Entrevista


William Basinski

Naturalmente, há imensos loops terríveis que nunca serão utilizados, e outros onde acabo por gravar por cima.


Nos próximos dias 19 e 20 de Setembro, realiza-se mais uma edição do Amplifest na cidade invicta. De entre os vários nomes que recheiam o cartaz, há um que tem especial destaque: o norte-americano William Basinski. Embora não seja a primeira vez que vem a Portugal – passou por cá há dois anos, na Culturgest -, a sua singular carreira é sempre bem recebida. Hoje, lembramos a sua música. De cariz abstracto e improvisado, é simultaneamente um ponto de procura e descoberta, um delicado jogo no qual a memória, o tempo e o espaço são protagonistas. Para traçar um retrato mais fidedigno do seu trajecto, o próprio deu uma preciosa ajuda.

William nasceu em 1958 e viveu a sua infância na América do Norte; e quando relata a sua primeira grande descoberta musical, é difícil surpreendermo-nos – “foi quando me deixaram ficar acordado até tarde, para poder ver os Beatles no Ed Sullivan Show. Foi como uma explosão em todos os nossos cérebros!”. Mais tarde, já na adolescência, aproximou-se mais seriamente da música quando integrou a banda da escola secundária, tocando o clarinete. Seguiu-se o saxofone, numa abordagem mais ligada ao jazz; mas a sua carreira nos instrumentos ortodoxos tinha os seus dias contados.

Basinski começou a compor sozinho em 1976, sendo que as suas grandes influências musicais surgiriam apenas dois anos mais tarde. Steve Reich, nas manipulações de loops e na translacção das mesmas para um contexto de orquesta; John Cage, e a mentalidade de total experimentação que pautou a sua carreira – “his complete freedom to do almost anything and get away with it!”, diz-nos Basinski; e, por último mas não menos importante, Brian Eno e o seu seminal “Music For Airports” – “The peaceful and gentle melancholy just blew my mind”.  

Foi a partir destas influências que Basinski alicerçou a sua sonoridade e método de composição. Desde 1978, houve muita experimentação com fitas e loops, na tentativa de encontrar uma voz, ou um processo. E, por volta dos anos 80, aconteceu: os cabos metálicos do seu apartamento captavam audivelmente o som de uma rádio local, que passava uma espécie de musak de cordas; como na altura tinha a ideia de criar um mellotron caseiro, gravou alguns excertos em fita. Estava encontrado o catalisador para o momento epifânico: estas fitas, quando reproduzidas a uma menor velocidade, distorciam-se e espaçavam a música. Simultaneamente, “aparecia este súbito, enorme poço de melancolia, como se através de um microscópio descobrisse uma bactéria escondida…foi uma descoberta fascinante”.

Desde então, o compositor americano tem dedicado uma carreira inteira à gravação e exploração dos loops, desacelerando-os, repetindo-os, entregando-lhes uma capacidade de expressão que não tinham originalmente. São milhares de gravações passíveis de serem exploradas, embora haja um processo de selecção prévio: “Alguns estão prontos para produção, despertando um interesse imediato e que me impele a buscar-lhe a essência através de uma ou outra técnica. Mas esta é uma excepção. Naturalmente, há imensos loops terríveis que nunca serão utilizados, e outros onde acabo por gravar por cima”. 

As duas décadas que se seguiram, marcadas por pontuais exposições ou pequenos concertos, serviram para aprimorar um estilo nunca exclusivamente musical, e nem sempre compreendidos pelo público em geral; os artistas teriam uma maior facilidade, supõe Basinski, porque “eram pintores e também trabalhavam em lonas de grande escala. Todos fazíamos trabalhos semelhantes”. E, por volta desta altura, em 1997, compila o que se tornaria o primeiro álbum de estúdio, Shortwavemusic, com o aval de Carsten Nicolai – ou Alva Noto – na sua própria Raster-Noton.

Mas por muito que o evitemos, a cronologia da carreira do americano converge para a data que marcou, indelével e irreversivelmente, o panorama político, histórico, e cultural do século XXI. Em 2001, decidiu atacar o arquivo de loops que havia guardado ao longo dos anos; muitos deles gravados em fita analógica, claro. “Então, estava pronto. Configurei o sintetizador para compor uma nova peça, ouço um qualquer padrão de instrumento de sopro, e começo a gravar. Fui buscar café, e quando voltei apercebi-me que algo estava a mudar…o que se passava?”. Com o tempo, muitas das fitas ficaram marcadas com o pó, e o processo de extracção da gravação, no qual a fita está em constante movimento, provocava uma desintegração audível do seu conteúdo. “Tive que confirmar que estava mesmo a gravar, e pensei “Meu Deus, o que vai acontecer?” E durante cerca de uma hora, a melodia desfez-se mesmo em frente aos meus ouvidos…e olhos. Basinski, siderado pela sua acidental descoberta – a segunda da sua carreira -, planeou extrair os restantes loops. “O mais profundo, para mim, foi a sua natureza redentora; o facto de que a vida e a morte de cada uma destas melodias estava gravada, tanto no físico como na memória.” Era uma renovada esperança para o americano, que estava desempregado e perto de ser despejado da sua residência. Estávamos no dia 10 de Setembro, de 2001.

Quando, no dia seguinte, as torres caíram, Basinski tinha uma vista privilegiada para o Ground Zero, através do terraço do seu prédio. E entre o avião que voava baixo demais, e o primeiro impacto nas torres, a vida dos norte-americanos nunca mais seria a mesma. Impelido por um qualquer sentido de admiração da poética catástrofe, colocou um loop a tocar; e enquanto ardiam as duas torres, a fita revolvia em si própria, metamorfoseando uma melodia para que fosse apenas som. “De repente, todo o mundo mudou. Tomou todo um novo significado. À medida que os dias e meses passavam, as pessoas entravam na sua própria desintegração em medo, terror e ansiedade”. E então, uma terceira epifania musical criou os seus The Disintegration Loops – a definitiva banda sonora de um mundo em destruição.

Desde então, Basinski tem evitado falar do assunto, suspendendo um silêncio depois de terminar a história; e, em boa verdade, nunca permitiu que a sua carreira musical estagnasse. Há pouco tempo, e no âmbito dos 10 anos do atentado às Torres Gémeas, teve a oportunidade de os ouvir adaptados a música de orquestra de câmara, composta por Maxim Moston, em dois concertos que dificilmente esquecerá. Mas este ano editou The Deluge, que repete a fórmula do loop, sem redundar no mesmo destino. É este o trabalho que nos vem apresentar ao Amplifest, munido dos seus dois gravadores, um computador, e o vídeo preparado pelo seu companheiro James Elaine.

A intenção da sua música é retirar ao tempo o seu poder, e envolver o público numa hermética bolha de ar; e The Deluge, sem a carga programática que acompanhou os Disintegration Loops, será um óptimo mote para a experiência.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa.

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