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Beauty and the Beast
Título Português: A Bela e o Monstro | Ano: 2017 | Duração: 129m | Género: Fantasia, família, musical, romance,
País: Estados Unidos da América | Realizador: Bill Condon | Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Kevin Kline, Emma Thompson, Ian McKellen, Ewan McGregor, Luke Evans, Josh Gad, Stanley Tucci,

A tão aguardada adaptação do clássico A Bela e O Monstro que fez as delícias da infância da minha geração chegou finalmente com a Primavera. Levado ao cinema por Bill Condon (sim: o mesmo que realizou a obra-prima Gods and Monsters e filmes como Kinsey e Dreamgirls), Beauty and the Beast consegue reproduzir de forma fiel e convincente toda a magia do original, mesmo nas passagens em que seria mais difícil dar alguma credibilidade à história.

As personagens encantadas são representadas por um leque de luxo, temos Ewan McGregor como Lumière, o adorável candelabro que é anfitrião de uma das cenas mais míticas do cinema e que está perdido de amores por Plumette, um espanador de penas. Temos Ian McKellen a representar o rezingão Cogsworth, o relógio, que faz com Lumière par nalgumas das cenas mais divertidas do filme. Temos também Emma Thompson a representar Mrs. Potts, o bule de chá com o seu carregado sotaque britânico e o seu filho Chip, a Chávena, representado por Nathan Mack. Nesta adaptação cinematográfica é dado mais ênfase também a três outras personagens que passavam mais despercebidas na versão original dos desenhos animados: Madame Garderobe, interpretada por Audra McDonald, é a famosa diva de ópera italiana que se transforma num dramático guarda-roupa que adora dormir. O Maestro Cadenza, por Stanley Tucci, é o marido que acompanha a diva e se transforma num piano. E o cachorro Frou Frou que é transformado num banco de piano. Três outros secundários de peso são Kevin Kline, que interpreta brilhantemente Maurice, o pai de Bela, Luke Evans no papel de Gaston e Josh Gad como Le Fou, estes dois últimos dando vida a um humor bastante mordaz e interpretando ambas as personagens de forma perfeita.

Quanto aos grandes protagonistas temos Emma Watson como Bela e Dan Stevens como Monstro. E é aqui que o filme não toca a perfeição. Difícil de compreender se é fruto da falta de carisma de Emma Watson ou se é alguma falha por parte do realizador na direção de actores, mas é justamente na sua grande protagonista que o filme, apesar da elevada qualidade e de nos transportar para o mundo da magia, não nos consegue arrebatar totalmente. (E este filme e história tinham tudo para sermos totalmente arrebatados!) Emma Watson tem uma interpretação competente, mas não nos consegue fazer voar para esse mundo de sonho cujos actores são veículo. Outra falha (a meu ver muito grave) e que terá também contribuído para essa falta de je ne sais quoi da Bela de Emma Watson é o guarda-roupa. Todas as personagens, estão impecavelmente (leia-se adequadamente) vestidas, desde o início (menção especial para a sequência do baile inicial e para o guarda-roupa do Monstro, em particular na cena final do filme), excepto a única que se esperaria estivesse impecável e à altura do que representa: Bela. Por esse motivo, é possível que o que eu considero que não está à altura da protagonista e do filme, tenha sido feito propositadamente: os dois últimos vestidos com que Bela aparece são, na minha opinião, desadequados às cenas e também à situação. Talvez o objectivo fosse justamente caracterizar Bela de maneira simples e algo provinciana através daquela indumentária, mas – a meu ver – isso não faz qualquer tipo de sentido, até porque Bela teria sido vestida por Madame Garderobe com a toda a sua sofisticação e exuberância. Para além disso, a personagem não reflecte todo o esplendor que seria expectável dessas cenas e que era brilhantemente exprimido pelo desenho animado. O vestido amarelo merecia mais glamour e volume (para além dum penteado e maquilhagem à altura) e a cena final merecia uma Bela que se destacasse e ela perde-se completamente no meio de todas as personagens. Está mais do que provado que a maneira como nos arranjamos e a imagem que transmitimos ao mundo tem não só um impacto importante na maneira como o mundo nos vê, mas – e sobretudo – no modo como nós próprios nos vemos, afectando a maneira como agimos e nos comportamos (e que porventura poderá ter contribuído para a falta de carisma de Bela). No entanto, e apesar desta falha portentosa, o filme como um todo está muito bem conseguido e relembra-nos porque é tão bom ir ao cinema.

A história de A Bela e o Monstro é mais antiga do que se pensa e tem por trás uma série de simbologias a nível emocional, particularmente exploradas por Carl Jung com a descrição da anima e do animus. Aliás, o pormenor de o pai ir colher a rosa para Bela e ser todo esse o despoletar dos eventos é bastante fiel à história original. Não me alongando aqui na riqueza psicológica e psiquiátrica deste conto de fadas, posso apenas referir que para além dos arquétipos de Jung, temos também uma representacão do síndrome de Estocolmo na personagem de Bela, distúrbio de personalidade narcísica no caso de Gaston e depressão profunda no Monstro das cenas finais. Todas estas personagens são representativas do complexo mundo emocional a que estamos expostos na condição humana.

A Bela e o Monstro tem uma das lições mais importantes e bonitas dos filmes infantis: conseguirmos olhar para além das aparências. Conseguirmos realmente tomar o tempo para conhecer verdadeiramente alguém e em como tão verdadeira é a frase “Beauty is in the eye of the beholder.” Ambos os protagonistas sofrem uma evolução exponencial desde o início da história: Bela aprende a ver para lá da forma e Monstro aprende a olhar para dentro de si e a amar. Na partilha e na cumplicidade, da solidão e paixões que acabam por os unir, pois ambos são/estão desajustados à realidade em que vivem. É, sobretudo, no encontro que nos encontramos. Nessa harmonia de almas que conseguimos ver-nos reflectidos também. E a maneira como Monstro ama Bela é transmitida na de forma sublime por este poema de Shakespeare.

A Bela e o Monstro é uma história que apaixona miúdos e graúdos, rica em momentos musicais esplendorosos, particularmente a Be Our Guest que é uma carrossel de alegria, e que vai continuar a encantar gerações, porque o poder da magia é intemporal.


sobre o autor

Natália Costa

“Sometimes nothing can be a real cool hand.”

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