Martin Scorsese: Encontrei-o em Paris

por Isabel Leirós em 15 Novembro, 2015 © instagram.com/_belavilela

O meu Dia Mundial do Cinema deste 2015 foi bem especial: a convite da Cinémathèque française em Paris, tive a oportunidade de redescobrir Martin Scorsese, o melhor realizador de sempre pela minha bitola, numa exposição retrospectiva da sua vida e carreira.

A Cinémathèque é um dos pontos obrigatórios da cidade francesa, quanto mais não seja para conhecer o bairro vibrante e moderno em que habita, Bercy, assim como o bonito edifício assinado pelo arquitecto de renome Frank Gehry. A Cinémathèque oferece aos visitantes sessões de cinema intemporal, exposições temáticas, os relatos históricos do museu do cinema, e ainda um dos melhores brunches da cidade no restaurante 400 Coups. Até 14 de Fevereiro de 2016, o quinto piso está dedicado a Martin Scorsese, o realizador italo-americano que sempre manteve um olhar crítico e documental no seu cinema, concretamente sobre a sua Nova Iorque.

Fotografias, storyboards, uma Palme d’Or de Cannes, correspondência pessoal, excertos dos filmes, guarda-roupa, e até um mapa de montagem de cenas – enfim, a construção do filme – dão um toque intimista e único à retrospectiva. Incontornável: ver na íntegra e num dos grandes ecrãs da exposição “The Big Shave” (1967), a sua primeira curta-metragem também conhecida como “Viet ’67”, uma crítica ao comportamento destrutivo da presença militar dos Estados Unidos no Vietname na época. (disponível aqui)

Esta retrospectiva aproxima-nos daquela pessoa tão humana quanto cada um de nós, mas mais genial do que eu alguma vez serei. Recordamos a sua infância e adolescência em Little Italy, a sua passagem pelo curso de cinema onde recebeu o ensinamento que viria a ditar a carreira e a marca que o caracteriza: para um projecto de escola, o desafio foi filmar o mundo que o rodeava, as relações familiares e a vida quotidiana. E o resto faz parte da História do Cinema.

Aliás, a vida familiar tem um lugar muito especial no cinema de Marty. As relações fraternas que não nascem pelo sangue mas pela amizade, pela confiança e pela protecção do grupo, é transversal à sua filmografia: de “Tudo Bons Rapazes” (“Goodfellas” 1990), à relação entre Jesus e Judas em “A Última Tentação de Cristo” (“The Last Temptation of Christ” 1988) ou à sinergia indescritível que une Joe Pesci a Robert De Niro em “O Touro Enraivecido” (“Raging Bull“, 1980), o sentimento de comunidade está sempre presente, resquícios lá está de uma colectividade migratória que enfrentou o medo e se instalou na grande cidade que viu Scorsese nascer.

Cinéfilo e apaixonado pelos clássicos – como percebemos em “A Invenção de Hugo” (“Hugo“, 2011), a exposição destaca ainda a sua relação com Alfred Hitchcock. A tensão e o mistério também fazem parte do universo Scorsese, em filmes como “O Cabo do Medo” (“Cape Fear“, 1991), um dos meus favoritos do realizador, em que Nick Nolte se supera e Juliette Lewis se revela. E por falar em Nick Nolte e filmes favoritos, é encantadora aquela fotografia de Scorsese com Woody Allen e Francis Ford Coppola, aquando da produção assinada pelos três, o “Histórias de Nova Iorque” (“New York Stories“, 1989) – um dos primeiros filmes que me recordo de ter visto, com a sedutora «Whiter Shade of Pale» como momento musical maior. Cinéfilo, sim, até no seu trabalho pela preservação do cinema, recordamos ainda o dia em que se desafiou a produzir um filme de Hitchcock nunca antes concretizado, com apenas três páginas de argumento e usando a visão do mestre como sua. Vale a pena recordar este “The Key To Reserva” de 2007:

Martin Scorsese faz um cinema cru e realista, que acompanha a evolução da cidade que o viu crescer. Nova Iorque é musa e protagonista, sem medo de caracterizar as falhas e as virtudes. “Os Cavaleiros do Asfalto” (“Mean Streets“, 1973), o filme de Scorsese que me falta ver confesso, e “Taxi Driver” (1976) arrastam-nos pelas ruas marcadas pelo crime e pelo vício, “Gangs de Nova Iorque” (“Gangs of New York“, 2002) recorda-nos que o comportamento tribal e a luta pela sobrevivência fazem parte da identidade cultural da cidade.

E depois há os rostos: Robert De Niro, Harvey Keitel, Joe Pesci, Nick Nolte, Ray Liotta, Daniel Day-Lewis, Leonardo Di Caprio, Martin Sheen, encabeçam uma lista extensa de grandes talentos que colaboraram com Martin Scorsese. O que seria dos seus filmes sem estes magnânimos nomes de Hollywood? De Niro, particularmente, é outra pedra basilar do cinema do realizador, a expressão maior da força de quem quer vencer no mundo cruel. No ano em que comemora 50 anos de carreira, a exposição da Cinémathèque leva-nos também pelo seu crescimento como actor e recorda-nos que foi Johnny Boy, Travis Bickle, Jake La Motta, Rupert PupkinJames Conway, Ace – vilões e anti-heróis para quem queremos apenas o melhor e que até gostamos de ver vencer.

Esta retrospectiva da Cinémathèque Française à vida e obra de Martin Scorsese quase que justifica uma ida a Paris de propósito. É inspirador e emocionante perceber que não há limites para o génio humano, e que não devemos temer enfrentar e aceitar a realidade, por mais dura que esta seja. Mas, acima de tudo, é uma exposição que transforma o nosso olhar sobre o cinema do norte-americano, através de um homem que construiu uma carreira única e tão diversificada, que até um videoclipe do Michael Jackson assinou.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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