Last Flag Flying

por Joao Torgal

Derradeira Viagem é sobre a guerra, sobre o tempo, mas também sobre a nação (...) uma carta de amor de uma enorme beleza poética

Título Português Derradeira Viagem
Ano 2017
Realizador Richard Linklater
Elenco Bryan Cranston, Laurence Fishburne, Steve Carell
País Estados Unidos
Duração 124min
Género Comédia, Drama, Guerra
Last Flag Flying
8.5/10

Há uma obsessão pela passagem do tempo na obra de Richard Linklater. Sobre a nostalgia e as grandes marcas / feridas, sim, mas principalmente nos pequenos detalhes do quotidiano. Foi assim, em torno do amor, na trilogia Before. Ou sobre as dores do crescimento em Boyhood. Agora é a memória da guerra, de uma forma mais complexa e profundamente tocante. Sal, Doc e Mueller foram três companheiros de armas no Vietname e voltam a encontrar-se 30 anos depois num momento duro. O filho de um deles acaba de morrer… no Iraque. E Derradeira Viagem é o percurso desde a chegada do corpo aos Estados Unidos até ao funeral. Uma espécie de road movie espacial e temporal, onde as memórias do Vietname se cruzam com o descrédito americano após a intervenção no Iraque.

Linklater traz-nos um dos “filmes de guerra fora da guerra” mais calmos e pausados. Este é um filme de diálogos e eles são genericamente belíssimos. Entre o drama, a comoção (o encontro com a mãe de um antigo companheiro é avassalador) e a inteligência das tiradas de humor (hey Eminem). E é um filme de personagens e de actores. Bryan Cranston é fortíssimo a desempenhar o desbocado e pândego Sal. Laurence Fishburne apanha toda a riqueza e ambiguidade de Mueller (o destruidor), outro antigo pândego que “viu a luz” e se tornou padre. E depois há Steve Carell num papel desconcertante, muito naif, com uma dor muito contida e interiorizada. Depois do maníaco John Du Pont em Foxcatcher, Carell volta a mostrar uma versatilidade que vai muito para além do humor, seja ele mais básico ou mais requintado.

Derradeira Viagem é sobre a guerra, sobre o tempo, mas também sobre a nação, sobre a sensação contraditória de ser americano. E, tal como a carta que surge na parte final do filme, esta é também uma carta de amor aos Estados Unidos. Apesar de tudo. Apesar de muito e o filme não esconde a realidade. Mas é uma carta de uma enorme beleza poética.

Filme exibido no LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival


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