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Reportagem


Vodafone Paredes de Coura – 4º dia

Num dia com poucos interesses musicais, focamo-nos mais no que rodeia o festival, na aura de bom ambiente que é marca indelével de Paredes de Coura.

20/08/2016


© Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

Na conferência de imprensa de balanço do festival, João Carvalho, o principal responsável pela organização referiu que o concerto de LCD Soundsystem fica na história como um dos momentos mais memoráveis de sempre. Talvez comparável a Queens of The Stone Age, em 2013, ou a Arcade Fire, em 2015. Foi realmente memorável e, quem sabe, irrepetível. O regresso certo na hora certa. Mas, para compensar, não muitas vezes terá havido nos últimos anos um dia tão fraco como este derradeiro dia da edição de 2016.

Num dia com poucos interesses musicais, focamo-nos mais no que rodeia o festival, na aura de bom ambiente que é marca indelével de Coura. E também em algumas actividades paralelas do próprio festival. Entre as quais está o projecto Vozes da Escrita, com nomes importantes da música portuguesa a recitar um conjunto de textos escolhidos pelos próprios. Nesta primeira edição, foram convidados Gisela João, Samuel Úria, Adolfo Luxúria Canibal e Capicua. É com Capicua em fundo que nos deslocamos para a última das Vodafone Music Sessions, algo já obrigatório no festival, com pequenos concertos de músicos do cartaz em locais improváveis da localidade minhota. Temos pena de, no dia anterior, não termos visto os Crocodiles em casa de um casal courense de 90 anos. Mais um passo na cumplicidade entre a população e o festival. Assim, vimos apenas a última Music Session, com os Motorama a tocarem bem no topo do concelho de Coura, junto do Santuário da Nossa Senhora da Pena. São russos, pouco comunicativos com o público (aliás, o vocalista mal se ouve, talvez por uma questão técnica) e mostraram um pós-punk interessante, com guitarras e teclados que poderiam acompanhar Peter Murphy ou os Joy Division. Estão vestidos de negro, tocam em cima de três pedras gigantes e são um curioso contraste com o dia de Sol e de Verão que está em Coura e com o ambiente natural que nos rodeia.

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Já no recinto, começamos o dia com propostas portuguesas, após ouvirmos ecos de que os norte-americanos The Last Internationale fecharam o concerto de abertura do palco principal a homenagear o 25 de Abril português, vemos primeiro a dupla de virtuosos instrumentistas: Filho da Mãe & Ricardo Martins. Nem sempre a combinação dos dois resulta e, por vezes, a bateria parece um pouco desconexa, como se não existisse um real diálogo entre os dois instrumentos. Mas a classe dos músicos é inequívoca e, nos momentos em que sentimos um som realmente compacto a vir de palco, aí sim: parece que ouvimos algo de especial.

Seguiram-se os Capitão Fausto e confirmamos que estão… mais choninhas. Parece que estão menos psicadélicos, mais Beatleanos, quiçá mais adultos, e talvez isso não lhes tenha feito bem. Assim, nota-se mais as fragilidades ou a incoerência da voz mais clean, mais adolescente de Tomás Wallenstein. Nota-se nos temas do último disco e também, por exemplo, na versão demasiado lenta e arrastada de “Maneiras Más”. Ainda assim, está muito público para os ver em Coura, o que mostra o crescimento mediático da banda portuguesa. Só temos pena que seja nesta fase.

Vamos jantar, saltamos à frente o singer-songwriter The Tallest Man On Earth e voltamos para uma das revelações musicais do ano passado. Chamam-se Cigarettes After Sex e, embora façam lembrar os Mazzy Star, não há nenhuma mulher em palco. O que, reconheçamos, diminui um pouco a sensualidade que só a beleza feminina nos pode transmitir (sem nenhum travo machista, saliente-se). É música que exige silêncio e proximidade com o palco  e, perante tanta gente a vê-los, pareceu-nos opção despropositada para o palco secundário. Ou isso ou, neste caso específico, faltou a companhia certa. Foram vários os casais que vimos beijar de forma extremamente apaixonada.

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A seguir tocaram os Portugal. The Man e confirmámos a nossa ideia inicial. “Já lá vai tanto tempo”, dizem eles a abrir o concerto. A banda havaiana tocou em Coura em 2009. Na altura, ao final da tarde, de forma discreta. Passaram-se sete anos e, sem um crescimento mediático que se conheça, saltaram para nome grande do cartaz. Musicalmente, andam entre uma brit pop que faz lembrar os Oasis. E eis que há uma versão de “Don’t Look Back in Anger”. Temos quase dez minutos finais de rock progressivo. E, embora faça lembrar “Shine On Your Crazy Diamond”, não há nenhuma versão dos Pink Floyd. Passam por uma pop festiva qb, com algumas harmonias de voz engraçadas. E até fazem uma versão caricata da série It’s Always Sunny in Philadelphia. E, posto isto, o melhor está na projecção de imagens, com uma abstracção bem mais infantil que psicadélica, com muitas cores e um apurado jogo geométrico. Teriam dado um concerto simpático de final de tarde, mas, vá-se lá saber porquê, saltaram quase para cabeça de cartaz. E, perante o que se seguiu, mais valia que o tivessem sido.

Aviso à navegação: o Sudoeste chegou a Paredes de Coura no último dia. Só assim se explica que CHVRCHES seja cabeça de cartaz. É concerto para não ver… e não o vimos. Ouvimos dizer que, para além da fragilidade das canções pop sub-16, nem a presença em palco se safa, que a vocalista se perde e passa despercebida no meio dos sintetizadores. Acreditamos e não lamentamos não poder confirmar.

Para o fecho do festival, no after hours, houve ainda a synth-pop dos suecos Lust For Youth e o techno tropical (menos tropical do que desejávamos) do chileno Matias Aguayo.

Voltando à conferência de imprensa de balanço, João Carvalho referiu que Coura “é uma máquina de fabricar felicidade”. Verdade: o bom ambiente global é indiscutível e há, genuinamente, talvez por ter começado (e continuado) como uma coisa mais pequena e por amor à camisola, uma simpatia da organização que passa para os festivaleiros e para a imprensa. Contudo, para o ano é a 25ª edição. Perante número tão redondo e simbólico e porque não custa pedir, fazia todo o sentido termos um cartaz mais forte e mais consistente, que não esgote quase todas as fichas (e orçamento) num só nome. Até para o ano Paredes de Coura.


sobre o autor

Joao Torgal

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