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Reportagem


NOS Alive

Os 10 anos do NOS Alive ficaram marcados por duas palavras que ainda ecoam muito alto: Arcade Fire.

Passeio Marítimo de Algés

09/07/2016


Dizem que o melhor está reservado para o fim. Mais uma vez, a sabedoria popular não deixou dezenas de milhares de pessoas ficarem mal: os 10 anos do NOS Alive ficaram marcados por duas palavras que ainda ecoam muito alto: Arcade Fire. Mas já lá vamos.

Se há coisa que se reforça a cada edição do NOS Alive é a qualidade das bandas que passam pelo Palco Heineken. É mandatória a deslocação ao outro lado do recinto para conhecer novas promessas ou para nos deixarmos levar por alguns dos maiores nomes da música alternativa. E foram os icónicos Calexico os primeiros a pôr os corpos a abanar. A banda do Arizona, que já conta com mais de 20 anos de história, é uma referência no que aos ritmos quentes diz respeito. Já se tornou célebre a fusão dos ritmos indie com as influências latinas. E porque uma tarde quente acompanhada por cumbia sabe sempre bem, os astros alinharam-se para um concerto praticamente perfeito. A entrega foi de parte a parte: os Calexico arrasaram com temas como Cumbia de Donde ou a grandiosa cover de Alone Again Or, original dos míticos Love que de certeza que deixaria Arthur Lee orgulhoso. O público, por seu lado, entregou-se de corpo (literalmente) e alma à parafernália de instrumentos que ocupavam o palco, entre secção de sopros, maracas e outros que tais, criando um dos melhores ambientes de todo o Alive. Despediram-se com o que todos queríamos ouvir: desejos de que a Selecção Nacional se sagrasse campeã no dia seguinte, depois de terem agradecido por se terem sentido em casa, logo seguida de Guero Canelo, que faz parte da banda sonora de Collateral.

Calexico

Calexico

A banda sonora de pôr-do-sol chegou com José Gonzalez. Depois da passagem pelo NOS Primavera Sound, regressou para compor uma banda sonora para um final de tarde leve. As delicadas canções do cantautor sueco ecoaram no ar, arrancando sorrisos, palmas e até pedidos de casamento. Entre as versões de Hand on Your Heart ou Teardrop, houve ainda tempo de passer pelo trabalho da sua banda Junip e encerrar em beleza com Heartbeats, a canção que o tornou famoso e que é original dos conterrâneos The Knife. Fica no ar o desejo de o voltar a ver num espaço fechado para um momento mais intimista, porque as suas composições merecem ser ouvidas assim.

Não, os Band of Horses não ficaram perdidos no final da década de 00. Estão bem, com músicas novas e capazes do mais ingrato: acalmar os corações que esperam por Arcade Fire. Apesar de trazerem um disco novo para apresentar, começaram com uma viagem no tempo ao dar vida à sublime Is There a Ghost. Os americanos, que sempre gozaram de maior estatuto além-fronteiras do que em Portugal, deixaram tudo em palco e Ben Bridwell fez o que pode para mostrar que continua ao leme de um barco onde sabe bem estar, apesar de continuar amarrado ao passado. Apesar de tudo, foram os temas do início de carreira os que mais geraram adesão do público: o final com No One’s Gonna Love You e The Funeral arrancaram as reacções mais efusivas da plateia.

Band of Horses

Band of Horses

Custa pôr por palavras tudo aquilo que se passou no concerto de Arcade Fire porque qualquer conjunto de palavras agregadas, por mais bem conjugadas que estejam, não serão suficientes para fazer justiça ao que se passou em palco. Não restam dúvidas que são uma das bandas que mais influenciaram os nossos tempos, mas é surpreendente tamanha entrega e dedicação. Entraram ao som de Ready to Start e a partir daí foi um passeio pelo que de melhor a sua discografia tem para oferecer. Aos seus quatro álbuns foram buscar as melhores canções, criteriosamente ordenadas para provocar uma espiral de sensações. Como um filme, a acção foi desenrolando entre The Suburbs e a colorida Sprawl II, que vive da magia quase inocente de Régine Chassagne. Até que chegamos a Afterlife, para um primeiro momento de aperto de um espectáculo meticulosamente ensaiado. Porque há algo de cinematográfico nas canções de Arcade Fire: são canções construídas de uma forma tão complexa que conseguimos ver. Conseguimos ver os subúrbios, os centros comerciais, o lugar estranho para onde vai o amor depois de terminar, os oceanos ensurdecedores, as ruas que esmagam, reflexões. E, por falar nisso, quem também não foi esquecido foi David Bowie, colaborador, amigo, fã de longa data e que partiu cedo de mais. Surge nos ecrãs acompanhado por Heroes, que serviram para motor de arranque para Normal Person.

Depois da visita pelos arredores, semeia-se o sentimento de desilusão e necessidade de mudança. Intervention dá o mote, logo seguida da necessidade de libertação com a chave que a mente detém, com My Body Is a Cage. A partir daqui, e já com os corações apertados, seguiu-se uma série de canções que foram em crescendo até a catarse final: No Cars Go, Ocean of Noise (com os amigos Calexico em palco, eles que são os responsáveis por uma versão sublime desta canção incluída num b-side de Intervention), a inocência gritante de um amor tão puro de Neighborhood #1 (Tunnels) e o regresso às canções para serem cantadas a uma só voz, com a sequência Neighborhood #3 (Power Out), o hino Rebellion (Lies) e a festa cheia de cor com Here Comes the Night Time, com direito aos já famosos cabeçudos (Reflektors) em palco. O arrepiante final ficou reservado para Wake Up, canção que marcou uma geração.

Este foi o terceiro de apenas três concertos na Europa e que privilegiados que somos.

M83

M83

Com o público ainda a descer à terra depois do que tinha acabado de acontecer, M83 tomam conta do palco com uma missão: pôr os sobreviventes a dançar. Como entrada, servem Reunion, single de Hurry Up, We’re Dreaming, álbum com o qual atingiram projecção internacional. Há algo que diferencia este projecto de tantos outros de música electrónica: a estética das canções de Anthony Gonzalez ganha uma nova vida ao vivo. O produtor francês não se importa de correr riscos na hora de cruzar as suas variadas influências, onde se destacam os anos 80, que tanto caracteriza o som dos sintetizadores, puxados pelos restantes instrumentos, e sempre com delicadas linhas de voz a acompanhar.

Este concerto não foi mais do que uma viagem cheia de sonhos, cheia de urgência juvenil tão patente em temas como We Own the Sky, cheia de dores de crescimento, cheia de ser adulto. As músicas novas parecem estar mais longe dos cenários dream pop que inspiraram tantas canções de M83, mas, apesar de tudo, parecem funcionar melhor ao vivo do que em disco: Junk, o seu mais recente trabalho, não tem reunido consenso, mas há mais por descobrir. Já no final, Couleurs foi protagonista do ponto alto do concerto. O crescendo da dinâmica de sintetizadores e percussão nesta música, combinada com a estética tão característica dos anos 80 é um dos momentos mais felizes da carreira de Gonzalez.

Final perfeito para um festival que vai melhorando condições de ano para ano e que ofereceu um cartaz de luxo para a sua maior enchente. O grande desafio será perceber como é que se vai conseguir igual ou melhorar tamanho alinhamento. Já se começam a contar os dias até às primeiras confirmações.

Galeria


(Fotos por Hugo Rodrigues)

sobre o autor

Claudia Filipe

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