MENUMENU

Reportagem


Unknown Mortal Orchestra + Iguana Garcia

A emancipação e libertinagem da música e do sentimento

Aula Magna

30/10/2018


© Nuno Conceição // Everything Is New

Nem seis meses passados desde a sua última passagem por Portugal, na altura para encerrar em grande a segunda noite do festival NOS Primavera Sound, no Porto, os Unknown Mortal Orchestra decidiram fazer por matar a saudade do nosso canto à beira-mar plantado, desta feita em dose dupla para adeptos na Invicta e na Capital, e trazendo dois, sim dois, álbuns lançados durante o ano corrente. Com o anúncio dos concertos feito em Junho, os neo-zelandeses não poderiam prever, no entanto, que a despedida de Outubro lhes fosse reservar uma noite gélida e molhada, com a Aula Magna da Universidade de Lisboa a socorrer centenas de acorrentes munidos de gabardines, chapéus de chuva e qualquer outro método de aquecimento e revestimento possível. Mas nem a intempérie evitou a enchente, e a sala de espectáculos esteve muito próxima da sua lotação total, com um público diversificado e abrangente, sobretudo a nível do intervalo de idades.

De pés encharcados e mãos tremedouras do frio, encontramos consolo no copo de cerveja e na primeira parte do português Iguana Garcia, que embora sozinho, surge descontraído e bem disposto, prometendo não roubar protagonismo ao prato principal, mas desenvolver o gosto pelo aperitivo. E qual artesão dos tempos modernos, o reptiliano delineia sobre bases rítmicas reminiscentes do techno e do disco dos anos setenta e oitenta, repetidas até à exaustão, curtas e agradáveis linhas de intenso sintetismo e outras tantas de índole eléctrica, fazendo uso de mesa, guitarra e pedaleira para rasgar a vontade de bailar com irrequietos e desconcertantes apontamentos que nos parecem fazer soluçar e nos aceleram a corrente sanguínea. Loop sobre loop sobre loop, sem grandes pressas nem pressões, de forma descomplicada mas alegre, Iguana vai falando com o público entre malhas de mexer a anca e outras que apenas nos aquecem as entranhas, durante uma rápida mas aceitável meia hora.

Iguana Garcia ©Nuno Conceição

Iguana Garcia ©Nuno Conceição

Com o pré-aquecimento feito, as luzes voltam a descer para a entrada em cena dos Unknown Mortal Orchestra que, pasmem-se, nem sequer são uma orquestra. Encabeçados pelo incrivelmente jovial Ruban Nielson, dono de uma aparência invejável de quem está a entrar nos vintes quando na verdade está a terminar os trintas, o quarteto posiciona-se e abre com uma instrumentalização prolongada que se fará convergir na voz caracteristicamente delicodoce e diluída do vocalista no tema de abertura do segundo álbum da banda (II), “From the Sun”. A interpretação do tema surge-nos desgarrada, feita com uma vivacidade que não lhe reconhecemos do álbum, e foge assumidamente do planeado quando o próprio Nielson investe num solo de guitarra imenso e salta do palco, não retirando os dedos das cordas enquanto caminha pelo gáudio perplexo da plateia sentada, parando na mesa de som para um brinde com os técnicos antes de dar uma autêntica volta olímpica à sala, subindo e descendo degraus, saltando bancadas, sorrindo para câmaras.

Dado o mote para um concerto animado e imprevisível, Ruban volta ao palco ainda dentro do mesmo solo de guitarra para iniciar sem paragem aquela que foi a primeira malha que lhe reconhecemos desde sempre, “FFunny Friends”. Substancialmente menos carregada de efeitos reverberativos, a canção mantém o encanto dos acordes de encaixe imperfeito mas imersivo, no psicadelismo espacial de índole alegre e descontraída, e no ritmo viciante que, de resto, se tornou imagem de marca em toda a restante discografia. A plateia é instantaneamente hipnotizada e remexe-se nos seus assentos, ombros agitando e cabeças acenando, engolindo de assentadas certas música tão prazerosa de degustar. À terceira malha temos a certeza de que este não será um concerto de apresentação dos últimos álbuns, mas uma exposição dos temas mais marcantes; “Swim and Sleep (Like a Shark)” surge de um acorde para o outro, reinterpretada com arranjos instrumentais que fazem por parecer improvisados, e que irão fazer uma longa ponte até à rítmica “Necessary Evil”.

Estas novidades instrumentais estiveram de resto presentes ao longo de todo o concerto, e não surgem sem contexto. É de conhecimento público que, pese embora a música escrita por Nielson debata frequentemente temas de desenvolvimento pessoal e individual  uma espécie de catarse, altamente diluída por entre uma leveza lírica e rítmica tal, que a torna acessível e descomprometida o suficiente para ter do público a sua empatia , como o consumismo, a alienação ou as relações poliamorosas, o neozelandês procurou combater a estagnação criativa viajando pelo mundo fora juntamente com o irmão e o pai, para destinos variados como a Islândia, a Coreia do Sul, e o Vietname. Neste último terá inclusive feito uma jam session com um artista local, que culminou no lançamento de Hanoi, álbum de subterfúgio repleto de música improvisada, orgânica, e natural, e um mergulho mais intenso no psicadelismo explorativo e imersivo.

Unknown Mortal Orchestra ©Nuno Conceição

Esta evolução é claramente traduzida em baixos mais sinuosos e imponentes, em percussões intensas e complexas, em guitarradas desgarradas e apaixonadas, que parecem querer contar histórias por elas mesmas e no seu todo, uma exibição performativa que expande os seus limites e que explora uma nova e sentida liberdade sonora e de movimento. Aliadas à alegria e química de tocar neste novo alinhamento, juntamente com o irmão e o pai, conseguimos dizer com alguma certeza que este concerto é especial, e o que o futuro nos reserva promete. No presente, a bateria que nos mói os ouvidos em “Ministry of Alienation” é sensual e tocada com destreza; em “So Good at Being in Trouble”, os acordes expansivos da interpretação original são a oportunidade para nova exploração instrumental, desta vez com direito a trompete e saxofone na composição, explodindo em reverberação sónica até um clímax que termina de forma abrupta.

Apenas com a nova balada “We’re Not in Love, We’re Just High” Ruban se desliga da guitarra e da expansividade; munido apenas do microfone, e acompanhado pela música em lume brando, caminha sobre os assentos e sobre as mãos elevadas com os telefones em punho, cantarolando em discurso disperso e desconexo, descreditando o amor imediato. Encontra um lugar sentado e ali, virado para o palco em pose descontraída, encerra o momento lírico antes do êxtase dos primeiros acordes da aclamada e tão aguardada “Multi-Love”, afinal e provavelmente o maior êxito da banda. Os assentos que até aqui sucederam em prender as pessoas contra a vontade de dançar deixam de ter efeito, e toda a gente se levanta, aplaude e baila em pleno regozijo, cantando em uníssono o refrão até ao fim.

A sala lisboeta vem praticamente abaixo à saída dos artistas, com um barulho ensurdecedor de aplausos, gritos e assobios ecoando pelas paredes, puxando os Unknown Mortal Orchestra para um encore certo, onde encontraremos a também ela nova e incrivelmente viciante prazer pop veraneante, “Hunnybee”, antes de mais um dos maiores êxitos guardados no bolso, “Can’t Keep Checking my Phone”. Durante ambas o som da banda rivaliza com o do próprio público, também ele liberado de amarras e pronto a juntar-se, enfim, a um êxtase final, por forma a aproveitar cada momento. Os artistas, agradecidos, hesitam em sair e deixam vénia após vénia. No momento de retirada, todos saímos, afinal, de coração cheio.


sobre o autor

Sergio Neves

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