Killing Joke

Pylon
2015 | Spinefarm | Post-Punk

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Sempre tive, e continuo a ter, a firme convicção de que os Killing Joke são completamente incapazes de produzir um disco mau. Por mais que tentem, e a rapaziada liderada por Jaz Coleman já parece ter tentado a proeza por mais do que uma vez, não conseguem fazê-lo. Mesmo o pior dos seus álbuns, seja ele qual for, será sempre um disco excelente. São coisas que acontecem quando se constrói uma carreira sólida e consistente, fortemente alicerçada na originalidade e no inconformismo, tal como os Killing Joke conseguiram construir.

Os membros dos Killing Joke poderão já não ser propriamente umas crianças, mas a irreverência e os laivos de anarco-comunismo, tantas vezes olhados como assomos de rebeldia próprios de idades significativamente mais jovens, continuam bem patentes na letra e na música deste grupo formado em Londres, no ano de 1978.

Depois da morte do baixista Paul Raven, em 2007, a banda reuniu o line-up original e mostrou novamente ao mundo a fibra de que são feitos os Killing Joke, dando início a uma trilogia que agora culmina com o lançamento do álbum “Pylon”. Nos dois primeiros trabalhos que compõem esta trilogia, “Absolut Dissident” e ”MMXII”, já havia ficado a ideia de que esta formação não pretendia regressar ao passado, não se deixando algemar pelo rótulo fácil e simplista da new wave, ou tampouco do post-punk. “Pylon” é a confirmação de que estes Killing Joke, que, no fundo, são exactamente os mesmos de 1978, continuam a fazer jus ao título de imperadores de um género por si criado: o heavy post-punk industrial rock (será que o género existe sequer?).

Devaneios à parte, “Pylon” é um disco que nos dá conta, mais uma vez, dos manifestos e desabafos políticos de Jaz Coleman, bem como de todo o universo das suas crenças misticamente apocalípticas. Ao mesmo tempo, paredes sonoras vão sendo construídas a partir da junção dos riffs, repetitivamente hipnóticos, de “Geordie” Walker com as batidas de Paul Ferguson, pautadas por um minimalismo quase tribal. Talvez os melhores exemplos disso possam ser encontrados em faixas como “Dawn of the Hive”, “New Cold War”, “Delete” e “Into the Unknown”. De resto, “Into the Unknown” é um tema capaz de criar forte dependência, sendo alucinantemente viciante. Contudo, verdade seja dita, essa característica é apenas uma das muitas maravilhas que preenchem o álbum inteiro. O som de “Pylon” é extremamente uniforme, muito menos áspero que o de “Absolut Dissident”, e essa particularidade é-lhe conferida pelo trabalho de Tom Dalgerty, produtor que já colaborou com bandas como os Royal Blood, ou os Opeth.

Ao longo de todo o disco, Jaz Coleman vai alternando a sua voz mais límpida com a sua outra voz mais gutural, prenhe de raiva e de revolta. O registo gutural de Coleman atinge o expoente máximo no refrão de “I Am the Virus”, uma canção que nos deixa completamente expostos à demência de um contágio inevitável. Do outro lado da barricada temos “Euphoria” e “War on Freedom”, provavelmente os temas mais pop de todo o disco. E menciono isto sem qualquer tipo de menosprezo. Aliás, “Euphoria” é uma faixa bem rasgada e poderosa, em que se pode ouvir Coleman a cantar na sua forma mais melódica e suave, enquanto a sonoridade etérea do sintetizador flutua ao longo de todo o refrão. Um tema que se apanha logo à primeira e que rivaliza, lado a lado, com canções históricas como “Europe”, “Love Like Blood” ou “The Wait”.

Olhando para a totalidade da obra, “Pylon” é um álbum que está bastante mais perto de atingir a perfeição do que “MMXII” estava. Se a comparação se estender a “Absolut Dissident”, então, nem se fala. “Pylon” é o disco perfeito para fechar esta trilogia com chave de ouro. Um trabalho altamente electrizante, onde existe uma vitalidade frenética constante que facilmente se confunde com psicose, demonstrando que, ao fim de 37 anos, a energia destes alquimistas sonoros está longe de se esgotar.


sobre o autor

Pedro Gomes Marques

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