MENUMENU

Reportagem


Scott Kelly & John Judkins

Uma simplicidade que nos transporta

Rivoli

27/01/2018


Num sábado de fervor desportivo para os adeptos do futebol, os melómanos mais atentos no entanto convergiam para ver o americano Scott Kelly, frontman que regressou a Portugal depois de ter estado no Amplifest com os míticos Neurosis e de ter passado duas vezes anteriormente pelo nosso país. Desta vez juntou-se a um outro músico de calibre multi-instrumentista. Falamos de John Judkins da fama de Rwake, Today Is The Day entre os demais.

E é perante um Understage bem composto, um acorde tímido fez-se soar através da guitarra do Scott Kelly. Com um carácter melancólico, iniciamos esta jornada pessoal de Kelly e Judkins, ao ouvir a Catholic Blood do The Wake.

Como é sabido ambos os músicos têm um background DIY que transparece bastante, seja na maneira de construção musical ou o simples facto na forma de tocar muito própria. O que deixa espaço para preenchermos cada silêncio ou intervalo para contemplar. Respirar cada acorde, sentido a sobreposição da slide guitar de Judkins. Que ajuda imenso na imersão sónica. É certo que toda a imagética pintada pelo Scott é sombria, solitária e depressiva. Desde a sua voz muito grave, que nos faz estremecer os ossos, até a sua postura no palco quase tímida. Porém é transmitida com uma sinceridade digna de admiração. É com a timidez e amistosidade que somos informados por Scott que esta seria provavelmente a maior enchente da tour. O que não é de estranhar, tendo em conta a fanbase fiel e quase de culto que possui aqui no burgo.

Seguia-se então uma versão da famosa Cortez the Killer de Neil Young. Se no passado já a tivesse interpretado simplesmente com uma guitarra, ou com ajuda de Bruce Lamont (Yakuza) no saxofone. Desta vez cabia a Judkins brilhar com a sua mestria na slide guitar. Ao deslizar de nota em nota, éramos transportados para todo aquele universo que Young terá construído nos anos 70. E no entanto com esta interpretação sentimos o brilho de cada um dos músicos, que se perdem e reencontram entre si, numa ligação quase cerebral. Não faltou a ode ao mítico Townes Van Zandt, uma influência claramente notória na carreira do músico de Oakland. Uma cover da Tecumseh Valley deveras sentida, que desencadeou uma miríade de emoções nos presentes. Tivemos também a possibilidade de ouvir uma versão mais despida da clássica We Burn Through the Night, do projecto The Road Home.

Mais para o final da noite ouviu-se alguém do público a gritar por entre afinações de guitarras; “We love you!” ao que o Scott respondeu num tom de brincadeira; “But you don’t know me”. A verdade é que conhecemos o seu trabalho, seja a solo ou a enfrentar os palcos com os seus irmãos de armas Neurosis. E de facto podemos concluir que a sua influência nos perfura directamente na pele. Posto isto sabe bem receber de volta artistas deste calibre e honestidade. Que com uma simplicidade incrível transportam o público para um imaginário íntimo e tão particular.

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(Fotos por Cláudia Andrade)

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Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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