MENUMENU

Entrevista


Adam Basanta

Para mim, não há muita diferença entre um violino, feedback, e uma gravação do barulho de uma rua.


© Pablo Riquelme

Gil Delindro e Adam Basanta chegam a Braga como vencedores do Semibreve Edigma Award, atribuído pelo Festival pelo segundo ano consecutivo. Trazem-nos Permafrost, uma instalação artística que evoca a noção de natureza e tecnologia, e as interacções entre estes dois mundos. A peça consiste num diálogo orgânico entre as duas componentes: pendurados no tecto, os pedaços de terra congelados derretem à medida que o tempo passa; e estão colocados em suspensão acima de uma plataforma sólida, sobre a qual caem detritos que entretanto derreteram. A plataforma está previamente preparada e reage sonoramente, mediante sensores e software específico, ao impacto de cada partícula.

A peça estará em exposição durante o Festival Semibreve, e estivemos à conversa com Adam Basanta sobre este projecto e as suas motivações. A sala que recebe Permafrost, à altura do nosso encontro, pouco revelou da sua estrutura final: fios pendurados no tecto, um escadote, e algumas marcas no chão; jaziam ainda vários altifalantes, interveniente indispensável à peça. Adam começou por explicar brevemente o esqueleto da estrutura. Pouco depois, sentávamo-nos ao computador para perceber alguma da programação inerente à plataforma.

Se tomarmos a concepção artística como uma actividade criativa individual – na música é um paradigma algo dominante, embora no cinema seja uma tarefa de maior colaboração, por exemplo -, Permafrost destaca-se por ser a união do trabalho de dois artistas. Foi a primeira colaboração entre ambos. Com formações e motivações distintas, houve a preocupação em “criar um diálogo entre as duas áreas num único trabalho”: Adam trabalha com “altifalantes, microfones, tecnologia de produção de som e teoria da comunicação”; Gil, por outro lado, “desenvolveu a ideia central da matéria orgânica que se decompõe”, que parece ser um tema recorrente no vasto trabalho que já desenvolveu.

Basicamente, os sons são produzidos quando a terra derrete e cai na plataforma, e isso é amplificado. Mas os altifalantes na plataforma não produzem som, dado que estão a ser utilizados com uma frequência de oscilação muito baixa. Na verdade – e isto remete para a questão da percepção – oscilam abaixo da nota mais grave que conseguimos ouvir, pelo que apenas sentimos um pulso, um ritmo. Movem-se para cima e para baixo, tão lentamente que é possível vê-los. O que neles produz som é a terra que cai na sua superfície, que depois se move com as pulsações oscilatórias, como se fosse um shaker: e torna-se subitamente um instrumento acústico.

Este tipo de abordagem à arte traz-nos a confronto com várias noções que temos da música, e da arte em geral; por aí seguiu a conversa. Recordámos como a música clássica teve um ponto de ruptura entre uma atitude tonal e canónica, e o movimento que se lhe seguiu com pretensões de  explorar a atonalidade, e o barulho, os sons envolventes, como parte integrante da própria música. Isto por altura do século XX, quando, a dada altura, a questão foi demasiado evidente para que se a evitasse: o que separa o som da música?

Eu já fiz uma série de instalações com feedback, e fiz um espectáculo [Small Movements] a usar o mesmo tipo de ferramentas”. Adam recorda uma performance recente, de 2016, quando usou vários microfones em contacto com altifalantes – produzindo feedback – para construir uma peça musical. Mas a essa chamar-lhe-ia música, porque é menos em relação ao seu som: para mim, não há muita diferença entre um violino, feedback, e uma gravação do barulho de uma rua”. Obviamente, esta é a perspectiva de alguém que viveu estes dois séculos, o presente e o anterior, onde colhemos todas as consequências de um quotidiano cada vez mais inundado de som, musical ou caótico. A cidade, argumentam alguns, tornou-se uma espécie de prisão onde a tortura é a omnipresença de som (o barulho dos carros, a cacofonia industrial, o frenesim das massas em movimento) e de luz (a iluminação nocturna, a proliferação dos ecrãs, a publicidade visual); habituámo-nos agora, mas há artefactos musicais que lidam precisamente com essa dicotomia.

E se esse tipo de trabalho se pode considerar música – porque “as pessoas ouvem, e há um início, um meio, e um fim, tal como numa sonata” -, o mesmo não considera em relação a Permafrost. Em comum com a concepção musical habitual, há o “ritmo, o tom, e a estrutura dinâmica”, mas há uma abordagem completamente diferente por parte do seu público. Numa instalação que do início ao seu fim pode abranger cerca de seis horas, o público experiencia-a de uma forma mais fragmentada. Perde-se o sentido de continuidade. “A diferença reside mais nos termos com os quais se pensa o tempo, e a forma como o público experiencia esse mesmo tempo – mais do que na diferença entre o som ser musical ou não”.

Por exemplo, ao contrário dos espectáculos musicais habituais, “não existe a componente de palco central”. Se, normalmente, a percepção num concerto é bastante controlada, aqui é possível “andar de um lado ao outro, aproximar da plataforma, ajoelhar e inspeccionar o objecto.” E Adam rapidamente associa esta liberdade dentro da sala, que, para todos os efeitos, é um espaço singular onde se interage com a arte, com uma ideia mais abrangente: “Na verdade, quando se planeia uma instalação, é semelhante ao processo de planear uma arquitectura. Poder-se-ia bloquear as passagens e condicionar o movimento, por exemplo – é necessário tomar decisões e pensar como isso afecta a própria experiência artística”. O próprio elemento do espaço é personagem interventiva na apreensão musical. E se esta ideia seria estranha há uns anos atrás, mesmo que tomemos anos como séculos, é actualmente cada vez mais relevante. Caminhamos para um paradigma de experiência completa, onde figura a música, a imagem, e até o próprio espaço. A percepção humana é extraordinariamente relevante neste contexto – e sobre tudo isto versa o Festival Semibreve.

Temos a ideia que a música tem a ver com o som, e por isso tudo o resto são elementos externos. Mas, numa instalação, todos esses elementos se tornam centrais. E por isso, é uma oportunidade para dizer “quero compor com som, mas também quero compor com os outros elementos”. E é uma oportunidade para os introduzir de uma forma muito detalhada e rigorosa.

E evidentemente, ao pensar em Permafrost há uma série de ideias que assomam fruto do evidente contraste entre a biologia e a tecnologia, ou o orgânico e o maquinal; pode ler-se vários comentários inerentes, talvez supérfluos à concepção original da peça, independente de outro motivo que não apenas o seu motivo estético. A terra desintegrar-se-á, cai e ribomba numa plataforma com vida, produzindo uma reacção não natural, embrutecida e fragmentada: haverá violência neste som?

Coisas como o derreter das calotes polares, a interacção entre natureza e tecnologia, são coisas com as quais vivemos e com as quais temos conflitos”. A arte pode ser um produto da reacção do ser humano quando confrontado com o quotidiano e restante mundo sensível, e frequentemente o resultado final chega atravessado de elementos intencionais ou inconscientes. “Nenhum dos dois se revê na ideia de artista político. Não nos lançámos para fazer arte que seja política, nem pensámos algo como “vamos fazer uma peça sobre o aquecimento global!” Isto é arte onde exploramos a nossa criatividade com certos materiais. Mas por outro lado, somos pessoas, temos ideais políticos e preocupações em relação ao mundo, e tudo isto se filtra no nosso trabalho”.

Como tal, a arte veicula ideias que podem advir de, e chegar a, lugares de revolta ou apaziguamento – a necessidade criativa, carregada ou não de motivos políticos ou de mudança, são acima de tudo uma manifestação individual de algo. O recente manifesto do realizador chileno Jodorowsky inspira esta ideia, quando admitiu sentir, passados tantos anos no cinema, finalmente ter conseguido criar “um cinema que cura”, ao invés de um que se contenta na dor, no caos, e na destruição. “A ideia de confrontação é muito importante para mim, porque acredito – e muitos dos meus colegas sentem o mesmo – que o impulso artístico provém de uma insatisfação. Faço arte porque não vejo a arte que quero ver. Num certo sentido, é uma insatisfação com a vida, a vida em geral. Sinto que é necessário fazê-lo.

“Há a minha vontade de partilhar algo, e junta-se uma comunidade à volta disso e é algo muito bonito, e especialmente quando não são apenas amigos meus, ou o meu vizinho; eu posso atravessar o Atlântico, como agora, e fazê-lo aqui. Duma forma estranha, interages com gente que nunca conhecerás pessoalmente. É uma coisa muito bonita. E é extraordinária a quantidade de pessoas que conheces através disto. A maior parte das pessoas não entra em contacto, mas de vez em quando recebo um e-mail, ‘Olá, vi o teu trabalho neste sítio, gostei imenso, diz-me quando voltas’. Conheces imensa gente através das viagens, e da montagem das peças, e às vezes conheces gente que não está necessariamente interessada em arte – e isso é fantástico. Pode acontecer de alguém chegar a esta instalação porque tinham uma festa, ou algo do género, na porta ao lado; e chegam aqui e dão uma espreitadela. E é mesmo fantástico poder ter esse contacto com pessoas que nem sequer estavam à procura desta experiência.

Permafrost estará em exposição durante toda a duração do Festival Semibreve, em Braga. Em breve, a nossa reportagem de todo o Festival.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa. (Ver mais artigos)

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