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A minha carta de amor a “The X-Files”

por Bruno Ricardo em 25 Janeiro, 2016

Podia tentar escrever um texto bem bonitinho e racional sobre The X-Files, mas isso é impossível. Digo-o já como alerta, porque, sou honesto, esta é a minha série preferida. Há séries posteriores que serão talvez melhores, mas os nossos primeiros amores fixam-se e alastram como vírus alienígenas. Só que no meu caso, nunca me apanharam com os olhos negros.

É impossível exagerar o quanto eu e The X-Files estamos identificados um com o outro. Os meus amigos e conhecidos sabem-no, ao ponto do tédio, e quando surgiu a notícia de que Chris Carter, acordado de uma hibernação longa, decidira afundar os seus últimos desgostos televisivos num “series event” (obrigado, departamento de Marketing da FOX), fazendo regressar uma das mais emblemáticas duplas da História da Televisão, recebi dezenas de chamadas de atenção, links e até parabéns. Tudo porque eles sabiam, à exaustão, o meu amor pelas aventuras de Fox Mulder e Dana Scully; a minha identificação pessoal com o primeiro e absoluto crush pela segunda; de que, ainda antes da série, sou um interessado por fenómenos fora de comum; e acima de tudo, que apesar de uma capa bem costurada de distância emocional, o amor verdadeiro mexe comigo; e ainda antes de raparigas e moças incendiarem as minhas hormonas, Chris Carter entregou-me de forma episódica uma paixão imorredoira.

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Reparem bem que na altura não recebia TVI em casa. Para ver os episódios, precisava de me deslocar a pé até uma casa de forno de um familiar e assistir a duas horas a cada sexta-feira às novas aventuras da dupla de agentes do FBI que partia, de lanterna em pulso e gabardines bem fechadas, para a América urbana e, principalmente, as profundas e perdidas terras das grandes florestas, desertos e espaços, onde “civilização” é apenas uma camada de verniz que cobre a distância que existe entre um governo centralizado e a selvajaria, onde Mulder e Scully são o símbolo de um poder reconhecido, mas não totalmente respeitado e onde os tesouros do folclore da mitologia americana estão semi-enterrados e são mais poderosos do que qualquer atitude científica ou força política e policial. A série caiu num ponto certeiro da cultura norte-americana: o interesse na temática extra-terrestre estava em alta, depois do sucesso assombroso de Communion, livro de Whitley Strieber sobre raptos por extraterrestres; o início da nação de geekdom estava à espera de um farol de luz e The X-Files apareceram; os costumes mudaram o suficiente para que Dana Scully surgisse como modelo para um novo tipo de personagens femininas, independentes e fortes; e um grupo novo de guionistas reuniu-se nas primeiras temporadas da série, criando uma nova forma de escrever televisão e de onde se destacariam mais tarde Vince Gilligan, criador de Breaking Bad ou Howard Gordon, homem importante em 24 e Homeland. Não só revolucionou a própria Televisão, como a maneira como os espectadores vêem uma série e lidam com ela, aproveitando o impacto da recém-surgida Internet para amplificar as suas questões e pormenores. O primeiro fórum online sobre uma série foi-lhe dedicado, e os fãs por ali paravam para discutir as conspirações, os monstros, sabendo os títulos dos espisódios (um bom X-Phile, nome dados aos fãs, sabia distinguir um “F. Emasculata” de um “Syzygy” e de um “El Calusari”) e a pergunta que não queria calar: deviam Mulder e Scully resolver-se?

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O par foi fundamental para o sucesso da série, a sua química, subtil e cuidada, mais ardente do que muita sexualidade atirada à cara dos espectadores noutras séries. David Duchovny e Gillian Anderson, que não forma primeiras escolhas para os papéis, construíram durante as primeiras cinco temporadas um cruzamento de romance intelectual que parece saído de outras produções e gostos. Mulder e Scully discutem sobre coisas sérias e menos sérias, respeitam-se e consideram-se iguais e platonismo da sua construção romântica acaba por desvalorizar a velha máxima “será que sim, será que não?”, porque tal pouco importava. Mas o que importava de facto era saber se os actores regressariam para este evento de seis episódios. Voltam sim, e trazem outros personagens mais reconhecíveis, vivos (Skinner ou Monica Reyes, uma personagem das duas últimas temporadas) ou mortos (os Lone Gumen, grupos de três estarolas da conspiração, ou o famigerado Cigarrette Smoking Man, emblemática figura vilanesca da série). A paixão pode levar-me a dissertar sobre The X-Files durante horas, mas todos sabemos a seca que se apanha quando escutamos um amigo ou conhecido falar sobre a pessoa amada quando não demos nada para esse peditório. Por isso, e como a melhor maneira de conhecer uma série é vê-la, deixo aqui dez episódios que considero essenciais para entender como é alguém com o mínimo de sanidade mental pôde sucumbir, de forma tão aturdida, a uma paixão que devora em modo contínuo.

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#1 “Pilot” – O início de tudo: o primeiro encontro entre Mulder e Scully, a introdução das sementes de uma mitologia que viria a tornar-se confusa e dispensável, o imaginário extraterrestre estruturante na série e um sentido de humor que não tirava à série algum propósito mais sério mesmo com a roupagem de produção de género

#2 “Squeeze” – O primeiro episódio extra-mitologia fala de um tipo que come cinco fígados e hiberna trinta anos para voltar à mesma rotina. O conceito é assustador, o actor perturbador e entre personagens que apetece esmurrar e Scully a sucumbir ao colega spooky, “Squeeze” é um dos melhores episódios de toda a série, mesmo que tenha sido apenas o seu terceiro.

#3 “One breath” – Quando Gillian Anderson engravida no início da segunda temporada, os argumentistas inventaram que Scully seria raptada por extraterrestres para voltar mais tarde. Esse regresso dá-se com este episódio, desenrolando-se entre o plano real e o do Além, onde a série sai do seu molde de terror e entrega um drama consistente e emocional como se tinha visto poucas vezes até então. O monstro tinha um coração.

#4 “Home” – O mais polémico episódio da série, foi censurado incicialmente pela FOX e não repetiu durante anos nos canais da estação. O motivo? Trata de um horror presente entre uma família cujos filhos procriam com a mãe para prolongar a linguagem. Assustador. Tem um certo aroma de The Texas Chainsaw massacre, mas é acima de tudo um estudo sobre a América profunda e a sua capacidade para assustar os habitantes do mundo civilizado. A realização é de Kim Manners, o homem que mais episódios realizou na série e que, como curiosidade, foi citado pelo francês Alain Resnais, um dos nomes maiores do Cinema Europeu, como um dos seus realizadores preferidos dos tempos recentes.

#5 “Clyde Bruckman’s Final Repose” – Darin Morgan foi talvez o mais original dos guionistas da série, criando alguns episódios que subvertem o terror, a conspiração e todas as pedras basilares da série. Se o seu “Jose Chung’s From Outer Space” é a desconstrução meta da série, este episódio vencedor de um Emmy trata de videntes e crendices similares num prisma existencialista e com o tipo de humor que poucas vezes se vê, ainda hoje, na televisão em sinal aberto

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#6 “The Post-Modern Prometheus” – Um dos episódiois clássicos da série: gravado em preto e branco, como homenagem a James Whale, realizador de filmes como “Frakenstein, é um pequenio objectio separado da realidade, simpatizando com monstros de criação, analisando o comportamento mesquinho de uma cidade pequena e acabando, ao som de Cher, com Mulder e Scully a dançar agarradinhos. Escrito e realizado pelo próprio Chris Carter

#7 “Bad Blood” – A obra-prima de Vince Gilligan na série. Usando a mesma estratégia do Rashomon de Kurosawa, vemos a mesma história, envolvendo vampiros numa remota aldeia do Texas, contada por Mulder e Scully a uma comissão de inquérito do FBI depois de as coisas darem para o torto. Não só é divertido, como também um olhar para as personalidades de Mulder e Scully visto e contado um pelo outro

#8 “Triangle” – Chris Carter realiza um dos grandes show-off da série, um episódio filmado aparentemente num só plano (embora haja cortes pelo meio). Mulder perde-se no Triângulo das Bermudas e dá por si num transatlântico, em plena Segunda Guerra Mundial, onde a maior parte dos personagens principais e secundários da série têm um correspondete Nazi ou Aliado.

#9 “Monday” – Funcionando como um Groundhog day em modo thriller, o episódio encena uma série de eventos três vezes, o assalto a um banco e uma situação de reféns Cada repetição a mudar pequenos pormenores, o que conduz a imprevisíveis consequências. Um jogo de causa/efeito com o tempo e as suas variáveis.

#10 “X-Cops”: Na sétima temporada, a série tornou-se tão reconhecível que lhe permitiu inserir o modelo de outro conhecido produto televisivo, Cops, num mash-up que parodia os clichés de um e de outro. Filmado como se fosse um episódio desse escolho de Reality TV, é um mimo de humor.

Apetece-me maçar-vos com este amor que tenho, mas sei o quanto pode ser aborrecido repetir ad nauseam o quão perfeito é o objecto amado. Ontem, dia 24 de Janeiro, regressou esta série. Quero muito voltar a reatar com ela e reapaixonar-me como na primeira vez, quando, há mais de vinte anos, me perdi neste amor sem explicação por uma série sobre inexplicáveis. É assim o amor, dizem: sofre-se e chora-se, mas no fim de contas, não podemos passar sem ele. A meus braços, The X-Files.


sobre o autor

Bruno Ricardo

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