Manchester By The Sea

por Jose Santiago

Manchester By The Sea é real, comovente e não nos poupa do desconforto.

Título Português Manchester By The Sea
Ano 2016
Realizador Kenneth Lonergan
Elenco Casey Afleck, Ben O'Brien, Kyle Chandler
País EUA
Duração 137min
Género Drama
Manchester By The Sea
9/10

Não sabemos o que aconteceu ao certo no passado de Lee Chandler, sabemos apenas que é um ser introvertido com sérias cicatrizes emocionais. Isolado em Boston por escolha própria, é agora contínuo para uma série de prédios, arranjando canalizações, desentupindo sanitas e concertando instalações eléctricas. Certo dia recebe uma chamada que compromete todo o propósito do seu exílio, parece que o seu irmão acabou de morrer e o designou como único guardião do filho adolescente. Lee vai ter de voltar a uma cidade recheada de fantasmas do passado e tentar lidar com uma situação para a qual se sente completamente inapto, ao mesmo tempo que tenta lidar (ou não) com a vida que escolheu abandonar.

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Costuma dizer-se que estes filmes são uma “fatia de vida”, um termo que é normalmente utilizado de forma muito leve, mas que aqui se aplica no sentido mais cru e sujo da expressão. É uma fatia de um bolo caseiro cortada com uma faca mal afiada, como normalmente acontece. Há uma grande tentação em embelezar situações de natureza suja e em tornar a tragédia num produto anti-séptico, mas Manchester By The Sea não transforma absolutamente nada e oferece-nos um retrato visceral da tentativa de isolamento. Para grande dor e desagrado da personagem principal, ele vai ter de lidar com outras pessoas que, naturalmente, não estão a passar pelo mesmo e não percebem o tipo de interacção adequada para a situação. O trovão ruidoso do quotidiano contrasta com o pesar e a desorientação de quem quer apenas deixar de existir e passar pelo mundo sem deixar sequer um epitáfio.

Quando o ser é reduzido a nada, todas as subtilezas da vida são amplificadas ao mais alto dos decibéis e Kenneth Lonergan é exímio em tornar isso bem claro. Num funeral, ele não nos poupa de ouvir alguém gritar por mais uma cerveja, não esconde que há telemóveis a tocar e pessoas a rir, em vez disso, deixa todos esses episódios ecoar em cena de forma subtil mas demolidoramente presente. Até agora não falei do adolescente que perdeu o pai e se vê refém deste tio depressivo, mas por quem nutre grande afecto. Não falei, mas é uma personagem tão importante como Lee. A razão pela qual posso estar a deixar esta personagem para trás tem a ver com a leitura que cada um retira deste filme e a faixa etária na qual se enquadra. É através dele que temos o retrato mais real da perda na sua perspectiva mais esterilizada, sem passados tortuosos e sem traumas para além das dores de crescimento. Ao contrário do tio, é nos outros que ele vê a sua terapia e é com eles que prefere adiar uma dor inevitável. Somos convidados a olhar pelo buraco da fechadura e a sentir-nos intrusos de vidas com demasiada bagagem para nos querermos intrometer.

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Casey Afleck estabelece-se aqui como um dos grandes, fortemente injustiçado pela qualidade dos projectos nos quais se tem envolvido. Uma prestação tão estudada que não o parece, carregada de naturalidade e que me fez repensar o termo “sinceridade” que tanto gosto de usar. Ser sincero significa ser verdadeiro para com a personagem, os motivos e acções, mas o que aqui vemos é outra coisa. É impossível prever reacções face a tempestades que dificilmente serão as nossas, mas enquanto assistimos ao filme não duvidamos por um momento que aquele é Lee Chandler e que Casey Afleck não apareceu para as filmagens. Lucas Hedges perde por comparação, como grande parte do elenco, mas oferece uma interpretação mais que competente e é o contraponto perfeito para a falta de esperança. Michelle Williams não está tão presente como imaginaríamos pelo material promocional, mas é uma pontuação exclamativa de todas as cenas em que aparece.

Manchester By The Sea é real, comovente e não nos poupa do desconforto. Kenneth Lonergan está-se a marimbar para conclusões cinematográficas e transporta-nos para o meio de outras vidas, dá-nos uma janela de oportunidade com pouco mais de duas horas e dali retiramos as conclusões que queremos. Estamos tão habituados a retirar significados afunilados que recebemos de braços abertos a falta de um e aceitamos o niilismo da vida.


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