The OA

por Isabel Leirós em 2 Janeiro, 2017 © The OA / Netflix

The OA, a nova série Netflix (produzida por Brad Pitt, entre outros), foi apresentada como uma trama de rapto e sobrevivência, pontuada de experiências paranormais e esotéricas, estreada pouco depois do muito bem sucedido Stranger Things.

Prairie, OA como agora se chama, regressa a casa depois de sete anos desaparecida. Desde início (e ainda no trailer) sabemos que algo lhe aconteceu: era cega quando desapareceu, regressava agora capaz de ver o mundo que a rodeia. Marcada por cicatrizes, OA recusa-se falar com os pais e não colabora com o FBI. Mas depois de reunir cinco improváveis companheiros – quatro estudantes de liceu e uma professora -, vai revelando ao longo dos episódios a sua história: na infância, adolescência e idade adulta – e, claro está, o tempo em cárcere.

A produção da série envolve-nos a cada relato, pois queremos muito saber o que aconteceu com OA, o significa o seu nome, como escapou. Mas é quando estas revelações começam a surgir que a série perde todo o encanto e credibilidade até…

Não tenho como falar desta série sem spoilers, pelo que a leitura daqui em diante fica ao critério de cada um.

THE OA

Prairie nasceu na Rússia filha de um oligarca. Desde sempre perseguida por sonhos premonitórios, morreu aos seis/sete anos num acidente provocado pelos inimigos do pai, mas foi no regresso à vida que perdeu a visão – um sacrifício proposto por uma figura mitológica que encontra no pós-vida. O pai escondeu-a dos inimigos num colégio interno nos Estados Unidos, mas quando este morre a tia russa retira a criança do colégio e leva-a para a sua vida miserável. A tia tem um negócio de adopção ilegal, e um casal que procurava um bebé encontra em Prairie a filha que sempre buscaram. A vida familiar decorre com toda a normalidade, apesar dos constrangimentos da cegueira, mas os sonhos vívidos de Prairie levam-na à medicação que controla os truques da sua mente.

Já em adulta, aos 21 anos, sai de casa em busca do pai biológico. E é este o caminho de perdição: depois de semanas a tocar no metro, é encontrada por um médico que se revela fascinado e estudioso de experiências quase-morte. Voluntariamente, acompanha esta figura paternal e segue viagem até à sua casa. À chegada, Prarie não se apercebe – devido à falta de visão – que está a entrar numa jaula. É aqui que é mantida em cativeiro durante sete anos com outros prisioneiros.

O médico de facto estuda a morte: ao longo do tempo, vai sujeitando o grupo a experiências e é neste nestas circunstâncias que vão contactando com a tal figura mitológica que – supostamente – lhes revela uma coreografia com o poder da cura e do renascimento dos mortos, capaz de abrir portais para outras dimensões. Aliás, as cicatrizes são gravações de cada passo de dança. Este momento é vivido de forma particularmente intensa com Homer, um jovem com quem cria uma relação muito especial.

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Neste momento, achamos mesmo que Prairie – que entretanto já recuperou a visão – vai escapar da prisão assim, por artes místicas. Mas não. A realidade decidida pela produção é miserável: é o captor que a expulsa da casa onde a mantém, abandonando-a na floresta. Um captor que joga com vida humana e mata sem escrúpulos, inacreditavelmente liberta a prisioneira. É este o primeiro passo mal dado na série.

O nome adoptado de OA é revelado lentamente aos mais astutos, mas dito pela própria perto do fim: original angel. A primeira das primeiras, supostamente. Pecado número dois. Foi o melhor que arranjaram?

Quando a série atinge o seu clímax, há uma revelação que parece salvar a série: um dos cinco elementos do grupo com quem Prairie, ou OA, partilha a sua história descobre uma caixa de livros que parece inspirar todo o que lhe foi contado… Um livro sobre os oligarcas russos, outro sobre anjos e morte, a Ilíada de Homero. Enfim, estaria Prairie desmascarada? Seria tudo invenção ou uma alucinação por falta de medicação ajustada à sua condição? Mas isto continua sem explicar como recuperou a visão e fica em aberto um mistério a desvendar na segunda temporada.

Quando a cortina vermelha parecia estar prestes a correr, aconteceu a cena mais inusitada dos últimos tempos. No liceu entra um atirador e Prairie alertada por um sonho premonitório corre para junto dos amigos. Escondidos na cantina, os cinco levantam-se e começam a dançar a coreografia aprendida. Basicamente, preveniram um massacre pelo poder da dança contemporânea onde apenas faltou o genérico dos Power Rangers, distraindo o atirador – tiveram sorte, podiam tê-lo enraivecido ainda mais -, num momento tão constrangedor e ilógico, que merece um Emmy especial. Distraído e imóvel, o atirador é derrubado e dispara cegamente, atingindo Prairie que assim sai sacrificada de todos os eventos.

Claramente, um fim ridículo (e que só visto, não consigo explicar melhor que isto) para uma série que acerta em quase tudo. Queremos conhecer a história da protagonista, queremos que ela se safe, acreditamos no seu esoterismo, sabe prender-nos o ouvido. Mas, afinal, transita para segunda temporada deixando-nos apenas encolhidos de vergonha alheia. Revive a última cena aqui, espero que o vídeo ainda esteja disponível.

Espero que episódios futuros mantenham a qualidade geral da série e que as pontas deixadas soltas se resolvam. Mas acima de tudo, espero que o que aconteceu a Prairie não seja revelado como inverdade – mas que haja uma explicação sólida e que OA seja capaz de resgatar os amigos que ficaram nas mãos do raptor. Em suma, não basta querer fazer uma série bonita sobre a morte, o pós-vida, ressurreição, encarnação e filosofia – há que saber fazê-lo.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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