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Black Mirror, a distopia social da tecnologia

por Lucia Gomes em 3 Fevereiro, 2016

Na era das séries de televisão, do consumo veloz e episódico, surgiram recentemente vários exemplos da conjugação perfeita entre argumento, imagem e intérpretes. Séries densas, desafiantes a vários níveis e que rapidamente se tornaram em objectos de culto com legiões de seguidores.

É frequente encontrarmos escritas cada vez mais complexas, argumentos nada simples, que vão questionando o status quo, alguns mesmo subversivos, quase que autênticos manifestos ou uma espécie de agit prop numa sociedade cada vez mais alienada de si mesmo.

E no meio destes exemplos surge a absurda Black Mirror. Absurda porque assustadoramente possível e passível de se materializar. Absurda porque com interpretações incríveis em cada um dos episódios. Absurda porque notável. Absurda porque é da Endemol. A mesma Endemol que produz os reality shows em que se expõem 24/24 horas da vida de gente “conhecida”, em que alguém é vigiado, em que há quintas e casas e mais não sei quê e destrói a barreira público/privado, ao mesmo tempo que muda a forma de fazer televisão em todo o mundo e todos nos tornamos no vizinho coscuvilheiro do lado.

Black Mirror tem um pressuposto base: a relação do ser humano com a tecnologia. A dependência criada face à utilização dos aparelhos electrónicos, à conexão permanente via redes sociais, youtubes, emails, you name it. A distopia social criada com o distanciamento pessoal em prol do relacionamento digital e a sua implicação na consciência colectiva.

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A primeira provocação – spoiler alert, mas tem mesmo que ser – surge logo na cena de abertura do primeiro episódio da primeira temporada. Um primeiro ministro britânico, ainda de pijama, retirado da sua cama em sobressalto, com a notícia de uma duquesa raptada. A mensagem torna-se viral através do youtube e as exigências de resgate também: o primeiro ministro tem que ter relações sexuais com um porco, em streaming, sem cenários verdes, com difusão na internet e nos canais britânicos. Todo o episódio conta então a dinâmica e as reacções do gabinete, da mulher, dos espectadores, em cenas tão ilustrativas como toda uma audiência de enfermeiros colada a ver se o primeiro ministro aceita ou não. The National Anthem é, por isso, perturbador porque possível. Aliás, a primeira coisa em que pensei ao ver este episódio foi precisamente como ainda ninguém tinha feito isto.

A devassa do indivíduo com poderes de representação, observado e julgado pela sua decisão, movendo massas, num olhar doente (e cada vez mais doente) e obcecado essencialmente com a decisão do que propriamente com a salvação da princesa adorada. E mais não é do que um tratado sobre o efeito das comunicações das redes sociais e da forma como elas influenciam a forma de estar e de pensar.

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Fifteen Million Merits, por sua vez, relembra-me as pessoas bonitas de Marilyn Manson: The weak ones are there to justify the strong/The beautiful people, the beautiful people/It’s all relative to the size of your steeple/Hey you, what do you see?/Something beautiful, something free?/Hey you, are you trying to be mean?/If you live with apes man, it’s hard to be clean/Capitalism has made it this way,/Old-fashioned fascism will take it away.

O cenário é uma sala cheia de bicicletas, onde os gordos são gozados e humilhados e a condição física dá créditos para que possas comprar níveis de vida melhores – mais programas de computador, mais tecnologia, mais coisas. Corres para ter. Esforças-te para ter. Ter, ter, ter.

E tudo depende da maravilhosa audiência que assiste às tentativas públicas de melhorar a tua vida: é tudo um grande concurso de talentos, numa clara alegoria ao estilo de vida dos dias de hoje: trabalha mais, produz mais, acorda mais cedo, come coisas saudáveis, não bebas, não fumes e talvez, talvez tenhas um lugar nesta grande companhia global que é o capitalismo e vás ganhando o suficiente para poderes jantar fora e comprares um bom fato. E assim por diante.

Melhor do que isso, Black Mirror demonstra exactamente o que este estilo de vida faz aos idealismos. Numa distopia clara quanto ao futuro da humanidade: caminhamos todos ao mesmo passo e na mesma direcção, sem quem ninguém consiga libertar-se das suas condicionantes sistémicas.

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Por fim, a primeira temporada brinda-nos com o desespero e a prisão da exposição pública do pensamento e da memória. Em tudo idêntico ao que já se partilha via Snapchat, Instagram, Facebook, Twitter, … não há um milímetro da nossa memória que não possa ser perscrutado.

Em The Entire History of You, cada personagem tem um implante que permite que, ao invés de se chegar a casa e se contar como foi o dia, este possa ser mostrado. Com apenas um clique, os olhos projectam a memória e o que vivemos é visto por todos, através do nosso olhar. Muito à imagem de Strange Days, o filme de Kathryn Bigelow com Ralph Fiennes, Angela Bassett e Juliette Lewis, em que um pequeno aparelho nos permite viver as vidas de outros, Black Mirror fantasia (será?) um mundo onde qualquer pessoa nos pode mostrar a sua intimidade, os seus pensamentos, o seu ego. E o impacto que esse pequeno implante tem numa vida a dois. A catarse, a desconfiança permanente, a falta de individualidade, a inexistência de qualquer direito a si próprio. Nada é pessoal. Tudo é público e publicável.

Este artigo terá a sua continuação em breve.


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Lucia Gomes

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