O ano cinematográfico (e não só): As nossas escolhas

por Arte-Factos em 2 Janeiro, 2017

Agora que um novo ano se inicia, recordamos o melhor e o pior de 2016. Cinematograficamente falando. Aqui ficam as escolhas da ilustre equipa de cinéfilos do Arte-Factos.

As escolhas de Bruno Fernandes

O MELHOR: Anomalisa, de Charlie Kauffman

No ano passado, a minha preferência foi para um documentário indonésio sobre o horror da guerra. Porque há uma reputação a manter, o escolhido deste ano é um drama existencialista em animação stop-motion. O grande poder de Charlie Kauffman não está nos gimmicks das suas histórias. Seja no envolvimento meta de Adaptation, uma adaptação de filme com Kauffman a ser personagem e autor e também irmão gémeo inexistente; ou na possessão mental feita a John Malkovich em Being John Malkovich; ou na clínica que apaga memórias selectivas em Eternal sunshine of the spotless mind. Qualquer um destes filmes demonstra, de uma forma soberba, o gosto que Kauffman tem pela queda do ser humano, pelos estilhaços da existência e pelo surreal da vida, mas acima de tudo pela beleza que encontra nos destroços de duas pernas que se fazem passar por ser humanos. Há uma enorme violência auto-destrutiva em cada um dos principais personagens dos filmes que escreve (e até que realiza, como comprovará quem viu Synechdoche), mas também a profundidade do amor, a transcendência que pode surgir da ligação entre dois seres humanos e uma procura permanente pela pureza dos sentimentos e das emoções como a única maneira de nos reafirmarmos como pessoas. Anomalisa é tudo isto, escrito como uma peça de teatro representada por pessoas tão imperfeitas que não são pessoas, mas sim bonecos animados com falhas, e o protagonista, um guru de vendas chamado Michael Stone, que se sente tão vazio e inanimado que bem pode passar hora e meia assim, apenas a ser trazido à vida através da animação. Há uma banalidade poética nas suas dúvidas, nos cenários de hotéis e táxis e bares, e o ponto de luz encontrado na Lisa anómala que dá nome ao filme, uma mulher que não tem nada de especial e no entanto, é especial por tudo e nada. Numa das mais belas sequências de 2015, canta-se Cyndi Lauper como nunca se ouviu e a intimidade deste momento é quebrada até pelo mais íntimo dos contactos. Há pesadelos e visões dentro de visões, há figuras de estilo e síndromes espalhados pelo filme e que são pistas para o mal de vivre de Michael Stone, mas o que existe acima de tudo, no desespero da dúvida, na pergunta sobre o que se fez e se valeu a pena, do que nos espera e do que conseguimos, existe uma verdade que é comum a todos os guiões de Kauffman, que co-realiza aqui com Duke Johnson num género de animação que parece não permitir grandes rasgos visuais, e no entanto, sentamo-nos, vemos e não há como não sairmos fascinados. Na verdade, é um pouco como a vida.

MENÇÕES HONROSAS: O assombroso e assombrado Son of Saul, de Laszlo Nemes, que traz uma maneira diferente de filmar o Holocausto; o respeito pela inteligência e afirmação da emoção humana como o mais cósmico dos mistérios em Arrival, Dennis Villeneuve; a chegada a 2016 de um filme de 2014 – Song of the sea, de Tomm Moore, a adaptação melancólica de uma lenda tradicional céltica no irreconhecível traço das animação do estúdio irlandês Cartoon Saloon; e entre outros mais, e porque estes filmes raramente se destacam em tops de melhores do ano, o surpreendente atrevimento estético de Doctor Strange, o melhoramento da fórmula do comic-book movie em Captain America: Civil War e um novo tom na paleta que sempre se julga esgotada em Rogue One – A Star Wars Story.

O PIOR: Hardcore Henry, de Ilya Naishuller

O conceito de edição escapa a muitos realizadores actuais do género de acção, que acreditam mais no barulho, no estrondo e em explosões quando se trata de prender o espectador ao ecrã. O russo Ilya Naishuller não deixa que isso atrapalhe e traz ao mundo Hardcore Henry, proposta de um filme movimentado filmado do POV do protagonista. Chamam-lhe homenagem a videojogo, chamam-lhe originalidade bem, vinda, mas eu chamo-lhe uma trampa. Porquê? Porque desconhece, em primeiro, como funcionam os olhos do espectador (que não são como os do camaleão e têm, na verdade de se focar em algo), o que deita por terra o entusiasmo por algo filmado completamente em Go Pros. O esquecimento de boa parte das boas regras do género de acção – o crescendo de tensão, a noção de geografia de espaço, o conceito básico de um plot articulado – ficaram na gaveta e o que interessa é experimentar e brincar ao CS em forma de filme. A história? Mal existe; os personagens? Quem? Dirão que não interessa, mas… caramba. Hora e meia da vida de uma pessoa deitada à rua. Passem ao lado, se puderem e se não puderem, lembrem-se que ao contrário dos jogos de vídeo, não há recompensa significativa no final de tudo. Pelo vazio da experiência e a vacuidade da execução, este foi o pior filme que vi este ano.

TELEVISÃO: Com consistência e mão segura, The Americans tornou-se em quatro temporadas na melhor série televisiva da actualidade. Esqueçam zombies, esqueçam imitações de crónicas medievais e outros fenómenos de hype semelhantes: o que é bom está aqui. A premissa dava-se ao thriller, mas é incrível como se tem tornado menos sobre espionagem e mais sobre identidade, sobre as diferenças entre seres humanos de espectros aparentemente opostos, sobre desejos não concretizados, sobre pertença, sobre confiança. Assentar todo este arraial num casal de espiões soviéticos entrincheirados em Washington, desenvolvendo trabalho para o KGB, é basicamente virar os nossos pressupostos sobre quem é bom ou mau na História, até haver um ponto onde não existem vilões: apenas gente plenamente convencida de que faz o que está certo; mas com a passagem do tempo, até esse “certo” se torna cinzento. A quarta temporada varre muito do que se vê hoje na televisão, fazendo contar as mortes e desaparecimentos de personagens até agora importantes para a história, dominando a narrativa da temporada mas recuperando, sempre a propósito, pontas soltas das anteriores para expandir a série e colocando uma estradinha para as duas temporadas que faltam. Transforma-se uma casa num assombro e o casal mais complexo e brilhantemente escrito da ficção televisiva actual está preso entre o dever e a família, entre as origens e a outra identidade que construíram para si e acima de tudo, entre quem confiar, no valor do sangue, da família e de como manter os inimigos e os perigos perto, dançando uma valsa com navalhas. Keri Russell e Matthew Rhys deviam ganhar Emmys (e é realmente um sinal dos tempos do hype que um produto desta qualidade passe muito despercebido, sem fanfarra ou parangonas, apenas para ser descoberto daqui a uns anos, em bingewatching num stream online. Porque acontecerá, acreditem. The Americans é um pináculo de qualidade e coragem, de história e História. É também o único local na televisão onde assistirão uma cena onde um 69 tem um propósito narrativo. E faz sentido.

MENÇÕES HONROSAS: A nostalgia dos anos 80 de Stranger things; a majestade da interpretação de Kenneth Branagh e o soco no estômago que foi a última temporada de uma das melhores séries policiais dos últimos anos, a britânica Wallander; a estranha e inesperada demência e subversão musical de Crazy ex-girlfriend; a brutidade, ambição e respeito pela banda desenhada original de Daredevil; a proeza raríssima de conseguir um último episódio perfeito e o legado que muitos apenas descobrirão quando se derem ao trabalho de ver a série toda sem preconceito de Person of Interest.

As escolhas de João Pedro

O MELHOR: Arrival, de Denis Villeneuve

Há algum tempo que Denis Villeneuve merecia reconhecimento. Depois de Prisoners (2013) e Sicario (2015), excelentes filmes que passaram incrivelmente despercebidos, o realizador canadiano parece ter finalmente atraído as atenções do grande público. Arrival não é um filme directo e pode ter desagradado a quem esperasse um filme em que terríveis aliens chegam à Terra determinados em destruir todos os grandes monumentos do planeta. Baseado num conto de Ted Chiang sobre a chegada de naves extra-terrestres ao nosso planeta, Arrival propõe uma abordagem cerebral a temas como a linguagem, a comunicação e o tempo, despertando uma série de reflexões interessantes sobre livre-arbítrio. Com a habitual atenção de Villeneuve ao detalhe, foi um dos melhores momentos cinematográficos de 2016. (A NOSSA CRÍTICA)

O PIOR: X-Men: Apocalypse, de Bryan Singer

X-Men: Apocalypse está bem executado. X-Men: Apocalypse tem um bom elenco. X-Men: Apocalypse tem bons efeitos especiais. Então como é que X-Men: Apocalypse pode ser um mau filme? Talvez não seja um filme péssimo, é verdade, mas após tantos títulos desta franchise, numa linha temporal em que já ninguém sabe às quantas anda, a série X-Men parece não ter mais nada a dizer. Neste capítulo nem a presença de Oscar Isaac, na pele de Apocalypse, salva um enredo tão esquemático como um episódio de Power Rangers. Embora competente, X-Men: Apocalypse é apenas um esforço inglório de baralhar e voltar a dar, num filme que se vê sem irritação nem entusiasmo. (A NOSSA CRÍTICA)

As escolhas de José Raposo

O MELHOR: Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira

Não é bem de 2016 (é de 1982, entretanto exibido só para eleitos em 1993 e 2015), mas certo é que só agora lhe tivemos pleno acesso. Quem escreve estas linhas não é fanático de Oliveira, mas aplaude-lhe este tesouro que nos deixou em herança. Entramos pela sua casa adentro, conhecemos a família e a arquitectura nacional, o que o movia e como se dava com a Vida, com a Morte e com Deus. Conhecemos as peripécias da sua vida e, à distância de mais de trinta anos, voltamos a aplaudir porque ainda tivemos direito a um renascer de Manoel de Oliveira e aos seus melhores filmes. Obrigatório para quem o quiser compreender.

O PIOR: A Canção de Lisboa, de Pedro Varela

Estabeleça-se que fazer novas versões de clássicos é uma tarefa extremamente inglória – sobretudo num País parco de meios como Portugal. Contudo, não é com cançonetas contemporâneas sem verve, nem com fraco desenvolvimento de personagens (e selecção de actores) e, pior do que tudo isso, com a eliminação liminar de marcas do original que se faz um grande remake. Não fosse a inclusão de algumas críticas mordazes às carreiras públicas de hoje em dia e a simpatia na promoção e o tempo nesta nova A Canção de Lisboa teria sido dado como totalmente perdido. Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva continuam a reinar, o resto são modernices sem qualidade.

As escolhas de José Santiago

O MELHOR: Nocturnal Animals, de Tom Ford

Tenho dito várias vezes que o segundo filme de Tom Ford é perfeito, vou até mais longe e afirmo que é um dos melhores filmes da década. É raro conseguir olhar para além de um formalismo exacerbado e conseguir sofrer com as personagens, perceber as motivações e aceitar o percurso que vemos no ecrã. É raro, mas o filme consegue fazê-lo e quase sem esforço aparente. A natureza orgânica de três narrativas que nos são apresentadas em simultâneo, denuncia uma minúcia elegante em termos estéticos e um estudo de personagens que resulta em interpretações absolutamente magistrais. O meu entendimento de um filme perfeito tem a ver com o rácio intenção/resultado, este filme consegue tudo a que se propõe e resulta numa experiência que permanece na cabeça do espectador, muito depois das luzes se acenderem. Um filme a milhas de distância de tudo o que estreou este ano.

O PIOR: Gods of Egypt, de Alex Proyas

É muito difícil escolher o pior filme do ano, é quase como cuspir num sem-abrigo ou abrir fogo sobre um corpo já morto. O mais recente trabalho de Alex Proyas é particularmente deprimente tendo em conta o passado do realizador e toda a inteligência cinematográfica de trabalhos como The Crow ou Dark City. Um história de amor banal com uma mitologia egípcia tornada literal em pano de fundo, nem esta descrição consegue demonstrar o desastre que nos é posto à frente. Os deuses são pessoas de três metros que se transformam em criaturas brilhantes e muito bem polidas, os actores são incuravelmente anglo-saxónicos e os efeitos especiais deixa-nos de boca aberta em descrença. É um daqueles filmes que tem de ser visto para acreditar, apenas possível pela completa falta de noção geral de todos os envolvidos. É uma tempestade perfeita e a definição de “ambição cega”.

TELEVISÃO: The Get Down

Há muito tempo que não me divertia tanto a ver uma série. Às vezes basta isso, estamos tão concentrados em séries que nos desafiam a pensar e a conjecturar sobre eventuais significados no argumento que nos esquecemos de narrativas mais simples. A ideia de contar a história do hip-hop sem fazer grandes questões de mencionar personagens reais é verdadeiramente audaz, mais audaz ainda é sermos apresentados a um conjunto de personagens fictícias que de uma maneira muito subtil também nos fazem um retrato fiel de Nova Iorque no final dos anos 1970. É fácil não olhar à partida para uma série que inclui números musicais, especialmente depois de exemplos como Empire, mas aqui, acima de tudo, vemos uma honestidade a que não estamos habituados. Baz Luhrman oferece-nos uma história sobre as dores de crescimento com um carisma raro, repleto de momentos enternecedores. É uma história simples mas que nos deixa envolver e como bónus acaba por ser pedagógica.

As escolhas de Natália Costa

O MELHOR: War Dogs, de Todd Phillips

Apesar de não ter acompanhado o cinema de perto em 2016, é fácil de concluir que o ano foi fraco, independentemente da minha ausência das salas. Aliás, essa ausência deve-se também ao facto de serem poucos os títulos que me cativaram e os que me chamaram nem sempre estiveram ao nível do que esperaria, como foi o caso de Julieta de Pedro Almodovar, Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children de Tim Burton, The BFG de Steven Spielberg ou Cafe Society de Woody Allen (apesar de tudo são sempre lufadas de ar fresco no que a arte cinematográfica nos tem vindo a dar, mesmo ficando a sensação de que nenhum filme este ano me cortou a respiração). É também importante referir que ainda não tive oportunidade de ver alguns dos mais recentes, nomeadamente Hell or High Water de David McKenzie ou Hacksaw Ridge de Mel Gibson, sendo que deposito grandes esperanças em ambos. Posto isto, há um filme que me surpreendeu bastante: War Dogs, de Todd Phillips. Para além de ser uma comédia brilhante com uma montagem soberba (particularmente a conjugação das imagens e das músicas escolhidas a dedo) que nos leva às gargalhadas – e que falta que elas fazem nos dias de hoje, quer pela crescente angústia global, quer pelo panorama cinematográfico actual – e é também uma crítica à guerra e, particularmente, às sociedades actuais, onde a lei é o dinheiro e é esse sim o poder último que dita as regras e que define o rumo social que o planeta tem vindo a levar. War Dogs desperta-nos para a dura realidade da matriz em que vivemos, onde somos subjugados pelas sociedades económicas a olhar apenas e tão só para o nosso próprio umbigo e somos escravizados de tal maneira que não parece haver saída possível, a não ser umas risadas com amigos e a esperança de que o amanhã seja melhor. Esse amanhã é responsabilidade de todos nós e, embora Todd Phillips nunca se refira a esse pormenor directamente, seria essa a mensagem subliminar. (A NOSSA CRÍTICA)

As escolhas de Sandro Cantante

O MELHOR: Nocturnal Animals, de Tom Ford

Tenho de confessar que achei este ano particularmente mau para o cinema e não saberia como escolher mais do que 3 ou 4 filmes que achei realmente dignos de mencionar. Desses acabo por ir pelo Nocturnal Animals, que nos chegou há bem pouco tempo. São várias histórias muito bem contadas por um realizador que está preocupado com todos os elementos que compõem um filme. Aliamos isso à Amy Adams e ao Jake Gyllenhaal a fazerem bem o que melhor sabem fazer e temos a receita perfeita. Cada uma das histórias contadas dava um filme melhor do que muitos que surgiram este ano, mas conseguir contar mais do que uma e interliga-las todas de uma forma que só aparentemente é confusa é qualquer coisa de especial. Tom Ford sabe o que faz no cinema e esta bonita história sobre vingança mostra-nos isso mesmo. Cá espero pelo próximo, daqui a mais uns 10 anos talvez.

O PIOR: Suicide Squad, de David Ayer

Não é, naturalmente, o pior filme do ano. Vi muitos que foram bem piores, mas aqui temos um filme que quer ser excelente e acaba por ser sofrível. Temos de nos lembrar que não foi há muito tempo que a trilogia Dark Knight acabou e essa era realmente boa, nós sabemos que é possível a DC ter bons filmes. Se calhar todos quisemos acreditar um bocadinho demais que era possível este também ser bom, mesmo depois de um quase tão horrível Batman vs Superman. Não saberia como dizer tudo num só parágrafo, mas muito resumidamente, Suicide Squad é um filme sem rumo, sem piada, sem acção digna desse nome e sem história para contar. Quando as maiores queixas se prendem com a falta de tempo de antena dada ao pior Joker a aparecer em filme, sabemos que as coisas correram mal. Todo o marketing foi bem feito e o hype criou-se, mas depois não deu em nada.

As escolhas de Sérgio Neves

O MELHOR: Paterson, de Jim Jarmusch

Qual poesia em movimento, Paterson é uma celebração da vida e do amor, nos seus estados menos idealizados. Acompanhamos desde início a semana de um motorista com aspirações a poeta, a viver num subúrbio norte-americano com o qual partilha o mesmo nome. Envolvendo-nos num ritmo contemplativo e desacelerado, imposto desde os primeiros e morosos suspiros matinais, o realizador Jim Jarmusch revela-nos da forma mais fluída um  conjunto de pequenos pormenores e acasos que se vão desenrolando com o cenário e com o quotidiano, e que vão enchendo de cor o carácter das personagens, e de vida toda a cidade, sem deixar nada à sorte. No entanto, o que de mais bonito tem Paterson é a incrível dedicação e amor demonstrados pelo casal, sem precisar de qualquer cliché ou sequer de um acontecimento em especial. A forma como toda a sua relação é descrita na poesia do motorista, e como se interligam e se aceitam, apesar das suas diferenças ou particularidades, deixando que a co-existência, os hábitos e a intimidade sejam veículos de todo o clímax da relação, faz-nos acreditar que este é um amor de facto urbano, real e sentido. Toda a tela deste filme é de uma beleza ensurdecedora e de um enorme e tranquilo equilíbrio, fazendo deste um óptimo e improvável candidato a filme do ano.

O PIOR: The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn

A plasticidade e superfluidade do mundo da moda, que tanto foca na epiderme, estendeu-se por Nicolas Winding Refn à própria película que o retrata, não aprofundando minimamente um enredo que podia ter tido tanto para explorar. O ritmo excessivamente compassado com que a história é contada apenas encontra um deleite mínimo na exploração do visual, com uma caracterização e uma direcção de fotografia impecáveis, mas alonga-se sem autoridade nem direcção pelo vazio atmosférico, falhando em fazer-nos submergir naquele ambiente inebriante que pretende transmitir, o tal que mistura drogas, invejas e instinto fatal. Tal como a apresentação do filme, The Neon Demon é um punhado de purpurinas atirado à cara do público, e só quem não quiser limpar a cara destes não verá a pobreza do mesmo.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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