MENUMENU

Reportagem


Willis Earl Beal

Musicbox

13/04/2016


Este texto não é real, é bem possível que o concerto da passada noite não tenha sequer acontecido e que sejamos apenas uma fantasia do ego de Willis Earl Beal, que ontem se criou a si próprio e ao público que saiu do Musicbox meio confuso, algo aturdido ou quem sabe iluminado?

Comecemos talvez por tentar enquadrar este homem misterioso da soul, arrumando na nossa cabeça alguns factos que já conhecemos. Nascido em Chicago no ano de 1983 tentou uma curta carreira militar porque coincidia com as suas aspirações de se tornar no Batman. Ao regressar, embarcou numa viagem “kerouacquiana” estrada fora até à cidade de Albuquerque, Novo México, onde vagueou por ruas e cafés distribuindo CDs de gravações caseiras, acompanhados de panfletos com auto-caricaturas e o seu número de telefone, onde se oferecia para tocar a quem o quisesse ouvir e procurava companhia de raparigas simpáticas. Um desses panfletos acabaria por chegar às mãos certas dando origem a uma capa de revista, em breve assinava um contrato discográfico pela XL Records e era elevado por publicações como a Pitchfork. Após dois álbuns o mito materializava-se. O primeiro álbum trazia um desenho da sua musa Cat Power na capa e a inocência lo-fi das suas primeiras gravações. O segundo, a concretização sonora numa produção musical exímia e uma colaboração de carne e osso com Cat Power. Os sonhos tornavam-se reais mas a roda gira sempre impiedosa e seguem-se problemas com a editora, o dinheiro escasseia, vive um período errante sem tecto em que conta com a solidariedade de amigos e desconhecidos, dá-se um divórcio e seguem-se álbuns emotivos de um homem destruído e desiludido com o mundo.

Não será seguramente justo resumir a vida de alguém num parágrafo, mas serve de ajuda para perceber um pouco da montanha russa emocional que tem sido o percurso de Willis Earl Beal, assim como o seu carácter bizarro e alucinado que nos convidou à estranheza na noite de ontem. Sozinho em palco, apenas munido de um Ipod e de um copo de vinho pede que baixem as luzes o máximo possível, não nos quer ver, não quer ser visto. Esconde um rosto atrás de uma máscara e chapéu pretos, qual zorro. Veste uma t-shirt com a imagem do seu manifesto de “nobody”, de quem quer ao mesmo tempo ser tudo e nada, e informa-nos das regras para esta noite, estamos proibidos de aplaudir e temos de nos sentar no confortável chão do Musicbox, “sim vou-vos tornar isto o mais estranho possível” diz-nos. O público obedece bem disposto e sem questionar, aguardando com aquela atitude descontraída do “vamos ver no que isto vai dar”.

E vai mesmo dar a um dos concertos mais irreais a que já assistimos. Há toda uma inquietação na figura de Beal em palco que chega até a ser angustiante. Presenciamos um aquecimento de flexões e uma sessão de chicotadas desferidas ao chão pecador quando desembainha o cinto. Assistimos a desequilíbrios ao subir várias vezes a uma cadeira e ao seu deambular incessante sempre a ponto de tropeçar em qualquer cabo ou aresta. Há interrupções para fazer um breve sound check onde pede mais volume e reverberação, porque quer que a sua voz soe como a de Deus. Há recomeços porque não entrou no tom certo ou porque não se recorda da letra. Há sermões de igreja e até uma pequena quizila com alguém no público que não respeita o pedido de silêncio e é convidado a sair. E há quem não tenha ido ao concerto e ao ler agora estas linhas pense que isto terá sido uma das noites mais desastrosas de sempre. Desenganem-se. O que aconteceu foi estranho e desconfortável sim, mas em nada desastroso.

É que Beal, apesar desta imagem errante, é um comunicador nato com aquela frontalidade honesta que nos faz simpatizar de caras. É humorado sem o querer ser. É crítico sem querer ser levado a sério. Despeja-nos verdades absolutas que contradiz de seguida na sua performance. A sua voz quente de barítono enche o Musicbox mas sem pretensões megalómanas “adelianas”.  E percebemos que estas dualidades são inerentes à sua natureza e aceitamo-las sem juízos. O caos é seu amigo, assim como de Bob Dylan. E é desse “diabo” Bob Dylan, que diz adorar, que nos traz uma cover de uma cover e canta-nos à capela um original de Shadows in the Night, último álbum de Dylan de covers do original de Frank Sinatra, que nos comanda imperiosamente a ouvir. E é neste momento despido de gestos alucinados e noutro mais adiante também à capela, onde canta “Times of Gold”, que vemos o seu lado mais genuíno e belo, a performance é deixada de lado e entrevemos a sua serenidade transcendente.

Mas são vislumbres apenas, afinal “a performance nunca termina, nem nunca começa, a vida é em si uma performance” e ainda há mais umas quantas “músicas estúpidas” para nos cantar, diz-nos. A maior parte dessas “músicas estúpidas” fazem parte do recente EP Through the Dark, como “Lost in a Dream”, “Warm Tonight” ou “Honey Child”, mas a verdade é que nesta noite a setlist é de tudo o que menos importa e nem alimentávamos sequer esperanças de uma conhecida “Too Dry to Cry” ou da frágil “Monotony”.

Uma hora e picos depois Beal, que hoje até se sente bem, coisa que há muito não lhe acontecia, sugerindo que deve ser de estar em Portugal, despede-se e surpreende-se com a obediência deste público que ainda não bateu palmas uma única vez. “Podem bater palmas agora se quiserem”, “podem ejacular sobre mim a vossa manifestação de agrado deste momento que acabaram de assistir” e irrompem aplausos e risos pela plateia, ao mesmo tempo que tentamos ignorar o incómodo que as suas últimas palavras nos imprimem no espírito. Sabemos que com a nossa presença ali esta noite fazemos todos parte desta máquina social que mastiga e cospe quem é diferente. O que assistimos na noite passada aproxima-se mais de uma intervenção do que um concerto de soul, ao regressar a casa duvidamos até que este momento tenha sido real, mas carregamos connosco a promessa que fizemos a Beal, de deixarmos cair a máscara e de gostarmos de nós tal como somos, estranhos e desajustados.


sobre o autor

Vera Brito

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