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Reportagem


Vodafone Paredes de Coura – 3º dia

Se começou morninho e com pouco público o dia anterior, o melhor do festival, o mesmo não se pode dizer do 3º dia de Paredes de Coura.

19/08/2016


© Hugo Lima | www.facebook.com/hugolimaphotography | www.hugolima.com

Se começou morninho e com pouco público o dia anterior, o melhor do festival, o mesmo não se pode dizer do 3º dia de Paredes de Coura. E muito à custa de duas bandas portuguesas com convidados especiais.

Os First Breath After Coma misturam a linha mais melódica do pós-rock com uma certa sensibilidade etérea. Têm sopros, que nos remetem para bandas como os Fanfarlo, e muitas partes cantadas. É certo que há momentos onde as partes vocais, agudas e lamechas qb, perturbam a imponência e a evolução emotiva dos temas (com belíssimas partes instrumentais), mas isso é um aspecto menor. Pelo meio, convocam Noiserv para cantar e tocar guitarra em dois temas. Não só, do ponto-de-vista estético, se encaixa na perfeição na música da banda de Leiria, como mostra que estes miúdos têm futuro.

O concerto de Sean Riley & The Slowriders em Paredes podia não ter acontecido. E só aconteceu porque, depois de muito reflectir, a banda considerou que era hora de continuar. Que seria isso que o Bruno Simões queria. O Bruno era o baixista e desapareceu, de forma súbita, no início do mês de Junho. E foram para ele as últimas palavras do vocalista Afonso Rodrigues. Em palco, continuam a ter tremendo impacto os teclados de Filipe Costa, entre o psicadélico e um certo negrume à Nick Cave (das Murder Ballads, por exemplo). Pelo meio, entra em palco Paulo Furtado (Legendary Tiger Man), para incutir um pouco de virtuosismo de guitarra à fusão americana dos Sean Riley. Continua a ser discutível se a voz mais clean combina bem com o negrume, o psicadelismo e, acima de tudo, o rock’n’roll da banda de Coimbra. Mas isso, por agora, é secundário. O mais importante é saudar a continuidade. A vida tem mesmo de seguir em frente…

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Pelo meio das bandas portuguesas, tocou Kevin Morby. O antigo baixista dos Woods deu o tipo de concerto boa-onda de final de tarde. A solo, faz-nos lembrar Phosporescent ou Kurt Vile. Malta que se inspirou em alguma da melhor folk americana, com Neil Young como uma das recordações óbvias. Desfila belas canções para umas tantas centenas de pessoas que o viram abrir o palco principal. Foram três concertos iniciais com muito mais público do que aquele que, à mesma hora, esteve no dia anterior no recinto.

Passamos à frente os Crocodiles e voltamos ao recinto a tempo de uma explosão chamada King Gizzard & The Lizard Wizard (e muitas vezes trocámos o G, o L e o W das iniciais da banda). São australianos, mas fazem lembrar alguma malta britânica, desde o classicismo rock dos The Kinks até ao psicadelismo místico de bandas posteriores como os Kula Shaker. E são, em palco, bastante menos melódicos e mais energéticos do que imaginávamos. Sete elementos, frequentemente com três guitarras, mas numa amálgama sonora que inclui também flauta transversal, teclados, pandeireta ou maracas. Som mais compacto e menos eclético do que se desejava, perante tamanha diversidade de gente e instrumentos, mas tão frenético… quanto o vocalista.

Voltámos aos teclados psicadélicos com Jacco Gardner. São eles que guiam muitos dos temas de uma pop muito laboratorial na fusão de sons, mas nem por isso fria no resultado final. Até porque, numa banda bastante mais numerosa do que em outras ocasiões, surgem temas com guitarras com uma frescura pop que faz lembrar os Real Estate. Uma boa surpresa para quem, como nós, pouco tínhamos acompanhado o trabalho do músico holandês.

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Os Vaccines já pareciam datados em 2013, quando passaram por Coura. Como tal, é hora de jantar e de só voltar para Cage The Elephant. Outro regresso ao festival, numa posição reforçada, dois anos depois de terem deixado uma boa impressão no dia de abertura.  São americanos, tiveram o último disco produzido por Dan Auerbach (Black Keys), mas radicaram-se em Londres. E isso nota-se porque, por vários momentos, nos fazem ir ao baú de recordações buscar as nossas memórias da brit pop. Podem parecer uma banda excessivamente adolescente e, como exemplo disso, observe-se o comportamento do vocalista, sempre aos saltos em palco, mesmo quando nada o justifica. E, logo a abrir, sai-se com o chavão: “Este é o nosso festival favorito de todo o Mundo”. Se dizem isto em mais lado, ficamos por saber. Pode ser loucura por loucura, um manual de banalidades, mas uma coisa é certa: há muita, muita gente a vê-los e a saber as letras todas de cor. Mesmo na parte de trás do anfiteatro. O que justifica bastante mais o estatuto de cabeça de cartaz do que imaginávamos.

Saímos mais cedo para garantir um lugar nas primeiras filas de Moullinex, numa noite que começou e acabou com boas propostas nacionais. Em formato banda, com sintetizadores, guitarra, baixo e bateria, as músicas ganham outro corpo, outra energia orgânica, sem que se perca o ímpeto dançável. Ouça-se o instrumental Flora, por exemplo. Já na parte final, é convocada Da Chick para cantar os últimos temas, entre eles uma versão forte de “Do It Again”, de Robyn & Royksopp. Não resiste a puxar pelo público de uma forma básica, desta vez trocando o “Make Some Noise” pelo “Façam Barulho” (igualmente insuportável). Tentamos esquecer o assunto e focar-nos no essencial. E isso passa, a fechar, pela loucura viciante de “Take My Pain Away”, um dos melhores temas electro-pop dos últimos anos (em termos globais). Ouvimos dizer que Moullinex é algo “sem alma, sem identidade”. Ora… é apenas música pop. E da muito boa. Se Luís se chamasse Lewis, talvez mais gente por esse Mundo fora ouvisse falar dele. É pena que assim não seja.

O after foi com o DJ set dos Vaccines. Parece um shuffle absoluto, em escolhas que passam por Queens of The Stone Age, Monkeys, Paul Simon, Kanye West ou… Justin Bieber. Sem qualquer coerência, tudo muito amador, mas altamente divertido. Podiam dedicar-se a isto. Pensem no assunto.


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Joao Torgal

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