MENUMENU

Brian de Palma: A Hitch to scratch

por Bruno Ricardo em 11 Setembro, 2015

Estranho destino, o de Brian de Palma. O cineasta surgiu na década de 70, mencionado tantas vezes com os seus colegas de geração Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg e Martin Scorsese. Homens que, num período importante de transição no cinema americano, quando o sistema de estúdios abriu as portas a novos nomes que despontavam nas franjas mais independentes da sétima arte, se tornaram nomes importantes e reverenciados. Os dois primeiros como exemplo do que deve ser o realizador da arte do cinema; os dois últimos abriram o caminho da era dos blockbusters de Verão, sendo os mentores de todos aqueles que os seguiram no entretenimento em imagem.

O caso de Brian de Palma acaba por ser estranho, ou nem por isso. É certo que realizou filmes de género que se tornaram populares, mas boa parte apenas uns anos depois da estreia. Basta lembrar que Scarface, hoje um dos filmes acerca do crime organizado mais reverenciados pelos cinéfilos, recebeu verdadeiras coças críticas em 1983. No entanto, a sua ligação aos realizadores mencionados levou-o a ser protagonista da História do Cinema de outra maneira. Foi ele, por exemplo, quem descobriu Robert de Niro, entregando-lhe o seu primeiro papel de protagonista no filme Hi, mom; e, realizando audições para Carrie com George Lucas, quando este andava à procura dos actores para uma certa saga intergaláctica, ajudou a definir o elenco de Star Wars (contribuindo também para a escrita do texto que rola durante a abertura do Episode IV. Outro realizador que admitiu ter-se concentrado no cinema em parte devido aos seus filmes foi Terrence Malick.

Blow-out

De Palma foi ganhando detractores e inimigos ao longo da carreira. Desde acusações mais artísticas, como sendo mero imitador de Hitchcock, a misoginista e cruel, pela maneira como retrata a violência, particularmente contra mulheres, consegue-se perceber como é que um dos grandes realizadores americanos do pós-década de 70 seja considerado uma espécie de pária no seu próprio país, tendo ganho uma reputação sólida na Europa.

Entende-se porquê: o seu fascínio com temas como o voyeurismo e a sexualidade ligada à violência são recorrentes noutros cineastas do velho Continente, como Antonioni ou Godard (duas influências que de Palma admite) e a sua intransigência em relação à maneira como define e conduz o seu cinema é típica da ideia de auteur que tanto sucesso faz na Europa. Uma história apócrifa relata que o realizador terá ganho este gosto quando, em adolescente, suspeitou que o pai estava a desenvolver um caso extraconjugal e decidiu segui-lo com uma câmara para descobrir se seria verdade.

Verdade ou não, é um facto que muitos dos seu filmes giram em torno de uma relação fetichista com o olhar: Obsession, Blow out, Sisters e até os mais tardios Femme Fatale e Redacted giram em torno de observação e vigilância, de um controlo que de Palma tem sobre o que os personagens, e por conseguinte o espectador, vêem.  Por isso define acima de tudo como alguém que explora o potencial da imagem como narrativa. Numa entrevista à revista Empire, em 2008, comenta a certa altura: “Não estou interessado em muita conversa entre personagens. É aborrecido. O cinema depende de imagens para gerar suspense, tensão, terror ou ansiedade, e isso para mim é a pureza do cinema. É aquilo que procuro.

Carrie

É curioso que nessa entrevista, o realizador tenha destacado estas emoções, pois são aquelas que estão mais presentes nos seus filmes, mesmo nos mais comerciais.

A famosa sequência do roubo da CIA em Mission:Impossible é show off de Palma, controlando uma situação de poder nervoso, de literal suspense. Poucas coisas representam melhor esse gosto pela tensão do que um dos seus recursos estilísticos mais utilizados: o long take. Por vezes exibicionista, mas sempre um instrumento de deleite e estabelecimento do coração apertado. Na verdade, foi aquilo que me levou a admirar o cineasta nos meus primeiros anos de cinefilia. Admito que tenho uma atracção por esta ferramenta narrativa. Até mesmo um dos seus piores filmes, The Bonfire of Vanities, inclui um espantoso logo a abrir, e Snake Eyes, outra obra menor, oferece-nos outros de quase quinze minutos ao qual o restante filme não sobrevive: não só é um espantoso exercício de mise-en-scéne, como se torna essencial para o jogo de perspectivas e versões de uma mesma história, quase à Rashomon, que forma a estrutura dessa obra.

Gratuito? Talvez, mas também fascinante. Normalmente enquadrados de maneira muito apertada, criam no espectador a ideia de estar em cena, aumentando assim o nervoso miudinho e a expectativa de que algo vai acontecer.

the-untouchables

Por isso os filmes de Brian de Palma se situam quase sempre numa esfera operática e barroca, de sentimentos exacerbados e momentos extremos. É irónico, quando consideramos a maneira fria como o cineasta trata a narrativa e os personagens: são simplesmente uma linha entre o início e o fim do filme.

Um dos seus filmes mais recentes, Black Dahlia, é disso exemplo. O desenvolvimento da história pouco interessa: o realizador está interessado em imagens, escolhendo actores pelo seu perfil e usando um frame narrativo que nos apresenta as gravações em vídeo da personagem assassinada que coloca o filme em movimento. Para Brian de Palma, está tudo nos olhos e no olhar, em confiarmos no que vemos, em questionarmos até. Muitas das suas particularidades como realizador (o uso de ecrã dividido; a presença de doppelgangers) referem-se precisamente à percepção. Apenas nos filmes que Brian de Palma não escreveu estes tiques e obsessões não são tão evidentes, e curiosamente são estes aqueles que se tornaram mais bem sucedidos na bilheteira ou até com a crítica.

Parece ser esse o paradoxo de Brian de Palma: os filmes que o tornaram num daqueles nomes que por si só já levam alguém a ver um filme são aqueles que mais lhe fogem do controlo. Não quer dizer com isto que sejam maus filmes: The Untouchables é um filme de entretenimento excelente, e com uma realização tão boa que até mesmo um de Palma serviçal é melhor que muita coisa.  Carlito’s Way, um dos seus melhores filmes, continua a ser não só uma das melhores performances da carreira de Al Pacino, mas também uma pérola desconhecida da década de 90; e onde estaria muito do cinema de terror actual se  não fosse Carrie?

Femme-Fatale

The Untouchables lembra a acusação mais frequente que é feita ao realizador: o facto de “roubar” a outros, principalmente Alfred Hitchcock. Neste filme, uma sequência que envolve um carrinho de bebé e umas escadas foi imediatamente comparada a outra similar de O Couraçado Potemkine, embora de Palma insista que foi puramente por questões de agenda e orçamento.

As comparações com o mestre do suspense entendem-se. Alguns dos seus primeiros filmes têm paralelos demasiado evidentes com Psycho, Vertigo ou Rear Window (três exemplos máximos de voeyurismo no cinema, o que não é coincidência) seja em argumento, seja em usos específicos da câmara. Em Dressed to Kill, a principal actriz do filme morre na primeira meia hora esfaqueada no chuveiro; Obsessed é sobre um homem que pensado que a mulher morreu, encontra alguém igual anos mais tarde, e persegue-a o filme todo; Blow Out é sobre alguém que apanha um homicídio em áudio e o investiga.

No entanto, de Palma insiste que, apesar de inspirado, são tudo instrumentos do vocabulário cinematográfico disponíveis, e os mais indicados para aquilo que pretende de uma cena. Na mesma entrevista à Empire, parece até algo chateado com estas constantes acusações: “Comparações como essa mostra como é reduzido o seu conhecimento sobre Cinema, e não quão vasto (…) Os momentos Hitchcockianos são bastante óbvios. Não tenho qualquer problema em usá-los. Isso é a história da Arte (…) As acusações são estúpidas e não fazem qualquer sentido. (…) Para mim, é tudo gramática.” Justificadas ou não, são apenas as principais de uma longa lista de críticas acusações que têm marcado a sua carreira e que, talvez por isso, o tenham afastado do sucesso generalizado, comercial ou crítico, dos seus amigos da década de 70.

Mesmo Mission to Mars, que é a meu ver um desequilibrado, mas visualmente belo filme de ficção científica, foi quase esmagado por críticas negativas. Femme Fatale, um dos seus filmes mais acessíveis e até divertidos, e talvez a sua última obra de qualidade, teve o mesmo destino. Recentemente, com o experimental Redacted, de Palma fez um dos primeiros filmes sobre a segunda guerra do Iraque, e previsivelmente levou bofetada de críticos da Direita Republicana, girando acusações de anti-patriotismo pelo facto de o seu filme retratar não só a violação de uma civil iraquiana por dois marines norte-americanos, mas também uma sequência final onde se mostrou ao mundo, talvez pela primeira vez, fotos tiradas durante o conflito mostrando cadáveres de civis após os bombardeamentos norte-americanos. É um filme tanto sobre a guerra, como sobre a imagem e no cruzamento que faz vários formatos de gravação de imagem, sobre a percepção. Redacted é algo simples na denúncia que faz, mas nesse pequeno momento em que uma série de imagens horríficas desfilam defronte dos nossos olhos, fica gravado o credo que de Palma segue: o choque da beleza da violência como maneira de prender, enojar e despertar o espectador.

Scarface

Nunca foi nomeado para os Óscares, mas de Palma nunca procurou uma popularidade generalizada. A sua influência sente-se em realizadores como Quentin Tarantino e Gaspar Noé, principalmente pela maneira como plasmam a violência num ecrã.

A diferença está na elegância e na motivação da representação dessa mesma violência nos filmes do veterano realizador: a psicopatia humana faz parte da sua visão cruel e De Palma é claramente um dos grandes decanos do cinismo em Hollywood. É esse cinismo que impregna os seus filmes, que perseguem seres imperfeitos, homens que raramente encontram redenção e histórias que revelam o pior das pessoas e a fachada que esconde as depravações mais profundas do Homem.

É nesse cinismo que se encontra precisamente com Hitchcock e embora parte da sua obra seja o estudo de filmes alheios, há algo de vibrante e original na maneira como compõe os seus enquadramentos, por vezes de forma pouco ortodoxa, e como procura expressar nas imagens as indecisões da percepção. Como disse uma vez, a câmara mente 24 vezes a cada segundo, e de Palma nunca disse que era Gepeto.


sobre o autor

Bruno Ricardo

Partilha com os teus amigos