Top 10 de 2016 por Rita Neves

por Rita Neves em 9 Janeiro, 2017

Passou a altura do ano que mais detesto. Não é o facto de ser o final do ano e de nos apercebermos, eventualmente, que o ano teve mais de negativo do que positivo ou que foi numa direção de que não estávamos à espera. Decidir, depois de 12 meses, que álbuns se destacam e colocá-los por ordem de qualidade é sempre quase uma tarefa impossível, que muda diariamente. Portanto… não fiz bem isso. Escolhi os 10 álbuns que facilmente levaria para o meu túmulo este ano e acrescentei mais uns em baixo caso haja algum espaço extra.

#10 Beyoncé – Lemonade

O Mundo foi das mulheres este ano. Seria injusto não incluir neste top a que mostrou o dedo do meio com mais audácia e artimanhas. Nunca fui menina de Beyoncé (ainda que guarde as Destiny’s Child no peito com um carinho muito envergonhado), nem percebia a hype. Depois lançou o Lemonade feito bomba, afastou-se e riu-se do efeito dominó. O Lemonade é uma obra de arte, tão complexa (quantos géneros cabem num álbum?), incendiária e inspirada como a próxima. E, o pior de tudo, é que fica no ouvido.

#9 Klara Lewis – Too

O Too é, possivelmente, o espelho da instabilidade emocional. Quem já o ouviu, consegue perceber do que estou a falar: os sentimentos não finalizados e que não conseguimos identificar com exatidão, a rapidez com que tudo acontece, a subtileza de cada som que ali existe.  É como se Lewis nos tivesse desenhado umas linhas estranhas e dissesse “agora preenche fora das linhas”. É de roer as unhas, mas é uma viagem que vale a pena.

#8 Old Jerusalem – A Rose is A Rose is A Rose

Foi Gertrude Stein quem disse “a rose is a rose is a rose”, um floreado típico de quem faz das palavras vida. O que Stein queria dizer é que, no final do dia, as coisas são o que são. Não consigo ver um título mais apto para este disco. O “A Rose is A Rose is A Rose” é para ser ouvido lentamente, como quem lê um livro com muito cuidado para não perder um único pormenor. E é isso que é, na verdade. É um livro escrito com a destreza e o romantismo de quem já viveu e sabe, ao final do dia, como as coisas realmente são. Tive a oportunidade de o apanhar no Porto e o concerto foi um espanto.

#7 Marissa Nadler – Bury Your Name

Quem me conhece bem, sabe que me apaixono, muitas das vezes, pelas demos ranhosas e com fraca qualidade de variados cantautores, em que a letra (e os próprios arranjos) se distanciam ligeiramente da versão final. Não é porque sou um floco de neve; a produção é que, por vezes, retira o encanto que aficionados como eu vêem na chonice crónica que é o folk. Daí preferir o “Bury Your Name” – que mais depressa se poderia chamar de “Marissa Unfiltered” – que tem muito de imperceptível e de incoerente, mas muito de bom, também.

#6 Bloom – Tremble Like a Flower

Vi o JP Simões há (quase) 2 anos no TRC Zigurfest, em Lamego. Não tocou as músicas que o tornaram conhecido, nem aquelas que alguns ouviam a dar o salto para a música de cantautor. JP Simões já apresentava este novo projeto, Bloom, e o álbum “Tremble Like a Flower”, ao estilo incoerente e charmoso já tão seu, com umas covers pelo meio, uma delas da Jessica Pratt. Este álbum é uma pérola e quase ninguém ainda se apercebeu disso. Porquê?

#5 Jessy Lanza – Oh No

O tema recorrente deste ano parece ser “evolução”. Sinto que este foi o ano em que vimos muitos artistas crescer, a fugir do registo-assinatura, a correr na direção oposta. A Jessy Lanza foi uma dessas evoluções. E, para quem não a conhecia antes do “Oh No”, tal como eu, é ainda mais fácil ver esse salto. O “Pull My Hair Back” parece, em retrospectiva, uma espécie de prólogo do “Oh No” (quem nunca amarrou o cabelo para se poder mexer melhor atire a primeira pedra). É um disco arrojado, sim, mas que se mantém numa zona que parece uma de conforto. Em “Oh No”, Lanza faz de nós vítimas de um pop completamente incontrolável, que vai buscar mil e uma influências (aos Cocteau Twins, até) e que não pede qualquer tipo de desculpas por ser o que é. E ainda bem.

#4 Angel Olsen – My Woman

Este é daqueles que impressionou muitos e aborreceu outros tantos. Percebe-se porquê. Estamos todos habituados a uma Angel Olsen que, se não torna bonita a arte de desafinar (primeiros EPs, alguém?), deita o mundo todo peito fora, sem deixar nada por dizer. Mas o “My Woman”, para mal de alguns, é testamento de outra coisa qualquer. É ela a sair da caixa bonita e miserável em que nós a fechámos há uma data de anos atrás. A honestidade não se perdeu, muito menos o emaranhado de emoções que lhe correm pela veia. Não – Angel Olsen está a crescer, a tomar posse de si mesma, a fazer as escolhas que quer. E não há nada de errado nisso – muito pelo contrário.

#3 Pedro Augusto – Lamento/ Suite Alentejana/ Hysteresis

Live Low – e o “Toada” – constarão de vários tops de 2016, nacionais ou não. É aqui onde torço o nariz. Não porque não gosto do projeto e do disco – são ambos igualmente bons, já para não falar de que qualquer coisa que envolva a “Lembra-me Um Sonho Lindo” tem a minha atenção. Mas falta olhar para as verdadeiras relíquias lançadas pelo Pedro Augusto este ano, seja a “Worm Studies”, através da Ordinária, seja a “Lamento/Suite Alentejana/Hysteresis”. A “Lamento” é tudo e mais alguma coisa.

#2 Eluvium – False Readings On

É-me sempre muito difícil descrever Eluvium e o que Matthew Robert Cooper faz, ainda que seja fácil (e comum) encontrar metáforas frívolas para o descrever. É o género de música que evoca mais sentimentos e imagens em mim, ironia das ironias. Ainda assim, com Eluvium fica difícil. O “False Readings On” entra em nós muito facilmente e fica por cá durante algum tempo, tal é a complexidade do disco. Não é tão fácil de digerir como trabalhos mais antigos, como o “Copia” ou o “An Accidental Memory in the Case of Death” – isso seria atípico do M.R.C. – mas está no mesmo patamar, senão no superior.

#1 Julia Jacklin – Don’t Let The Kids Win

Este é daqueles bons. Daqueles de que não se pára de falar, em que o coração começa a bater com entusiasmo de tão bom que é. E com razão. É possível que Jacklin se tenha juntado ao meu cardápio de artistas favoritos com um só álbum, como se de um estalar de dedos se tratasse. Mas “Don’t Let The Kids Win” é tudo o que um disco deve ser. Não há melodias doutro mundo, nem o exagero de muitos songwriters que esticam a linha do miserável a ver até onde chega. Não é preciso. A inteligência mordaz e a sensatez precoce (ela só tem 25 anos; só) de Jacklin são mais do que suficientes para nos deixar presos até ao último segundo.

Menções honrosas:
The Comet is Coming – Channel the Spirits
GAIKA – Spaghetto
Black Mountain – IV
Azul-revolto – SOMA
Jozef Van Wissem – When Shall This Bright Day Begin
Kedr Livanskiy – January Sun
Ricky Eat Acid – Talk To You Soon
Yves Tumor – Serpent Music
Lolina – Live in Paris
Mark Kozelek – Mark Kozelek Sings Favorites
Kevin Morby – Singing Saw
Jenny Hval – Blood Bitch


sobre o autor

Rita Neves

Música nas horas vagas e nas outras também. (Ver mais artigos)

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