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Ama-San
Título Português: Ama-San | Ano: 2016 | Duração: 112m | Género: Documentário
País: Portugal, Japão, Suíça | Realizador: Cláudia Varejão | Elenco: Matsumi Koiso, Mayumi Mitsuhashi, Masumi Shibahara

Ama-San é o nome que têm as mulheres que mergulham nas profundezas das águas japonesas com o intuito de recolher “tesouro marinho”. Ama em japonês indica já por si “mulher do mar”, sendo que a maioria das Ama são mulheres e é uma tradição que perdura desde há 2000 anos.

Este documentário de Cláudia Varejão acompanha o dia-a-dia de três mulheres que partilham mergulhos há várias décadas, na península de Shima. No filme acompanhamos mulheres já na casa dos 80 anos num meio em que a média de idades é de 67. As Amas mantêm-se em actividade até uma idade muito avançada e geralmente são as mais velhas que conseguem ficar mais tempo no mar e obter melhores resultados. Neste caso, a idade não lhes retira capacidades e só lhes traz ainda mais destreza e resistência, tornando-as fascinantes.

Tradicionalmente, as Ama recolhiam pérolas, algo que já não acontece nos dias que correm por se focarem na captura de abalones, búzios, ouriços e algas para venda. As Amas são destemidas e cheias de bravura, asseguram o sustento da família e ainda podem manter outros trabalhos paralelos.

No documentário, vemos o clima de amizade e entreajuda que existe entre as Amas. Não competem entre si, são mulheres fortes e independentes que se apoiam e que mantêm viva uma tradição essencialmente feminina e milenar. Dão o máximo de si para capturar o melhor que podem e depois do esforço cuidam dos filhos e dos netos, cuidam de si mesmas e ainda arranjam tempo para actividades familiares ou reuniões com amigos onde cantam e se divertem. Vemos tudo isso num filme que não as condiciona, mantendo a sua distância. Somos espectadores silenciosos e respeitosos, gratos por ser connosco partilhada aquela vivência. A cena em que uma das netas de uma Ama vê pela primeira vez um pirilampo é especialmente deliciosa.

Fica a sensação que aquele trabalho é feito de afecto e partilha. O modo como colocam o lenço branco na cabeça tem uma arte. Vemos no documentário uma Ama mais experiente que ensina como se coloca. Parece simples, mas não é. Aliás, nada no trabalho das Amas é simples, como parece nos belíssimos e serenos stills do filme que capturam a elegância dos corpos que se movimentam debaixo de água em contacto com a vida marinha. De Março a Setembro e durante 4 horas por dia, repartidas entre a manhã e a hora de almoço, as Amas fazem-se ao mar. Escolhem submergir sem botijas de ar ou outros artifícios de apoio, de forma a perpetuar a tradição das suas antepassadas.

Ama-San é um retrato cru de uma tradição que perdura como símbolo feminista e que emancipa a mulher oriental. A Ama é uma mulher de valor inestimável para o país, reconhecida pelo seu mérito há milénios e que impõe uma ruptura com padrões definidos para a mulher. Daqui, além de uma cultura completamente diferente, extraímos valores que são transversais e um conhecimento sobre uma arte imensa, o que torna este trabalho de Cláudia Varejão uma viagem riquíssima e imperdível.


sobre o autor

Andreia Vieira da Silva

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