MENUMENU

Hannibal

por Bruno Ricardo em 31 Agosto, 2015

Tem-se tornado um lugar comum dizer que a Televisão vive uma Idade de Ouro em contraponto a um certo declínio artístico do Cinema. Os rumores da sua morte talvez tenham sido exagerados; no entanto, um caso em particular mostra como o pequeno ecrã pode ressuscitar e até renovar um personagem martirizado por adaptações cinematográficas de menor qualidade.

As dúvidas iniciais eram justificadas, mas no final tem de ser dar mão à palmatória: Hannibal, a série em que a NBC explora o infindável filão de uma das personagens de ficção mais importantes das últimas décadas, é, talvez, o único produto pós O Silêncio Dos Inocentes (1991) a respeitar o fascínio e poder que não só o Dr. Lecter, como o tema do Mal tem sobre nós.

Esse era, afinal, o grande fascínio do filme de Jonathan Demme e que já se entrevia na anterior adaptação do romance “Red Dragon” por Michael Mann na forma do filme “Manhunter”: Lecter não é simplesmente um serial-killer canibal, e Demme contrapõe todo o filme um banal e histriónico Jame Gumb à sofisticação e mistério de um homem preso para lá de uma película de plexiglass, como um demónio trancado no mais seguro dos lugares. Por debaixo da sua erudição, do seu sentido de humor retorcido e da curiosidade mórbida, Lecter é o Mal. Antes de conhecermos a figura, há toda uma antecipação, e quando a conhecemos, não ficamos desiludidos. Ainda que a performance de Anthony Hopkins seja deliciosamente camp, o que simboliza tem pouco de simpático. No entanto, atrai, porque, nós espectadores, adoramos o horror e a malevolência, mesmo que nos queiramos enganar. Hannibal Lecter é apenas um wish fulfillment desse desejo secreto.

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O icónico personagem, com a sua máscara, ficaram na mente do espectador, e os filmes seguintes, entre sequelas e prequelas, retiraram-lhe poder revelando desnecessário, criando-lhe um passado, tentando explicar aquele cuja força e domínio provinham precisamente de não ter origem ou sequer justificação, por ser um homem criatura, perigoso e imprevisível, livre até mesmo dentro de quatro paredes, e dominador ainda que parecendo dominado. Quando o canal NBC anunciou que iria produzir uma série sobre o famoso psicopata, temi que a decadência continuasse. No entanto, o leme foi entregue a Bryan Fuller, e o optimismo encontrou razões para deitar um olhar para fora do bolso. Fuller fora o criador de, entre outras, “Pushing Daisies”, o produto de uma sessão de sexo orgásmico entre “Big Fish” e “Le fabuleux destin d’Amélie Poulain”, algures entre o delírio da imaginação o um coração do tamanho da Ásia. Em três temporadas com oscilações de fulgor, “Hannibal” tornou-se numa série única no panorama da televisivo pegando num modelo já batido de análise de crime e perseguição de maus muito maus que matam gente. Fuller podia perfeitamente ter-se recostado aos livros de Thomas Harris e à fama do personagem que todos conhecemos, mas mostrando um desprezo pelo conforto, criou um objecto bizarro, surreal e esteticamente singular: é barroco, operático e de imaginação interminável na criação de cenários de horror que ficam na nossa memória durante bastante tempo.

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Fuller criou a série para ser o palco confrontacional entre Will Graham, um profiler do FBI que surgira na obra “Red Dragon”, e o conhecido psicólogo de tendência canibais. Não é tão fascinante na análise das raízes do crime e da razão pela qual os seres humanos adoram agredir-se uns aos outros, como a, essa sim, extraordinária série “Millennium”, onde um outro profiler, Frank Black, vagueava por um mundo onde as trevas eram campeãs, de lanterna em punho, procurando algum sentido na decadência das pessoas. O propósito, no entanto, é questionar o Mal de forma pessoal e não explicá-lo, e é aí que devolve não só a Lecter o seu território, como também, ao enveredar pela mente assombrada e de plena identificação homicida de Graham, criar uma história de amor estranha entre amigos, deixando sempre a porta aberta na ambiguidade de uma relação bizarra, torta e no fim de contas, inevitável. Se Carl Gustav Jung ainda fosse vivo, teria um vício televisivo todas as semanas em “Hannibal”. superficialmente no mundo real, pois o palco da acção é a infindável paisagem da psique: sonhos, símbolos e arquétipos são personagens principais de um tango mortífero, dançado em cima de um palco de navalhas onde Hannibal Lecter e Will Graham competem para fazer gancho um ao outro. Quem se mete pelo meio corre o risco de se tornar não só dano colateral, como aperitivo. É tão raro ver em televisão algo de tão cuidadosamente planeado, do ponto de vista mental que só apetece seguir.

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Três temporadas desvelam o que verdadeiramente move Hannibal, mas devagarinho e sem levantar muito o véu. A cara angulosa de Mads Mikkelsen permanece esfíngica toda a série, lançando adivinhas e enigmas dentro da cada um dos seus peões e as obsessões com a identidade dividida e o oposto como o nosso espelho alimentam a série, no meio de momentos de Grand Guignol extremo e de personagens que são moldados por Hannibal em direcção ao pior dos seus seres possíveis, ou se tornam reféns da maneira mais clássica, com medo, esperando uma espada de Dâmocles em forma humana. Há veados que deambulam por todo o lado com um augúrio negro que transforma os corvos de “Game of Thrones” em canários e essa tensão entre a diversão sádica e o terror de mau prenúncio resulta num espectáculo,  por vezes desnecessariamente tétrico e gratuitamente banhando-se no seu próprio sangue. No entanto, é fascinante e atrai na repulsa. Mads Mikkelsen é sempre um foco de fascínio e constrói um Lecter bem diferente do do Hopkins, mais letal e mais físico, muito mais ambíguo. É um dos actores mais inquietantes a plasmar os nossos ecrãs, sejam de tela ou catódicos, e aqui Hannibal Lecter às suas raízes europeias. Hugh Dancy pede meças ao dinamarquês na capacidade não só de projectar ambiguidade homicida, mas em tudo o mais que o torna um canalizador de psicopatia. Mesmo com outros bons actores (Laurence Fishburne, Caroline Dhavernas, Gillian Anderson e aparições esporádicas de Michael Pitt e Ricard Armitage), ambos destacam-se com naturalidade porque é deles a série.

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O final satisfaz em pleno, continuando na senda de uma série que se vai embora, mas nos seus próprios termos. Não revelando o que acontece, é apropriado e a última cena é dos melhores términos da história da televisão, na minha opinião, encerrando não só a mais satisfatória aventura de Hannibal Lecter incluindo mesmo “The silence of the lambs”, como lançando horas e horas de debate e discussão acerca da natureza do Mal, do que move o Homem, do que é uma vida bem vivida e satisfatória. Como se fôssemos Graham e Lecter, eternamente sentados em poltrona, a tentar capturar o outro, em simultâneo atraindo-o. Uma série que devolve a excitação do perigo à arte da conversa e das palavras, ou como a melhor prisão de Lecter é não dentro de quatro paredes, mas sim entre as arestas do pequeno ecrã.


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Bruno Ricardo

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