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Wanderlust: Let’s (not) talk about sex

por Edite Queiroz em 5 Novembro, 2018

Os novos modelos de conjugalidade, por assim dizer, são tema da recém-lançada mini-série britânica Wanderlust, uma co-produção entre a BBC One e a Netflix baseada na peça homónima de Nick Pane, também autor do argumento. No centro da trama, um casal de meia idade aparentemente exemplar (ela, psicoterapeuta, ele, professor) dá-se conta de que o casamento enfrenta um momento de crise, não por falta de afecto, mas por falta de sexo. O casal decide então desafiar a norma monogâmica por mútuo acordo e procurar novos parceiros, acordadamente temporários, descuidando, claro, os efeitos imprevisíveis dos seus actos. A Toni Collette e Steven Mackintosh como Joy e Alan, juntam-se os três filhos semi-adultos interpretados por Celeste Dring (Laura), Joe Hurst (Tom) e Emma D’Arcy (Naomi).

Um casal decide desafiar a norma monogâmica por mútuo acordo e procurar novos parceiros.

Os dados são lançados no primeiro episódio, que apresenta as personagens e uma possível origem para as dificuldades (sexuais) de um casal suficientemente realista e com dilemas concretos. A personagem de Joy (a genial Toni Collette), habituada a observar problemas conjugais no contexto do seu ofício, evita com dificuldade a projecção dos seus dilemas nos dos seus clientes, enquanto Alan dificilmente resiste à atraente e mais jovem colega de trabalho. O passo seguinte, no contexto de uma relação consciente entre dois adultos instruídos em pleno século XXI, pode parecer arrojado mas não deixa de ser coerente: trata-se da necessidade de criação de uma regra que permita o funcionamento conjugal, ainda que com claras consequências dentro e fora desse domínio. Em seis lições sobre a conjugalidade, a narrativa adopta diferentes focos que permitem aceder a pormenores sobre o passado do casal, à perspectiva das personagens secundárias, a questões de geração e de género muito curiosas e a uma reflexão, a espaços mais profunda. A perspectiva individual é explorada sobretudo através da personagem de Joy (o quinto episódio, inteiramente ocupado por um diálogo entre ela a sua própria terapeuta, é um dos momentos altos da série), mas há pistas consequentes para o prisma pessoal das restantes.

Duas dicas para ver Wanderlust com prazer: Em primeiro lugar, desengane-se quem espera um receituário conjugal. Ainda que ofereça a possibilidade quase psicanalítica de observar – e perceber – tudo o que pode acontecer enquanto quase nada acontece (spoiler: há uma cena longuíssima, em que Joy come quatro muffins  sem piedade depois de impecavelmente aperaltada para sair), a encenação hesitante, cheia de meias-frases e gaguejos, é deliberadamente superficial, emprestando ao texto um realismo que é de facto apelativo. E à medida que o desenho narrativo se encaminha para regressar ao seu ponto de partida, torna-se clara a intenção de abdicar da complexidade do tema para insistir num mero exercício (sobre família, casamento, desejo, fidelidade, perda da juventude), pontuado pelo tradicional humor britânico, com uma realização elegante e sem demasiados condimentos. Por fim, e mais importante, desengane-se quem espera uma série sobre sexo (embora o primeiro orgasmo feminino mostrado na BBC seja um dispositivo de publicidade eficaz). É antes um relato descomplexado de uma experiência – como definido no genérico de abertura, um forte desejo ou impulso para experimentar – que tanto tem de improvável como do seu contrário. Sim, há cenas de sexo, mas arriscamos dizer que o sexo é apenas a imagem na capa do livro.

Wanderlust estreou a 19 de Outubro de 2018 e pode ser vista na íntegra na plataforma Netflix.

 


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Edite Queiroz

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