Top 10 de 2016: Álbuns do ano

por Arte-Factos em 30 Dezembro, 2016

Estamos quase a fechar mais um ano e, se é verdade que 2016 está a ficar com uma fama terrível pelos motivos que todos sabemos, também não deixa de ser verdade que foi um ano cheio em criatividade, variedade e qualidade no que a lançamentos musicais diz respeito. Da nossa parte, não é que não tivéssemos já isso em mente quando partimos para esta tarefa hercúlea, mas dúvidas houvesse e foram imediatamente dissipadas com a construção desta lista, uma das mais difíceis de compilar dos últimos anos, com mais de 100 discos em discussão.

Contas feitas, para o bem e para o mal e sem mais demoras, foram estes os dez discos de 2016 escolhidos pela nossa equipa.

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#10 Wrekmeister Harmonies – Light Falls

Se no passado JR Robinson se serviu de uma entourage composta por 30 indivíduos para materializar Night of Your Ascension, desta vez o maestro visionário de Chicago reduziu os seus recursos ao essencial, provando que muitas vezes faz-se bem mais com menos. Light Falls versa o mais director dos vectores, o tempo. Partindo de uma leitura de Se Isto É Um Homem, Robinson examina uma vez mais a natureza e dignidade humanas, num disco que nos fala do tempo, de reflexão e das mudanças que estes operam num indivíduo. RA

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#9 Russian Circles – Guidance

Não se pode dizer que Guidance seja propriamente uma surpresa, no sentido em que estamos habituados a ter expectativas altas quando falamos em Russian Circles. No entanto, é interessante ver como a banda se reinventa de álbum para álbum mantendo sempre a sua identidade. Numa linha onde nem sempre é fácil manter as coisas interessantes e onde muitos falham, o trio norte-americano vagueia tranquilamente pelo campo do instrumental nunca dando um passo em falso, e tudo parece encaixar e ser feito com um propósito. Em Guidance a luz convive com a escuridão, tal como as partes mais melódicas convivem com a agressividade dos crescendos que se vão sentindo. Ainda por cima a viagem que os Russian Circles nos proporcionam aqui termina em “Lisboa”, e nós cá os esperamos no nosso país em 2017. HR

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#8 Daughter – Not to Disappear

De instrumentais ricos e ambiciosos e crescendos épicos se vai fazendo a ainda curta mas prolífica carreira do trio britânico Daughter, nome que se tende a confundir, pelo denominador feminino, com a voz delicodoce e inebriante de Elena Tonra, uma daquelas mulheres cujo carisma mora por completo no sentimento do tom da música que canta. Engenhosos arquitectos de cenários instrumentais classicamente frios e solitários, pontilhados de apontamentos reverberantes repletos de positivismo, os Daughter fizeram-se famosos pela internet há muito tempo atrás através de uma ode à juventude e à sua força e esperança, semblantes que se permitiram despir por completo neste último lançamento. “Not to Disappear” surge cinco anos depois do primeiro EP, e assume-se como um segundo álbum de composição profundamente trabalhada e com muito mais assunto que o choro pelo bem do choro. O ambiente é aqui taciturno e sufocante desde os primeiros acordes, apoiado em passagens sónicas arrepiantes e soturnas, e ensombrado por uma temática geral – a dor. A solidão, a perda, a falta de sentido na vida, temas cuja dor, assustadoramente fácil de assimilar e de tornar nossa, é amplificada pela secura e beleza do coro vocal e da reverberação, e pelos bonitos arranjos instrumentais construídos sobre a base do crescendo emocional, ora ruidoso e enraivecido, ora límpido, melódico e apenas triste. Uma treva muito própria que se deita connosco e que nos conforta no seu regaço. Para além do single “Doing the Right Thing”, um arrepiante e detalhado desabafo sobre a perda e a conformidade, destaque também para uma diferente e palpitante “No Care”, escrita de forma agressiva numa bruma sadista de quem precisa de amor como de ar. SN

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#7 The Avalanches – Wildflower

Ah, os samples. Desde que o antecessor de “Wildflower”, “Since I Left You”, foi lançado, o coleccionismo e corte e colagem de samples viu muita água passar debaixo da sua ponte: DJ Shadow fez de tudo um pouco, J. Dilla deixou-nos e entretanto emergiram figuras como Flying Lotus. Os Avalanches perderam membros, mas ganharam vários colaboradores de absoluto luxo neste álbum: Father John Misty, Toro Y Moi, MF Doom, Warren Ellis, Biz Markie e Jennifer Herrema dos Royal Trux, entre outros.

Em “Wildflower” ouvimos toda a glória de quem sabe trabalhar samples: entra-se numa gloriosa mixórdia de funk, disco e hip hop, com pormenores que remetem para o psicadelismo de sessentas ou o lo-fi de noventas (via os The Folk Implosion, de Lou Barlow), com os interlúdios da praxe do género. Se não se esperava grande coisa ou mesmo o impacto do disco de estreia, certo é que as mais recentes texturas dos Avalanches colocam-nos de volta ao centro dos plunderphonics.

Não se fiquem pelas óbvias “Because I’m Me” e “Frankie Sinatra”; “Kaleidoscopic Lovers”, “Subways” e “If I Was a Folkstar” estão à espera de audição atenta. JR

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#6 Angel Olsen – My Woman

Aos 29 anos, Angel Olsen é uma mulher. Aos 29 anos editou My Woman – na belíssima casa Jagjaguwar – e tornou-se definitivamente um dos nomes mais consensuais quando o tema é escritores de canções contemporâneos. Para trás ficou o charme lo-fi de Burn Your Fire For No Witness e a negritude dos seus momentos mais impenetráveis. Dado este passo e certamente os mais puristas a deixarão de lado para encontrar uma nova coqueluche – a bela surpresa Julia Jacklin, por exemplo. Apesar de mais polidas e musculadas (“Never Be Mine”, “Shut Up, Kiss Me”, “Give It Up”), as canções deste terceiro disco de originais continuam a demonstrar uma apuradíssima carga emocional (“Heart Shaped Face”, “Sister”) e até novas cores como na faixa de abertura, “Intern”. Em sentido inverso ao mundo que vimos este ano, My Woman deixou entrar muita luz nas suas canções, tornando-se, por isso mesmo, o refúgio perfeito para reclamarmos um aconchegante abraço. CVP

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#5 Bon Iver – 22, A Million

Após um interregno que foi longo, recordamos que o homónimo já data de 2011, este ano fica igualmente marcado pelo regresso de Justin Vernon aos álbuns com o seu projeto Bon Iver. “22, A Million” chegou já na segunda metade de 2016 mas teve ainda tempo suficiente para surpreender a crítica e vir parar a estas listas de final de ano. Dotado de um som bem mais electrónico mas sem deixar de lado toda a expressividade e sentimento que são empregues em todas as músicas daquilo que é e faz Bon Iver, podemos dizer que foi um bom regresso e uma boa surpresa que 2016 nos trouxe. JN

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#4 Car Seat Headrest – Teens Of Denial

Will Toledo encarna o espírito DYI nas gerações mais jovens. Depois de seis anos a gravar álbuns em casa, edita o seu décimo terceiro álbum (!!!) e segundo pela Matador Records com a sua banda Car Seat Headrest. Teens of Denial é uma delícia: as letras amadureceram. Muito. As dores de crescimento comuns a todos os jovens adultos que continuam sem sentir que pertençam a algum lugar continuam lá: a revolta, o vazio, a incompreensão, o descontentamento com uma vida que segue sem destino. Lutamos e libertamo-nos juntos em Fill In The Blank. Pouco depois, afogamo-nos juntos com The Ballad of the Costa Concordia (pun intended), um hino à depressão indie de 11 minutos que nos faz doer em todos os recantos da alma enquanto ouvirmos um desesperado If only I could sustain my anger / Feel it grow stronger and stronger / It sharpens to a point and sheds my skin (e ainda inclui um pedaço da White Flag da Dido lá pelo meio, repararam?). Não é fácil ser-se adulto e temos de agradecer a Toledo por conseguir representá-lo tão bem. Obrigada. Vemo-nos em Paredes de Coura. CF

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#3 David Bowie – Blackstar

A 10 de Janeiro o mundo acordou com a notícia do desaparecimento de um dos maiores ícones musicais do século 20. David Bowie, que acabara de lançar o seu Blackstar 48 horas antes, no mesmo dia em que completara 69 anos, apanhou-nos de surpresa 2 dias depois, fazendo deste registo irremediavelmente o seu último contributo e uma celebração do seu legado. Em 7 faixas, Bowie anuncia subtilmente que sabe que o fim se aproxima. Um saxofone mortiço acompanha-nos em “Lazarus”, um dos singles. Quão irónico é ouvir “Look up here, I’m in heaven”? Num registo jazzy, Blackstar é um prenúncio, o último suspiro de Bowie que se despediu para sempre da melhor forma possível. AVdS

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#2 Radiohead – A Moon Shaped Pool

Seria quase herético não mencionar estes britânicos. Qualquer que fosse o conteúdo de A Moon Shaped Pool, seria sempre parco quando comparado às altíssimas expectativas que o aguardavam, depois da misteriosa campanha que encetaram, e porque deles sempre se espera o extraordinário. Ouvi-o deitado. “Será disto que eu preciso, um novo disco dos Radiohead?”. Talvez sim. Talvez, até, do rumo que quiseram seguir: Daydreaming, na sua toada minimal e melancólica, define por extensão esta fase da banda, que não se entrega em cruzadas energéticas como os ouvimos em OKC ou HTTT, e dela sobressai um desejo de pausa, de acalmia. Chegámos, com eles, à catarse, como que uma reflexão do que para trás ficou; e contemplamos. É música de cair o pano, banda sonora para o esquecimento, e não a dor, de uma despedida. Fecha-se o ciclo como poucos imaginaram: True Love Waits, a elusiva canção que apenas fora editada no ano de 2001 num disco ao vivo, soa-nos belíssima, e apropriada. Não sei qual será o lugar deste disco daqui a um ano, ou cinco, ou dez; mas é bom tê-lo por cá. AJ

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#1 Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree

Num ano que ficará na memória por tudo aquilo que nos roubou é Nick Cave quem continua a saber guiar-nos pela perda. Skeleton Tree chegou-nos através do documentário One More Time With Feeling, um murro no estômago, um olhar de Nick Cave sobre si mesmo, o homem que continua a debater-se com Deus e a romantizar a morte, o homem que sofreu o golpe mais duro de todos mas que não quer ser objecto de pena, o homem que teme estar a perder a sua voz quando nunca antes ela nos chegou tão clara. Tudo isto numa teia de oito músicas despidas de instrumentação supérflua, que Warren Ellis entrelaçou de detalhes que nos arrepiam a pele a cada grito das guitarras e a cada lamento dos sintetizadores. Skeleton Tree é o que sobra da árvore da vida que perdeu todos os seus frutos, porque os entregou a todos nós, é uma dádiva, é a prova maior de amor que este ano nos deixou. VB


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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