Reportagem


TRC Zigurfest

E como o “after somos nós”, o último dia foi até o sol raiar, cantava-se animadamente, dançava-se, fazia-se o balanço dos concertos inacreditáveis.

Teatro Ribeiro Conceição / Rua da Olaria


© Rodrigo Ferreira

É diante de uma imponente escadaria, envoltos pela mística de uma cidade cheia de carisma e história que, de sorriso aberto, recebemos a sexta edição do TRC Zigurfest. Se o soldado nos é desconhecido, Um Ao Molhe certamente não o será, festival itinerante de one man bands, ao longo dos últimos tempos abraçou a família Zigur numa curadoria e teve no primeiro dia um lugar de destaque nos dois concertos de abertura. Sob um sol tórrido à moda transmontana, não há só um “Homem em Catarse”, todos flutuamos com a melodiosa e crescente guitarra e os misteriosos delays. Num polimorfismo de instrumentos, as gerações passam, cruzam-se e é impossível não sorrir. O cenário é caricato, deitados na relva, à sombra de plátanos na euforia de borrifadores, cada um combate os 38ºC da forma que pode e ainda assim é inevitável não dar um pezinho de dança. É também impossível resistir ao charme do ritmo gingado do Rapaz Improvisado, numa sensualidade que vagueia pelo blues e versos mordazes, o público já tem calor no coração e cada vez mais se juntam à festa, os reverbs tornam-se alucinogénios, de respiração compassada, deambulamos com aquele que troca o whiskey por água, num rockabilly para degustar com toda a calma.

E com a certeza de que o ZigurFest é uma mão cheia de surpresas, a inquietação e a vontade de mais tomam conta de nós. Partimos à descoberta daquela que é considerada a cidade da Europa com mais monumentos por metro quadrado, Portugal está espelhado a cada canto, rua acima, das janelas olhos curiosos e toda uma vida entre muralhas. Numa paisagem cinematográfica, a Alameda do Castelo é um mar de gente expectante com Lamego a seus pés. Citizen:Kane traz um mundo de sons desafiantes, que oscilam pelo techno, ora em modo dance floor bem ritmado ora num registo mais sombrio. Há toda uma aura a sobrevoar a plateia que se descalça pela relva e se sente livre para sentir. O improviso chega-nos pela mão de Desterronics, que teletransportam as suas jam electro sessions de Lisboa para aquele que é o melhor palco da música portuguesa. A eles juntam-se alguns ZigurArtists e numa tarde bem regada de boa disposição, fundem-se sensibilidades, cada um traz a sua personalidade. A batida vai crescendo, vem a índia, canta o galo, vem uma eletrónica cheia de corpo e vida, com espaço para decifrar. O cenário é de outro planeta, a sonoridade inquieta e até o céu se ludibria de cores. Uma tela à Pollock numa viagem de abstração, onde genuinamente a alegria e o prazer transparecem, a verdadeira “suruba”.

©Rodrigo Ferreira

©Rodrigo Ferreira

Na magia de um coreto, o jardim é uma dança, é energia, milhares de estrelas, luzinhas à moda da verdadeira romaria portuguesa, Leviatã(mos). A energia e a cadência fazem-nos lembrar Darkside e vamos ao rubro com a guitarra hipnotizante e com os efeitos espaciais que nos transportam para outra galáxia. Da cabeça aos pés, o ritmo está-lhes no sangue e é Bernardo que toma conta de uma batida que seduz. Na sua segunda aparição em Lamego, depois de passarem por inúmeros palcos e conquistarem um público fiel, os Torto trazem na bagagem com os caminhos que trilharam, a confiança de um rock alternativo instrumental à moda experimental. Ateado o fogo do primeiro dia, a excitação para o que virá nos próximos é indescritível. Descendo pelas ruas, o melhor em Lamego é perdermo-nos, galgar a típica calçada, deliciarmo-nos com o presunto e o vinho generoso e já que é tempo de festa, a boa disposição é uma fartura.

Olaria rima com alegria, rima com ziguramor. Trajada a preceito de bandeirinhas multicolores, a icónica e íngreme rua é o clímax da cidade.  Desde o tradicional comércio de rua aos bares do bairro altinho lamecense, em toda a rua transborda paixão. A jovialidade está espelhada em todas as idades, afloram-se rostos às janelas, olhares intrigados que se convertem à dança, a máxima “primeiro estranha-se e depois entranha-se” não podia ser mais real, a heterogeneidade do público é genuína.  O Galo não cantou às duas, cantou a meio da tarde, com uma energia inacreditável, em êxtase a bateria traz-nos uma brisa de jazz e percorrem-se ritmos carismáticos pelo baixo e contrabaixo.  Descendo a rua com um fino fresquinho do Irish Pub numa mão e um traço de bôla da simpática Taskazita na outra, parte-se à descoberta de Fazenda. Num palco a caminho do castelo, atrás do teatro (que nos reserva tantas surpresas no início da noite), sentamo-nos e damos espaço para as sonoridades fluírem. Se fecharmos os olhos, imaginamo-nos verdadeiramente numa verdejante fazenda, descalços junto ao rio. As guitarras apaziguam, acordes de uma beleza extraordinária pintam uma indescritível paisagem. Mais um duo em perfeita sintonia.

©João Taveira

©João Taveira

Voltando como um ciclo ao primeiro espaço, ninguém estava preparado para o que iria acontecer. Como uma espécie de ritual nasceu um concerto incrivelmente desconcertante, como alguém me descreveu “é como se tanto estivéssemos numa tribo pela Amazónia e de repente saltávamos para o Alasca”. E o que aconteceu não será difícil de adivinhar, o ritmo traduzido pelos vocais, o saxo e o explorar em todos os sentidos com habilidade o contrabaixo, despertaram o nosso lado mais indígena e todos dançámos eufóricos e lançávamos água para nos refrescarmos. Uma viagem transcendente imersos na sensibilidade dos Älforjs.

O fluxo de gente dispersou no términus de uma tarde (tão bem passada!) para se voltar a reunir para o aguardado serão. A casa mãe do ZigurFest é, sem sombra de dúvida, um dos teatros mais bonitos do país, desde as pinturas que recobrem os tetos, ao majestoso candelabro no centro de uma sala redonda aveludada em tons de vermelho e dourado. A cortina sobe e no palco espera-nos um violoncelo e uma voz adocicada inconfundível. Sabiamente, Joana Guerra explora o instrumento em todas as suas vertentes, ousando passar de um registo mais melodioso e encantador para um registo mais livre, mais avant-gard. Arrepiados com tamanho talento e enternecidos com o seu carácter, a fasquia torna-se cada vez mais alta.  E o que veio a seguir, decerto não deixou ninguém desiludido. Débora Umbelino que dá vida a Surma traz a sua inocência cativante e uma genialidade ímpar, com um palco repleto de materiais, a one woman band mostra um conhecimento vasto e uma noção rítmica invejável.  Na mesma viagem, traz-nos a infantilidade feliz de Björk na voz entrelaçada com batidas à moda The XX, com psicadelismos à mistura e variadas loopstations, salta de cordas para teclas e salta direitinho para o nosso coração também. O último concerto no teatro também falava de paixonetas, Luís Severo e a sua “cara d’anjo”, acompanhado em alguns momentos pela sua banda, embalava com as suas baladas num pop à moda folk romântico e melancólico.

©Joana Raposo

©Joana Raposo

E no teatro há muito mais que música, perdendo-nos nos seus corredores encontramos uma novidade no festival. O projeto Zona moldado pelo artista conterrâneo João Pedro Fonseca vem acrescentar multidisciplinaridade através de exposições de artistas seus convidados. Em todos os cantos e recantos se explora o espaço, o tempo, a imagem,  a visão de cada um e se desafia a um processo de reflexão.

Cá fora, a Olaria é euforia e um turbilhão de gente que se juntou para festejar mais uma noite.  Com as suas 18 primaveras, Dragão Inkomodo é uma caixinha de surpresas que juntou toda a gente na pista do palco castelinho a bater o pezinho ao som de um ritmo bem equilibrado e viciante. Mais acima, estava tudo empolgado e expectante para ouvir os Baleia Baleia Baleia (atente-se a piada no nome), nem metro quadrado sobrava no público. Ambos pertencentes à família Zigur, trazem uma energia inesgotável de um punk rock capaz de incendiar a rua inteira.  Na fila da frente, pessoas voavam em crowdsurfing alucinante, cantavam-se as letras satíricas em uníssono, saltava-se, donde emergia um mosh de risos embebido em Icetaço (não percam a oportunidade de descobrir este néctar dos deuses). Manuel Molarinho, que já é prata da casa e bem conhecido por todos pelas suas digressões em vários projetos pela península ibérica e como mentor do Um Ao Molhe, mostra-se o Rei do baixo e de uma voz poderosa, do outro lado Ricardo Cabral, lamecense de gema e um “poliglota da música” é o rei irrepreensível da bateria. Um concerto irrepetível que acabou com uma mão cheia de gente no palco e a certeza de que ainda se vai ouvir falar muito deles. De cabelos meio desgrenhados, a festa prometia não ter fim e Random Gods, projeto de Timóteo de Azevedo, tomou as rédeas do que já era uma noite promissora através de uma incrível atuação suportada por graves dissonantes, espaciais e meio espirituais que roçam um ritual eletrónico.

©Joana Raposo

©Joana Raposo

Ao acordar no terceiro dia, já nascia a chata da nostalgia de que o ZigurFest estava a chegar ao fim.  Cedo esse sentimento desapareceu ao acordarmos com os 800 Gondomar a rasgar a Olaria com os gritos de um punk abusivo e de fazer renascer a fénix. Semi nus e com a pronúncia nortenha nem o calor fez cessar o vigor. Passam as gentes da cidade e dança o senhor de bengala, a senhora com os sacos das compras e toda uma rua cheia de vida.

Solar Corona espalham, por sua vez, um stoner e rock psicadélico à moda de Barcelos. Abana-se a cabeça pelos riffs loucos de um instrumental cósmico. Os anos 70 reavivaram-se de várias maneiras e feitios, mesmo ao alto (coincidência ou não) do Old Rock.  O último concerto das tardes à moda Zigur pertenceu a Berlau & AM Ramos, que resultou de uma fusão feliz entre Fernando Ramalho de Blaze and the Stars e António Ramos de Sax On the Road que passaram em Lamego na 4º edição do festival. Demos a volta ao mundo num concerto hipnotizante em torno do saxofone, da guitarra e de uma verdadeira caixa de Pandora onde cabiam todos os sonhos e sonambulismos. Um safari pelo jazz e pela música experimental.

Posto isto, é tempo de restabelecer forças para estar de corpo e alma na última noite.  Para estarem em pleno as 7 artes em comunhão, faltava a 4º arte,  que surge através da musa poética.  E é no conforto do teatro que nos lembram que nada ficou esquecido.  Molarinho volta ao palco para encher a sala de um background audacioso e explorador.  E é na voz de João Silveira que vem uma poesia dura, nua e crua.  Declamada de forma ofegante e delirante que faz renascer um Bernardo Soares e um Álvaro de Campos modernos perdidos entre folhas e centenas de paralelismos. O segundo concerto é fenómeno inaudito. Experimentem imaginar um piano de cauda e uma bateria a contracenarem no mesmo palco, com certeza que soará a loucura. Ora, o que começou como uma discussão travada entre a música clássica e a música contemporânea, culminou num belo e harmonioso diálogo, a ousadia que deixou o público sem palavras. O piano foi explorado ao pormenor, por dentro e por fora enquanto a bateria vagueava pelo jazz e o rock, a prova que a imaginação não tem mesmo limites.

©Rodrigo Ferreira

©Rodrigo Ferreira

É de braços abertos que chega um dos concertos mais aguardos do festival.  E a casa nunca esteve tão cheia, sentados, de pé, a dançar, a chorar, a sorrir, a beijar, cada um sentiu o concerto dos legendários Pop Dell’Arte de maneira distinta (e ainda bem que assim é!).  Para uns era o recordar da juventude a rodar discos como o Querelle, para outros, o apresentar de uma das bandas mais marcantes do universo da boa música portuguesa, que nos surpreenderam com alguns inéditos. Passadas mais de três décadas, o icónico João Peste mantém a sua singularidade, é ave e camaleão. Trazem-nos o seu erudito pop vanguardista quase saído do movimento dadaísta e que não perdeu nem a liberdade nem a saudável insanidade. Escusado será dizer que a sala se levantou no aplauso final num concerto que se prolongou (sorte a nossa!) mais do que o previsto.

Atrás do teatro, já ninguém segurava a agitação para receber os Killimanjaro, que da única vez que tinham visitado a cidade ainda o Zé Roberto era um menino. Num concerto heavy, imperava o metal e o rock excitante que transparecia nos grooves e contagiava para um mood de saltos, uivos e surf pela multidão. A subida da Olaria é um desfio e prova viva que há um entusiasmo efervescente pela música portuguesa. Entre drones e boogarinices, os alentejanos Marvel Lima são uma cativante banda sonora que lembra o verão num jogo psicodisléptico que evoca um lado latino e descontraído. A encerrar o festival deste ano, descortinou-se uma atuação de RoundHouse Kick, casal de génios com verdadeiras malhas de arrepiar diante uma pista onde se competia para se ser o rei da dança numa batida crescente que transpirava ziguramor.  E como o “after somos nós”, o último dia foi até o sol raiar, cantava-se animadamente, dançava-se, fazia-se o balanço dos concertos inacreditáveis, esperava-se pelo pequeno almoço quentinho e houve até quem levasse a festa para as cascatas, o que é certo é que serão momentos inesquecíveis para toda a gente.

Texto por Maria Cameira


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Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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