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Álbuns do ano: Os melhores 10 de 2017

por Arte-Factos em 28 Dezembro, 2017

Mais um ano que está a terminar e voltamo-nos a encontrar naquele barco que atraca em lado nenhum para fazer um balanço musical dos 365 dias que ficaram para trás.

Fazendo um exercício de memória, é sempre interessante perceber o quão mais difícil se torna de ano para ano fazer estas listas colectivas com opiniões e gostos tão díspares dentro da equipa. Isso acaba por ser igualmente um reflexo daquilo que é fazer música hoje em dia e da forma como a consumimos, sempre com um filtro ligado mas em busca de projectos novos num mar de quantidade e qualidade que se alia a uma forma cada vez mais fácil de chegar a um determinado público. É daqueles problemas bons que não nos importamos de ter.

Contas feitas, vamos directos ao assunto de uma vez. Estes são dez dos melhores discos que ouvimos este ano.
 
Queens Of The Stone Age - Villains

#10 Queens of the Stone Age – Villains

Os Queens of the Stone Age são já veteranos naquilo que fazem e no seu currículo contam com discos clássicos e essenciais para o rock. Resumindo, têm já o seu lugar garantido na História.É um estatuto por vezes difícil de gerir, principalmente quando as expectativas são altas e um grupo parcial de fãs treme quando surgem as primeiras novidades de “Villains“: seria mais dançável. Um receio infundado, no sentido em que a qualidade está lá e continua intacta. Não há grande truque para ouvir “Villains“, é recebê-lo de braços abertos, dançar, bater o pé, abanar a cabeça e curtir o rock, como a banda sempre nos habituou. Este é um álbum que se despiu completamente de pretensiosismos, de mensagens políticas, de esforços para agradar este e aquele. E é por isso também um dos mais descontraídos da banda e dos que mais puxou a audições repetidas este ano. E não precisávamos de um destes? CM
 

#9 Kacy & Clayton – The Siren’s Song

Da pasmaceira provinciana e gélida de Saskatchewan, ​um dos nomes regionais mais engraçados ​​e difíceis de pronunciar ​d​o Canadá, provém uma necessidade básica de explorar a imaginação e de estimular a criatividade, no sentido de encontrar algo que fazer e que nos faça crescer. Este ambiente tem sido prolífero no encontro deste escape através da música e do contar de histórias, pois viu daqui brotar recentemente talentos como o cantautor Andy Shauf, ou o duo de primos Kacy Anderson e Clayton Linthicum.

Da vontade destes últimos nasceu um dos álbuns mais bonitos e intimistas deste ano. Explorando a fluidez da voz melodiosa de Kacy e o conforto que esta provoca, e a destreza instrumental de acordes simples e certeiros de Clayton e seus orientandos, Siren’s Song é um trabalho maturo e sensível, que tende a transportar-nos com facilidade para um imaginário alternativo e algo perdido no tempo. Produzido por Jeff Tweedy, o experiente frontman dos Wilco, que reza a história certa vez os ouviu em concerto e os agarrou de imediato, este é um álbum de rara imersão auditiva. Cada música concentra em si uma rítmica descomplicada, acessível e encantadora, brisa vinda de sudeste, e reminiscente de uns animados anos setenta, que inspiraram até a capa do álbum e o look dos artistas. Galvanizada pela mistura com os pequenos pormenores electrizantes, é no entanto na voz delicada e jocosa, a espacos quase cínica na sua doçura, que a sua música nos cativa, e onde encontramos consolo; no desenvolver de crescendos narrativos e emotivos de grande intimidade, de confissão de amores intensos, de desencontros, e das inrvitáveis dores da novela da vida. SN
 

#8 Fever Ray – Plunge

Oito anos depois do disco de estreia em nome próprio – e já depois de anunciado o fim dos The Knife – Karin Dreijer regressa, sem aviso mas com grande algazarra, com um mergulho a fundo nas temáticas feministas, queer (“my curiosity found a cavity and something to stick in”) e S&M (“gag me, awake my fighting spirit”). Grito de revolta contra as amarras sociais (“this country makes it hard to fuck”) e logo num ano em que um estudo publicado pela revista académica Archives of Sexual Behaviour afirma que em 2017 se fez menos sexo, Plunge é um verdadeiro tratado contra o tédio e o conservadorismo normativo, que incentiva ao espírito de rebelião através do seu ritmo visceral e pungente. CVP

 

#7 LCD Soundsystem – American Dream

Foi preciso esperar sete anos até voltarmos a ter a oportunidade de ouvir algo novo da pop electrónica com uns vibes mais rockeiros dos LCD Soundsystem. American Dream foi editado em Setembro e finalmente pudemos ouvir o resultado do que já vinha a ser preparado desde 2015, após o hiatus que sucedeu a This Is Happening, de 2010. Para nossa sorte a espera foi recompensada e os LCD Soundsystem entregaram um álbum fantástico. Eles dizem que “não perderam tempo com amor”, mas nós achamos que perderam um bocadinho. JN
 

#6 Tyler, The Creator – Flower boy

(Scum Fuck) Flower Boy foi dos discos a causar mais burburinho este ano pelas redes sociais, não por ser mais uma bomba que Tyler, The Creator tivesse lançado sobre nós, corrosiva e violenta, mas exactamente por ser o seu álbum mais confessional e sereno produzido até à data. Muitos ficaram chocados com esta “saída do armário” do rapper, sempre controverso pelas piadas homofóbicas, uma persona que constantemente levanta dúvidas na hora de traçar a linha que separa a caricatura do homem, a anedota da verdade. Mas se conseguirem esquecer tudo isso, Flower Boy é antes de mais um prazer auditivo, melódico e regado de interlúdios escorregadios de jazz, um disco amigo para a horas mais sós de cada um de nós. VB
 

#5 Ulver – The Assassination of Julius Caesar

Condensar o legado de enormes como William Blake e Fernando Pessoa em música dita popular — mas que no fundo acaba por ser consumida por um nicho bastante restrito —, não seria novidade no catálogo destes veteranos noruegueses. The Assassination Of Julius Caesar, vence por cruzar os vários níveis da cultura, entre beats, refrães e ganchos que facilmente poderiam passar pelas pistas de dança e rádios desta vida (se houvesse mais bom gosto e curiosidade, claro).RA
 

#4 Ermo – Lo-Fi Moda

Ermo abandonaram o passado, esconderam-se nas sombras e renasceram transfigurados em plenitude com a vida contemporânea, digital, multidisciplinar e fugaz. O disco é um momento raro em Portugal e faz-se em 9 capítulos com vestígios de eletrónica e trap, na dose certa de experimentação e batidas metralhadas pelo sintetizador, embalando a crescente vontade de romper com a norma. São a banda mais punk de 2017, atreveram-se a reconfigurar as regras e comprovaram que vale a pena arriscar para elevar a arte. Mas há algo que não muda: mantêm-se críticos e inconformados como se apresentaram em 2012, questionam o estado das coisas. Letras enigmáticas disparadas por voz sem rosto – “paleio para abafar um beat chunga“?, numa linguagem própria mas rapidamente descodificada por quem a escuta: serão os Ermo reais, dróides vindos do frito futuro ou fruto das nossas psicoses que em palco se materializam? Citando Luís Salgado, aka Stereoboy, “Lo-fi Moda é do caralho”. IL
 

#3 Ryan Adams – Prisoner

Dizem que é no desamor onde Ryan Adams encontra o seu estado nirvana. Que o “Heartbreaker” será sempre o seu melhor disco, já que nada é mais puro ou cru do que a miséria que segue um coração partido. O “Prisoner” consegue ser um excelente sucessor, no entanto. Consegue, até, ser o que o “Heartbreaker” nunca foi: uma dor controlada, sem excessos; os sentimentos continuam bem à flor da pele, mas não são capazes de paralisar. Antes, são motor para a criação de belos temas, melodias que ficam no ouvido e letras que ficam na cabeça durante dias.RN
 

#2 The National – Sleep Well Beast

As atenções dividem-se quando falamos dos The National. Há a malta que os acha os tipos mais chatos do Mundo, há aqueles que lhes são indeferentes e, por fim, os que os adoram e mal podem esperar pelo próximo abraço a Matt Berninger quando este vaguear por uma qualquer plateia nacional. Na verdade, a banda pode culpar-se apenas a si própria por isto, uma vez que lançamento após lançamento continuam com uma consistência assinalável dentro do seu estilo, para o bem e para o mal.

Sleep Well Beast mantém o registo e, para além do impecável trabalho instrumental, temos a voz de Berninger que nos deixa sempre de coração nas mãos, mesmo quando não canta sobre as amarguras da vida. E esse é um trunfo que os The National sempre souberam usar, e bem, para ter o público do seu lado: é fácil identificarmo-nos quando aquilo que ouvimos não nos soa falso ou pretensioso. HR
 

#1 Father John Misty – Pure Comedy

Depois do frenesim em redor de I Love You, Honey Bear (2015), Pure Comedy poderá ter soado a desilusão para quem estava pouco atento: menos dançante, e mais focado nas letras, agora assumidamente sarcásticas e meta-realistas, são elas que permitem a Josh Tillman exibir uma vez mais os dotes vocais, em desabafos musicados por uma banda que por vezes soa a orquestra. Isto, pudémos constatar, tem óbvias consequências na performance ao vivo, e na passagem do músico pelo Coliseu de Lisboa, em Novembro, pareceu muito o tempo que passou de guitarra nos braços, e insuficientes os momentos de braços soltos no ar (give us the moves!). Não deixa, no entanto, de ser o álbum mais relevante do ano: lançado poucos meses após a eleição de Donald Trump, parece exprimir a frustração do Mundo para com o estado de coisas actual. Sempre muito bem articulado, Father John Misty faz um apanhado da hipocrisia pós-moderna e prega – ele sabe que aos peixes -, sobre os vícios da condição humana em geral, mas sobretudo as armadilhas em que escolhemos cair, sobre o entretenimento como forma de consumismo, que, mais do que analgésico, acaba por implicar alguma perda de controlo e desresponsabilização, o comboio a passar-nos à frente dos olhos. A mudança de tom de FJM dita o fim da festa; agora vamos sentar-nos frente-a-frente e falar a sério: talvez esteja na altura de tomarmos as rédeas de novo a isto tudo. IC


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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