MENUMENU

Reportagem


Vodafone Mexefest

Felizmente, na primeira noite a chuva deu tréguas e o frio até ajudou a apressar o passo entre os vários espaços da avenida.

Avenida da Liberdade

25/11/2016


Após a tromba de água que na noite anterior assolapou Lisboa, a chuva e a intempérie eram as maiores preocupações no primeiro dia do Vodafone Mexefest, para as muitas correrias avenida acima, avenida abaixo, que o complicado mapa de concertos exigia aos festivaleiros. Felizmente, na primeira noite a chuva deu tréguas e o frio até ajudou a apressar o passo entre os vários espaços da avenida – são os riscos de um festival a portas do inverno, mas é também o que o torna especial.

Subimos até ao Teatro Capitólio, acabado de reabrir ao público após uma profunda renovação, para ver Valas que actuava para uma modesta mas entusiasta plateia nos bastidores do teatro. De Évora para Lisboa, com um contrato com a Universal Music no bolso e vários destaques na imprensa nacional, Valas é mais um sinal da crescente força do hip hop na música portuguesa, que alguns ainda tentam teimosamente ignorar. Uma força que já passou para lá das portas de Lisboa e subúrbios e alcança todo o país, como pudemos comprovar nas letras na ponta da língua e no orgulho sentido por entre a plateia, para receber o rapper alentejano.

Nerve

Nerve

Ainda no hip hop e em terrenos do Capitólio entrámos no teatro para ver Nerve, repetente no cartaz do Mexefest. Sempre negro, sarcástico, corrosivo, uma caricatura de si próprio, atira-nos rimas cortantes até ao nervo (desculpem a imagem fácil), que são capazes de fazer bater no fundo até o ser mais optimista na sala. “A vida não presta e ninguém merece a tua confiança” é o mantra que por várias vezes durante noite nos vai assombrar o pensamento. Para aliviar este negrume fez-se acompanhar em palco dos convidados Blasph e Capicua, e por fim Mike El Nite, que teve a seu cargo a segunda parte do concerto, e com quem estreou uma nova faixa em conjunto.

Chegada a hora para um dos grandes concertos deste primeiro dia de Mexefest, Bruno Pernadas no Teatro Tivoli. Com pézinhos de lã procuramos uma cadeira tentando não incomodar aqueles que já embarcaram viagem em “Spaceway 70” para o universo galáctico de Pernadas e a sua orquestra de luxo em palco. Foram dois os discos que Pernadas lançou este setembro, um a navegar na matéria pop e o outro a espraiar-se nas intricadas vielas do jazz, como iriam ambos encaixar em concerto era uma das curiosidades da noite. Mas acabámos por perceber que Worst Summer Ever terá de ficar para outras núpcias, foi o seu álbum estreia e o recente Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them, que preencheram a noite e nos levaram numa volta ao mundo, com fugas para lá da estratosfera, tudo em cerca de uma hora e sem sairmos do lugar. E se é difícil tentar explicar as emoções que a música de Pernadas nos provoca, é ainda mais difícil tentar explicar a sua musicalidade, que transcende o virtuosismo de génio óbvio até para os mais leigos na matéria. Falamos de uma musicalidade intemporal, daquela que faz parte do âmago das coisas e seres quando ainda nem sequer existiam palavras para as explicar.

Bruno Pernadas

Bruno Pernadas

E é com esta leveza que de volta ao Capitólio chocámos com a enorme festa, talvez a maior para este primeiro dia, Talib Kweli acompanhado de Dj Sarasa nos beats. A puxar pelo público como ninguém, a velha guarda do hip hop, o puro MC, a encurtar as músicas para comunicar pela palavra, Talib Kweli não poupou homenagens a ninguém e falou-se de vários nomes eternos do hip hop, como Mos Def, J Dilla, Diamond D e Large Professor, como também de outros universos musicais ouviu-se na casa Bob Marley ou Michael Jackson, porque o hip hop é mesmo isto, transversal a géneros e culturas musicais, uma amálgama onde tudo e todos fazem sentido. E foi de seguida que Diamond D e Large Professor tomaram o palco com o seu invejável espólio de discos, para um banho de história, levando seguramente muitos dos presentes na sala a imaginar-se numa qualquer cave escura do Bronx, há mais de duas décadas atrás, na raiz do hip hop.

Ali mesmo ao lado a brasileira Céu esgotava o Cinema São Jorge, com a sua doce voz a percorrer velhas músicas conhecidas e outras mais recentes de Tropix, que lhe valeu um Grammy latino este ano. Um público deleitado com a sua figura bamboleante no seu vestido dourado e a sua voz melosa, não parecia querer arredar pé para dar lugar à longa fila dos que aguardavam na entrada.

Jagwar Ma

Jagwar Ma

Cedemos o nosso lugar e fomos espreitar Pedro Coquenão desta feita sob o nome “Os Projecionistas” ao sótão do Tivoli. Aqui convém fazer um parêntesis para agradecer ao Mexefest a oportunidade de percorrer espaços incríveis da capital que de outra forma talvez nunca lá colocaríamos os pés, como este sótão no Tivoli. Não é grande nem imponente, é um verdadeiro sotão de telhado inclinado, propício a umas cabeçadas, mas é um recanto que no burburinho da avenida nos parece mágico e que Pedro Coquenão transformou numa pista de ritmos africanos, onde todos com mais ou menos talento sacudiram o esqueleto. Não sem antes uma introdução em que discorreu algumas considerações irónicas até mesmo cómicas, mas como sempre acutilantes, como por exemplo sobre a falta de elegância na música africana pura para estes “festivais indie fixes”, enquanto avaliava o público para perceber que música iria passar.

Fechámos o primeiro dia do Mexefest com os Jagwar Ma no Coliseu dos Recreios, após a intervenção de Carlão para as Vozes da Escrita, que conseguiu prender a atenção de todo o coliseu não com um excerto de Bukowski, mas com um texto de um conterrâneo seu “O princípio de uma boa queca”, que terá feito corar os mais pudicos, mas que no geral contagiou gargalhadas sonoras pela plateia. Boa disposição instalada para receber os australianos Jagwar Ma que durante uma hora deram voltas na sua roda psicadélica, acusando alguma monotonia no seu som sintetizado. Vibrou-se com “Come Save Me” e “O B 1” mas  já se faziam planos para o segundo dia de Mexefest.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Vera Brito

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