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Robert Duvall: O rosto da América profunda

por Bruno Ricardo em 8 Janeiro, 2016

A década de 70 do século XX foi tão pródiga em grandes actores para o cinema norte-americano que, entre os de Niros, Pacinos e Hoffmans, o nome de Robert Duvall é constantemente esquecido. O seu estilo natural, transformando representações em vivências, não é daqueles que facilmente fica na memória dos mais impressionáveis. No entanto, pelo seu corpo de trabalho, Duvall está lá entre os melhores. Brando foi para ele um exemplo, embora nunca tenha fugido de criticar a preguiça dos trabalhos posteriores do famoso actor.

Nascido na Califórnia, em 1931, Robert Duvall é descendente directo do general sulista Robert E. Lee e, coincidência ou não, é também conhecido por ser um dos poucos republicanos em Hollywood, ainda que as suas preferências políticas sejam, como o próprio já o disse várias vezes, mais complexas do que qualquer rótulo. A carreira de Duvall associa-se várias vezes a estereótipos de personagens do conservadorismo americano: oficiais do exército, cowboys, xerifes… Apesar da sua origem, existe nele uma paixão pelo estado do Texas e isso vem, precisamente desse amor pelo mais americano dos géneros cinematográficos. Uma boa parte dos seus personagens mais conhecidos, mesmo não sendo cowboy, funciona nos estados sulistas e do interior. Duvall é habitualmente o actor da América profunda, mostrando uma ligação à alma do país e da relação histórica com os espaços, algo que também pratica na vida real.

Apesar de Duvall considerar que o seu melhor trabalho foi feito em televisão, na mini-série “The Lonesome Dove”, é pelo Cinema que se tornou conhecido das audiências mundiais. Por isso mesmo, e homenageando-o no dia do seu aniversário, o Arte-Factos deixa aqui cinco dos seus trabalhos mais importantes no grande ecrã.

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The Godfather/The Godfather II (1972 e 1974)

Em dois filmes onde uma família de italianos coléricos e sanguíneos são uma das principais causas de mortalidade entre a comunidade italo-americana, Duvall é Tom Hagen, a figura legal de origem irlandesa adoptada por Don Vito Corleone. Hagen está na família, mas ao mesmo tempo não está, nunca pode. O seu conhecimento da lei torna-o numa espécie de calma no centro da tempestade, e Duvall interpreta esse aspecto de conselheiro, mas sem nunca redimir Hagen. O advogado nunca pressiona o gatilho, mas Duvall sabe, como nós, que é tão mau quanto qualquer um dos mafiosos de cuja defesa se encarrega.

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Apocalypse Now (1979)

Os trabalhos de Duvall com Coppola estão entre os mais memoráveis da sua carreira, talvez com, a excepção de “Rain People”. O papel de Bill Kilgore esteve para ser interpretado por Gene Hackman, com quem Duvall dividiu um apartamento, juntamente com Dustin Hoffman, em Nova Iorque no início da carreira do trio. Mas quando Hackman prescindiu, Duvall pediu directamente a Coppola que o deixasse interpretar um homem que se torna no espírito da demência do filme, a loucura e total falta de bom senso que atinge o Homem na face da guerra. É o grande tema do filme. De pé na praia, de tronco, quando todos os seus subalternos estão aninhados, com medo de levaram um tiro, Kilgore descreve calmamente o seu amor pela guerra numa frase que se tornou imortal “I love the smell of napalm in te morning…”, num dos discursos mais míticos da história do Cinema.

Tender Mercies (1983)
O único Óscar da carreira de Robert Duvall (em sete nomeações) veio com este filme, baseado na peça do dramaturgo texano Horton Foote. A história e de um cantor country alcoólico, caído em desgraça, que tenta reconstruir a sua vida casando-se novamente e procurando uma filha de quem e separou. O filme é sobre o amor da família, a ressurreição depois da queda e sobre muitos dos temas que povoam a música country, que tem um papel importante no filme e permite a Duvall exibir os seus dotes de cantor nalgumas cenas. Mergulhando na dor de um homem que procura um sentido, encontrando-o no amor aos outros e na religião, Duvall dá a esta alma caída uma graça e uma elegância que saem dos pequenos gestos e dos olhares. Daquilo que é mais humano, portanto.

The Apostle (1979)
Realizado pelo actor, contém uma das mais espalhafatosas personagens da sua carreira, um pastor evangelista chamado Euliss “Sonny” Dewey. Esta é uma outra história sobre ressurreição, mas com contornos de sátira, com Duvall a encarnar os epítetos dos carismáticos pastores religiosos do sul do Estados Unidos, mas sem nunca perder de vista a realidade do personagem, as suas falhas e as suas quedas.

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Open Range (2003)

Porventura o segundo melhor filme de Kevin Costner como realizador, é uma obra que vive dos seus secundários como Michael Gambon ou Annette Benning. Costner assume o protagonismo, mas de bom grado deixa que o filme seja entregue a Duvall como Boss Spearman, um vaqueiro da velha guarda que se vê apanhado num mundo em mudança na fronteira eterna dos Estados Unidos: o Oeste. Enquanto os valores da moral se perdem, Spearman mantém-se ao longo das tribulações da história, fiel ao que sempre foi: duro mas justo, valorizando o trabalho como a base do carácter humano e a amizade e companheirismo como um dos últimos redutos da sociedade dos homens. No meio dos tiroteios e das lutas, emerge da sua interpretação aquele que é talvez o valor que o talento de Duvall melhor evidencia: a decência.


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Bruno Ricardo

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