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The Square
Título Português: O Quadrado | Ano: 2017 | Duração: 142m | Género: Drama
País: Suécia | Realizador: Ruben Östlund | Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West

Numa Suécia far far way (a monarquia não tem dado sinais de fraqueza), um museu de arte contemporânea instalado no antigo palácio real, em Estocolmo, é dirigido por Christian (Claes Bang), um afamado e pedante curador. A instalação prestes a inaugurar consiste num grande Quadrado luminoso, desenhado na calçada em frente ao museu, definido pela autora da obra como um “santuário de confiança e solidariedade, um espaço onde todos temos os mesmos direitos e responsabilidades”. A dificuldade de agir à altura dos valores invocados no manifesto é revelada numa série de peripécias desencadeadas pelo roubo do telemóvel de Christian, e sobretudo pela sua resposta à situação e várias acções paralelas relacionadas com a montagem da nova exposição. Ao longo do filme, os episódios da trama vão revelando as fragilidades e hipocrisias da sociedade contemporânea, por oposição ao mundo idealizado e utópico que O Quadrado simboliza.

O cineasta sueco Rubens Östlund, que em 2014 nos trouxe Força Maior, parece ter uma especial apetência para a análise comportamental, o que torna os seus filmes desconfortáveis mas também verdadeiros tratados. Se Força Maior consistia num estudo sobre a primazia do instinto de sobrevivência sobre todas as coisas (mesmo a própria família), a temática agora em escrutínio parte do estado da arte para analisar o estado do mundo, utilizando-a como espelho metafórico das relações sociais. O filme começa por debater o valor da obra artística, ironizando a hipocrisia e a linguagem labiríntica e críptica do universo dos criadores, críticos e directores de museus e confrontando a sua frivolidade com a alienação social tão característica dos nossos tempos, onde os valores expressos no manifesto d’ O Quadrado parecem ter-se perdido. Em substituição, encontramos um vazio intelectual, sustentando pelo ignorante, pelo culto e pela confusão da mensagem. É este o grande paradoxo (e também o valor) da arte contemporânea: não raras vezes, a leitura do leigo pode ser bem mais interessante que o objecto ou nota de intenções do artista.

Uma sequência de eventos desconcertantes (das quais se destaca uma conferência de imprensa interrompida por um espectador com síndrome de Tourette e um performer homem-macaco que dá cabo de um jantar de gala) vai estendendo o debate a diversas temáticas quentes e na ordem do dia – a anestesia social das sociedades contemporâneas (a falta de empatia e de sentido de entreajuda), as diferenças de classe, o preconceito, as diferenças de género, a sexualidade e o poder, a liberdade de expressão – criando, através humor negro e do ridículo, um palco de exposição e crítica das contradições culturais do capitalismo: o pensamento global vs. a inaptidão relacional, o excesso vs. a privação, o conformismo social vs. uma vã intelectualidade. A história, essa, não parece dirigir-se para lado nenhum em particular, pretendendo apenas expor o dia-a-dia de Christian e as suas pequenas tomadas de consciência existenciais, sublinhadas, de uma forma quase enervante, por uma versão electrónica da Ave Maria de Bach/Gounod interpretada Yo-Yo Ma/Bobby McFerrin.

The Square não é um filme fácil de acompanhar, sendo isso o que o torna tão peculiar. Palmilhando a fina linha entre a empatia do espectador e o desconforto, o argumento do vencedor da Palma de Ouro 2017 é um exercício de auto-contemplação e embaraço. O retrato que traça dos desequilíbrios da sociedade moderna é cruel, mas preciso, concentrado numa personagem simbólica da natureza desse colectivo – que, numa circunstância específica, descobre algo sobre si do qual não se orgulha particularmente. Se praticamente todas as cenas do filme (nas quais a figura geométrica do quadrado é uma constante) poderiam servir de inspiração a um ensaio sociológico, a sua única fraqueza é a parca subtileza da cena final, onde o anti-herói enceta uma jornada de redenção que não chegará a horas ao seu destino.


sobre o autor

Edite Queiroz

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