MENUMENU

Reportagem


Slow J

É arte não é hype.

Estúdio Time Out / Mercado da Ribeira

17/03/2017


© Filipe Feio

É arte não é hype. É arte da mais pura, daquela que dá sentido ao atropelo dos dias. É arte o álbum de estreia de Slow J que ontem à noite por pouco não mandou abaixo o primeiro andar esgotado e suado do Mercado da Ribeira, no Estúdio Time Out em Lisboa.

Casa cheia de amigos, fãs e curiosos, para ouvir em primeira mão The Art Of Slowing Down, dos álbuns mais antecipados do ano, para os muitos que seguiam o músico setubalense desde a estreia com o EP The Free Food Tape. EP até fica aquém para essas sete faixas que anunciavam um diamante em bruto, que prendiam os sentidos e que chegaram até mim como muita da música que interessa tem chegado, através do passa palavra amigo “tens de ouvir isto”. Seguiu-se um concerto estrondoso no último Super Bock Super Rock e a expectativa, palavra que prefiro evitar, era impossível de ignorar.

Fred Ferreira e Francis Dale soltam o instrumental de “Cristalina” logo agarrado em uníssono pelo público de peito aberto e estava dado o mote para uma noite memorável. João Baptista Coelho parecia já visivelmente emocionado, quando subiu ao palco para despedaçar tudo com “Arte”. Esta primeira faixa de TAOSD é a prova de que barreiras na música só existem nos preconceitos dos ouvidos de cada um, atitude punk, rock sujo rasgado por beats e rimas, com electrónica à mistura onde tudo faz perfeito sentido, é arte ao alcance de poucos.

Continuando a quebrar barreiras segue-se “Casa” para nos confundir ainda mais os sentidos, uma festa feita de ritmos quentes africanos que convidam a abanar a anca até aos mais desajeitados. Slow J, filho de pai negro e mãe branca cresceu sem preconceito de pele e convida-nos a todos a entrar em sua “casa”. Este “som” é afinal, diz-nos sorrindo e apontando para a plateia, “para os meus primos que são de todas as cores”.

A doce “Beijos” traz-nos um outro Slow J, um crooner romântico, que em menos de um quarto de hora já levou a plateia numa viagem da fúria rock ao semba quente, e é agora também capaz de arrancar suspiros apaixonados. Momento certo para “Sonhei Para Dentro”, das faixas mais fortes deste TAOSD, um golpe duro de se levar, pelo menos para aqueles que por ali se envergonham dos sonhos que deixaram encaixotados, os mesmos que penduram nas paredes lá de casa “choose life” do Trainspotting e passada uma década perceberam que a “vidinha” os engoliu como nos engole a quase todos, quando ali a poucos metros em palco alguém transforma sonhos em vida e é bonito de se ver.

“Às vezes dói mas eu escondo” é o mantra negro de TAOSD que traz ao palco Nerve não-rapper, corrosivo e infame, peça chave nesta “Às Vezes”, para fazer-nos descer aos nossos infernos pessoais e deixar-nos por lá a beber dessa dor viciante. “Comida” resgata-nos com a explosão do público a tentar acompanhar o flow alucinante de Slow J, que esta noite já deu provas de tudo e encaixa agora nos beats rimas que parecem impossíveis até em papel, cerca de cinco minutos vertiginosos sem parar que nos deixam ofegantes só de assistir. Podíamos ficar por aqui que de certeza teríamos adrenalina a pulsar-nos nas veias suficiente por um bom par de dias, mas ainda nem estávamos a meio da viagem por TAOSD e seria obrigatório revisitar também alguns sons mais antigos.

“Biza” com o seu belo solo final de trompete e “Serenata” trazem de novo a bonança e dão lugar a “Último Empregado” que Slow J descreve como “uma fase muito importante do álbum para mim”. Um manifesto à liberdade arriscamos nós, “acabou-se o pau mandado para pagar mobília, tou mais que motivado p’a agarrar a vida, o último empregado na minha família”. Em seguida, Gson e Pappillon entram em palco para “Pagar As Contas” e transformam ao vivo aquilo que já tinha sido um estrondo em vídeo quando o single nos chegou no início deste ano. O companheirismo e amizade dos três está estampado nos sorrisos e abraços que trocam e em “Vida Boa” fazem-nos a todos sentir também parte dessa família, um público em êxtase, enlouquecido entre saltos e gritos.

Já com o final a aproximar-se Slow J apresenta-nos “Sado” que dedica às suas gentes de Setúbal, explicando que é aqui que TAOSD encontra a sua filosofia, “viver bem com as coisas simples da vida e fazermos aquilo que gostamos”. Assim dito parece fácil e quem sabe talvez seja mesmo? A despedida faz-se ao som de “Mun’Dança” com uma invasão pacífica de palco, novamente ritmos africanos doseados de electrónica, com o b-boy André Speedy Garcia a deixar tudo no chão.

Houve tempo ainda para umas mais antigas, até porque o público assim o exigiu. “Objectivo”, “Tinta da Raíz” e “Cristalina” trouxeram-me de volta à memória aquela tarde soalheira nas escadas no SBSR, onde nunca duvidei que Slow J um dia iria “contra gigantes sem temer cair”. Dizer que The Art Of Slowing Down será um dos melhores álbuns do ano é fácil, difícil é mergulhar nele, reconhecer nas suas palavras um pouco de nós com o que dizem de bom e de mau, perceber que as coisas boas da vida não se apressam, elas chegam até nós quando assim o tem de ser.


sobre o autor

Vera Brito

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