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Alan Rickman: O homem da voz de veludo

por Bruno Ricardo em 14 Janeiro, 2016

É um lugar comum entre jornalistas e críticos escrever que determinado actor é bom até lendo a lista telefónica. Parece um exagero, mas o aveludado tom de hipnose das cordas de vocais de Alan Rickman fariam todas as moradas e apelidos soar como se um anjo as declamasse à porta do céu. “Ar Dental dentistas” e “Rita Namorado” transformar-se-iam em poesia camoniana se Rickman as pronunciasse, com staccato, com pose. Dois especialistas académicos, um linguista e um engenheiro de som, concluíram num estudo que a voz masculina perfeita era uma combinação dos timbres de Rickman e outro britânico com velcro na voz, Jeremy Irons. Não se trata da modulação, nem dos graves, nem dos tempos: o que a voz de Rickman solta é classe.

Classe era mesmo a palavra que definia o actor.

Treinado no mundo do teatro, e considerando-se sempre um intérprete de palcos, estreou-se bastante tarde no cinema, aos quarenta dois anos. O convite partiu de John McTiernan, que realizava um tenso filme de acção que decorria quase inteiramente no espaço fechado de um edifício. Em Die Hard, Rickman seria Hans Gruber, o vilão que marcaria a sua carreira e também a de dezenas de actores ingleses que entraram em Hollywood pelo sucesso deste tipo de papel. Rickman não era o primeiro britânico vilanesco numa super-produção norte americana. Estava tão desabituado às exigências do grande cinema que torceu um joelho logo no primeiro dia de filmagens, depois de um salto. Para além disso, de cada vez que disparava no filme, fechava os olhos de forma reflexa, o que obrigou McTiernan a cortar o plano imediatamente depois de o actor premir o gatilho! Contracenou com Bruce Willis mas roubou a cena.

Alan-Rickman

No entanto, o seu Gruber era a personificação daquela que é o traço de personalidade que Rickman melhor desempenha: o desprezo aborrecido elegante. Gruber passa todo o filme numa exasperação contida não com as tropelias de John McClane, mas sim de todo um corpo de capangas e de americanos de cabeças em chamas que lhe perturbam um plano bem delineado e maquinal.

O actor passearia essa característica noutras obras como Galaxy Quest, Dogma ou interpretando Marv, o robô em perpétua depressão de The Hitchiker’s Guide To The Galaxy (na imagem). Mesmo o seu personagem mais conhecido, o professor Severus Snape da saga Harry Potter, tem na voz dois olhos altivos, a passada de quem se está simplesmente a dar ao trabalho de existir numa escola de feiticeiros. Essa paciência com o mundo é uma marca de todos os seus papéis, e raramente a exasperação tomava conta das suas interpretações. As excepções, como em Robin Hood: Prince of Thieves, são de assumido over-acting. O seu xerife de Nottingham é o tipo de personagem em que não nos surpreenderíamos se Rickman parasse a meio de uma cena esperando que o público lhe atirasse rosas vermelhas ou assobios. Mas na realidade, segundo aqueles que o conheceram, Rickman era o contrário, um simpático e atencioso cavalheiro.

Por isso mesmo, não foi apenas o mau da fita. Em filmes como Truly Madly Deeply ou Snow Cake (um dos filmes que mais gostou de fazer), há personagens falhados, quebrados, mas com uma graça incrível em frente à tragédia. Homens estóicos, mas partidos, que suportam existências normais e deprimentes, mas sentem e pulsam e amam. Colin Firth é lembrado como o perfeito personagem Austeniano, mas em Sense and Sensibility, de Ang Lee, Rickman interpreta o coronel Brandon, discreto, romântico e num desespero de amor tão tipicamente britânico que discute a coroa Austeniana taco a taco com o seu colega actor. A sua paixão tímida, mas avassaladora, pela personagem de Kate Winslet sobrevive à nossa imagem de Rickman. Quando observa a Marianne de Winslet cantar ao piano Weep No More Sad Fountains, está criado um dos mais poderosos românticos do filme, e apenas com um olhar, como se tivesse sido apanhado de surpresa pela paixão e embora não saiba o que fazer com ela, não tem outro remédio senão a submissão.

Alan-Rickman

A popularidade do actor aumentou ainda mais com a participação na saga Harry Potter, num papel que ainda em livros foi escrito consigo na mente de J K Rowling. No entanto, Rickman foi a segunda escolha do estúdio para o papel e interpretou Snape devido à indisponibilidade de Tim Roth.

Snape é a grande personagem trágica da história, um homem de profundas contradições, misturando a imagem de refinada malvadez que cultivou durante os anos anteriores em vários filmes, mas também com uma profunda devoção e fidelidade visível noutros papéis em obras menos conhecidas. Rickman sempre conviveu bem com essa atenção e até com a paródia de que foi alvo, principalmente pela sua melíflua voz, nos últimos anos da sua carreira. Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Jimmy Fallon ou Steve Coogan fizeram rir muita gente com o seu Rickman, mas recomendo o do britânico John Sessions, que é perfeito. Sessions descreve, de forma humorística, que a grande habilidade de Rickman era a de falar sem que os lábios tocassem nos dentes. Conta Sessions que uma vez, numa festa de anos, um miúdo perguntou a Rickman, que nunca teve filhos, porque interpretava sempre vilões. O actor retorquiu que não interpretava vilões, mas sim personagens interessantes.

Faltando estrear ainda dois filmes em que participou antes de falecer (Eye In The SkyAlice Through The Looking Glass, onde volta a dar voz à Lagarta Azul), Rickman deixa um legado bem maior. Há actores que se evidenciam pela sua capacidade de desaparecer em papéis, de exercerem na versatilidade um poder psicológico.

Rickman, no poder do seu corpo destruído por um cancro aos 69 anjos, dominou o ecrã até imóvel, capaz de reduzir personagens a rodelas de cebola apenas com uma frase. Quando, em Die Hard, mata o empresário Takagi cumprindo a ameaça “I’m going ot count to three. There will not be a four.”, as palavras ferem mais do que as balas: envoltas em seda, mas cheias de espinhos; confiáveis, mas agouros de destruição; e uma ligação em atalho ao centro de prazer do nosso cérebro. Rickman foi Snape, mas o feitiço maior veio dos seus olhos tristes e decididos, joviais e melancólicos, e capazes de travessura na comédia, com um travo de riqueza maléfica.

“When Alexander saw the breadth of his domain, he wept, for there were no more worlds to conquer”, diz o seu Gruber na ficção. Quando Bruno viu que Rickman tinha morrido chorou, pois não mais o britânico lhe daria outros universos onde se pudesse deixar levar nas curvas de chocolate de um humanista actor, dono de uma das melhores vozes que jamais o cinema gravou.


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Bruno Ricardo

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