MENUMENU

Person of Interest

por Bruno Ricardo em 22 Junho, 2016

Diz o lugar-comum que a boa televisão norte-americana existe nos canais a pagar; no entanto, também se afirma que as melhores séries passam na HBO e The americans é difundido pelo FX. Os lugares comuns existem por um motivo mas são também estereótipos pela mesma razão. Talvez isto explique uma certa apatia que rodeia o final daquela que é, na minha opinião, a mais consistente série dramática em canal aberto deste século: Person of interest. Surpreende a escolha, calculo: não se podia falar de Lost? The good wife? House, M.D.? (Desconto aqui The west wing, que é mais um programa dos anos 90.) Podia pois, e qualquer uma delas tem méritos – Lost tem das melhores temporadas inaugurais da história da Televisão e The good wife é simplesmente soberba até à última temporada e meia, mas a criação de Greg Plageman e Jonathan Nolan consegue ser esse bicho raro que é o produto de entretenimento que coloca questões pertinentes e até previdentes, levantando polémica naquele que é, talvez, o mais conservador canal de sinal aberto norte-americano, a CBS.

person-of-interest-2

Muitas vezes as séries não consubstanciam as suas promessas. É por isso um prazer acompanhar Person of Interest desde o primeiro episódio e verificar como cumpriu o seu potencial em pleno. A história de uma máquina que vigia os cidadãos para seu próprio bem não foi desperdiçada num procedural que, admito, até me agradava: o John Reese de Jim Caviezel é o herdeiro natural do lugar de justiceiro implacável que Jack Bauer deixava vazio. No entanto, a adição de Harold Finch, criador dessa máquina, acabou por dar à série um centro moral e um contraditório que a série 24 só teve a espaços (principalmente na magnífica quinta temporada) e as intrigas cada vez mais cruzadas com programas governamentais de espionagem ampliaram o foco de Person of Interest, transformando as suas pequenas inquietações em perguntas de extrema relevância para os dias de hoje. Questiona-se a validade da vigilância, os limites da lei num mundo onde os paradigmas mudaram, as boas intenções versus os instrumentos manipuláveis… Tudo isto, lembro, antes de Edward Snowden ter sido descoberto.

person-of-interest-3

Tudo começou como um procedural paranóico: Finch criou uma inteligência artificial que tudo vê e ouve, através de câmaras, dos nossos computadores, dos nossos telemóveis. Finch sabe, como a sua máquina, que nos tornámos cúmplice de um sistema que observa e monitoriza todos os nossos movimentos, anseios e inseguranças. É o Panopticon de Bentham dos tempos modernos e o cidadão é o seu maior agente e apoiante. Esta máquina, através de um algoritmo (ou, se quiserem, um macguffin necessário para a premissa funcionar) consegue prever crimes, detectando as pessoas envolvidas. Só não adivinha se será vítima ou criminoso. O inventor usa então o seu acesso a este imenso sistema para ajudar números que a máquina deixa escapar, por indicações superiores, e recruta então John Reese, ex soldado, ex CIA e badass em permanência. Esta versão da série, só por si, é engraçada: há um sentido de humor do ridículo de alguma situações, o envolvimento de Nova Iorque como grande urbe dos tempos modernos e palco perfeito para a paranóia da vigilância, cenas de acção bem coreografadas e simplesmente de deixar um sorriso na cara e também o pecado que é ver Caviezel, mais conhecido como o Cristo da paixão de Mel Gibson, a dar na outra cara, mas de criminosos.

person-of-interest-4

No entanto, a série evoluiu para a desconfiança em relação ao Governo e à introdução de outro sistema de vigilância mais poderoso chamado Samaritano, com propósitos menos morais do que o original e criadores que confiam na total infalibilidade da tecnologia: o Computador é Deus, que melhor que qualquer alma humana saberá o que é bom para nós: basta que nos entreguemos e aceitemos esta protecção e nada de mal nos acontecerá… se não formos um dos vários indivíduos que Samaritano considera perigosos para o cumprimento do sue plano. Nova Iorque é a prisão e os cidadãos são ao mesmo tempo perseguidos e protegidos por este segundo sistema controlado por humanos. No meio dos modelos clássicos da televisão norte-americana, há espaço para duas coisas que elevam esta série acima da mediania: uma é a quantidade de perguntas colocadas sobre identidade e vigilância e a presunção natural de que qualquer Governo com demasiado poder nas mãos está destinado a ser corrompido; a outra é a quantidade de bons actores que se passeiam pelas câmaras, desde papéis ocasionais até aos principais da série: Jim Caviezel é falsamente granítico, estóico, quase inexpressivo, mas com um dos olhares mais intensos do pequeno ecrã actual; Michael Emerson consegue traduzir inteligência simplesmente pela postura do corpo, e que dom é esse numa voz que agarra o espectador em todo o jargão tecnológico e deambulações morais que lhe circulam pela mente, um homem de grande intelecto, mas que criou um filho digital a quem deu uma alma e cuja relação é praticamente parenta; as adições de Sarah Shahi como a sociopata funcional Shaw e a sempre sublime Amy Acker como a ainda mais sociopata Root ofereceram alguma variação à dupla principal “sério/ainda mais sério”, mas também um percurso até à humanidade que corre em paralelo ao da Máquina; e Fusco, de Kevin Chapman, preso no lado cinzento da lei, tenta encontrar um propósito. É este o outro grande tema de Person of interest: a missão, o bem maior vs vitória e vontade individual. No fundo, diz a série, a máquina é o mundo e as peças somos nós. Resta-nos escolher se queremos ser engrenagem ou alavanca.

A sua inteligência narrativa, seja criando um mundo onde certos personagens recorrem em episódios para dar a ideia de que se vive num espaço orgânico e fluido, seja usando a morte de personagens principais com bom gosto e sempre tendo em vista um grande propósito final e a própria missão dos personagens, termina hoje à noite. O que começou como entretenimento descarado acaba como um espaço de discussão para alguns dos problemas maiores deste século, discussão entre-cortada por disparos e biqueiros, por um cão que obedece a ordens em holandês, por um mafioso mais empático do que qualquer uma das figuras legais que a série apresenta e acima de tudo, com anjos de fato e gravata que se deslocam entre os comuns mortais da grande cidade, escutando, observando, ajudando, invadindo a nossa privacidade sob o pretexto de nos salvarem dos nossos próprios problemas. Perturbam o quotidiano, passeando-se com armas de fogo, disparando sem mandato. Não perguntam se podem, agem; e no nosso sofá, lá atrás na nossa cabeça, olhamos para o telemóvel e perguntamo-nos: será que eu deixava?

Serás tu uma pessoa que conta?


sobre o autor

Bruno Ricardo

Partilha com os teus amigos