torcem o nariz à acessibilidade e às melodias orelhudas que predominam nos discos mais recentes e que superam o lado mais complexo, progressivo e até agressivo de outros tempos. Os que olham para isso de forma mais positiva comparam o seu trajecto ao de uns Rush, num diferente espectro. Os que querem mais versões do “Leviathan” debatem qual entre o “The Hunter” e o “Once More ‘Round the Sun” é o seu “Black Album”.

Contudo, os Mastodon ainda não têm nenhum mau disco ou sequer uma amostra disso no seu repertório, logo este “Emperor of Sand” não tem muita pressão. Mas mesmo assim sai uma bela obra, muito possivelmente o melhor álbum do grupo desde o aclamado “Crack the Skye”, álbum praticamente impossível de superar agora. Curiosamente ao fundir factores dos seus diferentes lados. Há aqui canções cheias de melodias e refrães enormes mas também já pescam qualquer coisa ao seu passado mais progressivo.

O primeiro resgate será o de Brendan O’Brien, produtor do “Crack the Skye”, para se encarregar da produção deste novo trabalho. Já dá para esperar algumas semelhanças na densidade sonora do novo disco, mas O’Brien não veio para tornar a pintar esse álbum por números. Outro resgate e talvez o mais significativo será o de uma história, um conceito. Influenciados pelas suas vidas pessoais e batalhas e perdas para o cancro nas famílias de vários membros da banda, os Mastodon inspiram-se para um disco emocional. E com isto sai um disco conceptual metafórico que conta a história de um homem perdido no deserto atrás da sua sentença de morte, com o amplo espaço e a areia a representar o tempo e o difícil processo de quimioterapia. Refugiando-se novamente numa história à Mastodon, não deixa de ser o disco mais pessoal da banda.

O throwback à sua abordagem mais antiga também se encontra no som e até em faixas em particular, mesmo que o ambiente e a aura desses discos de outro tempo se encontre espalhado por todo o “Emperor of Sand“, afinal sabemos e reconhecemos bem qual a banda que toca, neste e noutros discos. Se a introdução de “Scorpion Breath” é o que mais rapidamente nos chama a atenção como algo que podia constar em “Crack the Skye”, é na seguinte e conclusiva “Jaguar God” que está uma bela malha que nos traz os Mastodon no seu estado mais progressivo e virtuoso.

E também há o outro lado. Para aqueles que ficaram perturbados com a acessibilidade de uma “Curl of the Burl”, têm em “Show Yourself” mais uma prova de algo que podiam temer: os Mastodon, no meio de todo o progressivo, dos riffs com barbas de sludge, da invejável técnica instrumental… também sabem escrever uma grande canção pop se for preciso. E num óptimo sentido, pois esse single acaba por ser das faixas mais viciantes de todo o colectivo.

Juntando tudo isto ficamos com um disco muito completo e de elevada qualidade. Não adianta pois andar a correr atrás do “Crack the Skye” ou do “Leviathan” a tentar superá-los. Estão feitos, é deixá-los estar. Os Mastodon sabem muito bem quem são, a direcção que querem seguir e com “Emperor of Sand” a ser mais uma prova disso, mostram-nos que podem ser uma banda de metal progressivo exibicionista e com tendências para o sci-fi, uma banda orientada por riffs sludge e com sangue sulista, uma banda de rock de estádio e muito mais, sem perder nunca de vista a sua identidade muito própria.


sobre o autor

Christopher Monteiro

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