MENUMENU

Reportagem


Steve Gunn + HIGHLIFE

Galeria Zé dos Bois

31/05/2016


© Constance Mensh

Enquanto o Presidente da República andou de visita pela Alemanha a dar música aos políticos alemães, Steve Gunn, guitarrista (ou explorador da guitarra, se se preferir) norte-americano com curta carreira mas prolífera obra, esteve de visita a Portugal nos últimos dias. Detentor de certa relação afectuosa com o País, sobretudo com Lisboa – através do belíssimo Cantos de Lisboa, (2014) em co-autoria com Mike Cooper, venerável guitarrista britânico e devoto das camisas floridas tal como certo colectivo nacional de DJs –, a noite estava já ganha, até porque havia um disco novo de Gunn, Eyes on the Lines, para promover e toda uma sonoridade inovadora nestes tempos em que impera a variedade.

Adição de última hora para abrir a noite, a de “Sleepy” Doug Shaw, membro dos White Magic, que tem também o projecto HIGHLIFE – foi precisamente este que veio abrir as hostes em mais uma noite de jogo no aquário da ZDB. O britânico, que aproveitou a deixa de um suposto voo longo para lubrificar a máquina com tragos de uísque e cerveja em palco, veio mostrar um pouco de folk psicadélica (classificação mais apropriada), oriunda dos seus pedais de efeitos.

Debruçado sobre a sua guitarra acústica, os sons que dali saíam pareciam saídos de delírios de jet lag de um voo de quinze horas. Nada mau, que aquela primeira parte se tornaria num aquecimento sem pruridos e com momentos aprazíveis.

De entre estes momentos, destaque para uma versão de Alliance, de Robert Wyatt – ainda que sejam de instrumentos diferentes, Shaw assemelha-se a um Wyatt jovem. Contudo, na actuação de Doug Shaw nem tudo saiu da praxe folk; no seguimento da versão de Robert Wyatt, que só por si já é uma crítica social e política, Shaw envereda por caminhos típicos da folk mais arreigada pós-sessentas e trova, com loops e em Chalice/Dead Gentry, sobre enfados enquanto se espera por mesa num brunch e compenetrações ao telemóvel enquanto a polícia discrimina e assedia minorias.

Com toda esta roupagem de folk onírica, retirou-se Shaw tímida e educadamente, cedendo o palco aos protagonistas da noite: Steve Gunn e a sua banda. Faz-se aqui uso do plural, que ainda que Gunn seja o líder do conjunto, transparece que não se importa de entregar o protagonismo a Jim Elkington, cuja Les Paul assegura o músculo do que se passa em palco.

Gunn dedilha as cordas da guitarra com a segurança de quem tem auctoritas, sempre com uma serenidade impressionante. Maneirismos (ou falta deles) de palco? Talvez não, que toda essa serenidade transparece nas canções – sejam as mais tradicionais ou as mais arrojadas. Se o que se ouve é semelhante ao Bob Dylan eléctrico, também se ouvem uns ecos de uns Dream Syndicate mais sofisticados, com pormenores que já nos atiram para paragens mais remotas, musical e geograficamente.

Arranca a jornada com Ancient Jules, do novíssimo Eyes on the Lines; fala-se apropriadamente de arranque, dado o vídeo da canção: Gunn guiando uma mota pela estrada fora num tempo cinzento, sofrendo uma avaria e acabando ajudado por Michael Chapman, guitarrista britânico que é uma das referências de Gunn. Florescem as várias influências de Gunn: Fahey, Chapman, guitarras da afrobeat e Sony Sharrock e, lá atrás, na sombra, noise constante à moda de La Monte Young. Com uma vitalidade que ultrapassa o estúdio.

É certo que é um lugar-comum, mas Steve Gunn não é exuberante e deixa a sua música falar por si, roçando até a timidez. Entre músicas, uma breve troca de palavras entre Gunn, que quase se desconcentrou, e um conterrâneo seu da Pensilvânia – Gunn com uma expressão do género “nem aqui me livro da malta lá da terra”. Talvez resquícios do tempo em que  não cantava e exprimia-se através da guitarra acústica, como em álbuns como Sundowner, de 2008. Um copo de madurinho e escorreita mas sóbria gentileza, que nem um Kevin Durant das guitarras.

Oito anos volvidos e Steve Gunn é um estudioso da guitarra a caminho da cátedra, com contenção e sem barroquismos, antes em crescente policotomia, como bem atestam ao vivo as canções do novo disco. Em The Drop esteve-se perante trabalho de folk eléctrica como já se viu antes nos tios Neil desta vida, mas com o tal músculo da Les Paul a ampliar-se sobremaneira ao vivo; já em Park Bench Smile temos um rendilhado repartido entre Gunn e Elkington, com a secção de ritmo de Nathan Bowles (bateria) e Jason Meahger (baixo) a marcar a cadência com competência. Gunn joga com pedais (a pertinência do wah-wah) e com o espaço que o capo lhe deixa na guitarra, fintando os trastos enquanto se agacha e nos recorda que gravou um disco sobre Lisboa.

Assim terminou o alinhamento principal, com uma espera de pouca dura. Um regresso ao passado, com “uma canção muito antiga”, Mr. Franklin. Gunn finalmente pega na acústica (e Elkington na steel pedal guitar) e, cheio de Fahey e Jansch (e com um pouco de delay), deambula por um palco agora mais vazio.

Uma última canção para atestar de que o Steve Gunn de 2016 esteve em constante progressão em relação às suas versões anteriores: Way Out Weather, do seu penúltimo disco. “Waves are crashing, coming free”, canta-se; com efeito, o final do concerto foi mesmo uma onda vigorosa de volume, psicadelismo e de noise que faria as poucas sequóias da Pensilvânia tremer, num corrupio final que marca a diferença de Gunn em relação a muitos conterrâneos e onde se é levado, uma vez mais, a La Monte Young e seus drones – um estudioso e explorador da guitarra que não se importa de delegar sons e de manter a discrição. Por fim, coloca-se ao lado da bateria e atrás dos amplificadores, analisando os fenómenos do éter, como bom cientista em plena experiência – ou então um músico que, influenciado por ragas, contempla o som repetitivo que dominava a sala. A posteriori, todos concluímos que a noite foi de excepção, sem ortodoxias.

Tudo isto com conta, peso e medida, mas também muita naturalidade e autenticidade – como dizem lá para os lados de Landsdowne na Pensilvânia e arredores, without breaking a sweat e sem nada avariado, ao contrário da mota de Gunn.

“Amazing!”, berraram estrangeiros no público; não só não é preciso traduzir, como todos concordamos sem reservas.


sobre o autor

José V. Raposo

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