Reportagem


Ozzy Osbourne + Judas Priest

Uma invasão de cabedal e trevas

Altice Arena

02/07/2018


Durante dois anos, Ozzy Osbourne vai andar na estrada a despedir-se dos fãs que reuniu ao longo dos tempos. No More Tours II (nome retirado da primeira No More Tours de 1992) vai colocar o ponto final no legado de 50 anos de um dos fundadores do heavy-metal. O que faz com que o que assistimos em Lisboa se torne provavelmente num marco na história da música pesada. Depois de uma grande espera o eterno Prince of Darkness aterrou finalmente em Portugal e com ele trouxe outros gigantes do metal: os britânicos Judas Priest. Ingredientes de luxo e receita infalível para uma noite memorável.

A noite começou cedo com os gigantes Judas Priest a descarregarem a primeira “Firepower”, que dá nome também ao mais recente álbum. A banda está longe de morrer e este portento de Birmingham mostra que em 2018 continua a ser um vulcão do heavy-metal.

“Grinder”, “Sinner”, “The Ripper” revisitam a sua era clássica para depois voltarmos à carga com a nova “Lightning Strike”. Rob Halford ainda tem fôlego para as mais desafiantes canções, como “Turbo Lover” a primeira da noite a arrancar uma reacção mais efusiva da plateia. A conhecidíssima “You’ve Got Another Thing Coming” faz cabelos voarem.

A inigualável entrada em palco de Rob Halford com a Harley Davidson não ficou de fora e arrebata os nossos corações com “Hellbent For Leather”. Exorcisam-se demónios em palco e nos nossos couros capilares. É ver público das mais variadas idades a fazer headbang e air guitar, numa plena comunhão com a música.

Richie Faulkner e Andy Sneap dominam as guitarras e Ian Hill, o único baixista que a banda conheceu marca o compasso. Scott Travis com o seu solo de bateria, dá o mote para uma das mais extasiantes de Priest. “Painkiller”, pois claro, é um impulso de energia na multidão. Todos puxam pelas goelas para se igualar a Halford.

Para o fim ficaram clássicos como “Metal Gods” e a intemporal “Breaking the Law”, com a aparição surpresa de Glenn Tipton, mítico guitarrista da banda e afastado dos palcos desde o início do ano devido ao progresso da sua doença de Parkinson.

No final, enquanto se despedem, deixam no ar uma promessa com a mensagem “The Priest Will Be Back” a aparecer no ecrã gigante. Teremos concerto em nome próprio para breve? Se sim, não se espera menos do que excelência.

Pelas 22h surge no ecrã um repertório de imagens promocionais e vídeos de Ozzy Osbourne ao longo das décadas e apoiado pelo som de “O Fortuna” de Carl Off. Com uma cruz gigante no meio do palco e um painel a dizer “Ozzy”, o próprio surge em palco abrindo as hostes com “Listen! I want you to go crazy tonight!”.

Arranca com “Bark at the Moon” de 1983, seguida da bem recebida “Mr. Crowley” e só ainda vamos em duas músicas mas já entrámos em apoteose. “I Don’t Know” continua a celebração. Passando a “Fairies Wear Boots” e “Suicide Solution”. “No More Tears” do álbum com o mesmo nome, editado em 1991, é outro momento alto da noite, com um solo incrível de Zakk Wylde (que de resto se fartou de fazer solos). Seguem-lhe “Road to Nowhere” e “War Pigs” dos imortais Black Sabbath.

Entretanto é ver Ozzy a pegar em baldes de água e a despejá-los cabeça abaixo e pelo público adentro. Temos ainda tempo para um solo de bateria de Scott Travis. Zakk Wylde, por seu turno tocou um medley instrumental de “Miracle Man” / “Crazy Babies” / “Desire” / “Perry Mason” e posteriormente desceu até ao público para que o pudéssemos ver mais de perto a destroçar a guitarra. Toca com ela atrás das costas, com os dentes, nas mais variadas acrobacias. Primeiro vai tocar ao lado direito do palco e depois vai até o lado oposto. E assim passou por nós uma lenda.

Com um público que continua delirante a cada tema, ouve-se “Crazy Train” e a enorme “Mama, I’m Coming Home” que promovem a cantoria geral. Antes de sequer voltarem para o encore expectável, o próprio Ozzy já provocava o público dizendo “One more song! One more song!”. No final restam-nos duas, “Paranoid” dos Sabbath e “Changes”.

Se dúvidas restassem que iríamos presenciar uma avalanche da música pesada, essas dissiparam-se. Assistir a um concerto desta magnitude é carta banhada a ouro na caderneta de qualquer fã.


sobre o autor

Andreia Vieira da Silva

Partilha com os teus amigos