Reportagem


LCD Soundsystem

Vodafone Paredes de Coura

18/08/2016


© Hugo Lima

Três álbuns e menos de uma década foi tudo o que os LCD Soundsystem precisaram para mudar o panorama musical. De Brooklyn para o mundo moldaram os ritmos com que dançamos hoje, com muito funk e punk à mistura, experimentando sem medos, com um estranhamente característico e contrastante desânimo e prostração na voz. “Not many bands start as old as LCD Soundsystem“, declarou James Murphy em 2012, recordando-nos que nunca é tarde para encontrarmos o nosso destino – e a verdade é que quando o vislumbramos em Paredes de Coura, cinco anos depois de a formação ter abandonado as luzes do palco, nem damos pelo tempo que já passou. Murphy e Nancy não envelheceram nem um dia, e continuam a liderar com toda a garra aquela trupe de músicos de excelência que fez o palco parecer muito, muito pequeno.

O fim dos LCD Soundsystem foi dramático: concertos de despedida, fãs chorando desesperada e compulsivamente, e aquele maravilhoso “Shut Up and Play The Hits“, filme-documentário de 2012 que acompanha as últimas 48 horas de Murphy na sua existência colectiva. No filme, o concerto de Madison Square Garden é o cenário de fundo, a cidade de New York é a banda sonora, e a emoção é incontrolável.

A profundidade de todo o quadro não antevia o que viria a suceder há meses: quando a banda decidiu regressar, os fãs mostraram um relativo desagrado, sentiram-se enganados e magoados. Afinal, a banda brincou com os seus sentimentos, obrigou-os a lidar com a perda e a passar pelo luto. Seguiu-se um pedido de desculpas oficial – we talked about how fucking awesome it was that so many people were happy to have us back. but that doesn’t take away from those who feel hurt. to you i have to say: i’m seriously sorry.” Mas assim foi que os nova-iorquinos regressaram à estrada, sem nada de novo na bagagem (por enquanto), correndo os festivais mais influentes: Coachella, Primavera de Barcelona, Pukkelpop, Lowlands, Austin City Limits, Roskilde, Lollapalooza, Bonnaroo, Glastonbury, com paragem para aquele abraço aos fãs portugueses.

O cartaz de 2016 do festival de Paredes de Coura é um bom exemplo de como deve ser uma óptima programação – gostemos ou não: o alinhamento segue a mesma estética indie-rock, com pitadas de flavour of the month que cairão no esquecimento em meses, e apelam a um público muito homogéneo, que encheu o espaço. Os LCD Soundsystem destoam desta linha e levaram uma geração nostálgica e mais madura à pequena vila minhota, apesar da deselegante e desadequada escolha de horário.

A minha relação com a banda é complicada. Os LCD sabem fazer malhões maiores que a vida, compõem hinos  apoteóticos que nos elevam à mesosfera e enchem de felicidade qualquer ouvido que cruze o seu caminho. Contudo, ouvir um álbum do início ao fim sempre se revelou penoso – sempre me fizeram sentir que sim, que aquelas 3 ou 4 malhas são incríveis, mas que também há um miolo de repetição exaustiva que vence pelo cansaço, como se não soubessem como terminar algumas das suas músicas. E isto foi o que aconteceu precisamente no concerto de Agosto de 2016, em Paredes de Coura, dia em que os vi pela primeira vez em palco.

O concerto arrancou com o trio de ataque da excelência: “Us v Them“, “Daft Punk Is Playing At My House” e “I Can Change“. Corações ao alto, que vibram com cada batida e derretem com o belíssimo pano de fundo – um dos melhores complementos de projecção que já vi ao vivo. Nos grandes ecrãs laterais, vemos James Murphy em plano fechado e reiteramos «não envelheceu um dia», vemos a banda que desliza entre o digital e o analógico, maravilhamo-nos com uma câmara que nos permite ver o colectivo de cima a fazer sua magia.

Seguiram-se uns longos minutos em que voltei a ter a mesma sensação de sempre, que os LCD Soundsystem estavam ali a tocar extended versions do repertório, que não sabem terminar uma canção. Juro que me apeteceu gritar «parem lá com isso e toquem os hits». O público rejubila? Nem por isso: o público de festivais está diferente e estranho, os concertos são passados em conversa, selfies e brincadeiras. A música é apenas pano de fundo para qual vão deitando olho. Assisti a este fenómeno em todos os grandes festivais nacionais a que fui nos últimos meses, não percebendo ao certo o que move esta estirpe até lá. Será que é assim em todos os concertos desta edição de Paredes de Coura ou os LCD Soundsystem já não suscitam interesse naqueles que nasceram na segunda metade da década de 90?

Aos primeiros acordes de “Someone Great” devolvi a minha atenção plena aos LCD. Afinal, é o meu tema favorito dos moços. Um ensaio melancólio tapado pela alegria do sintetizador, que é – afinal – o que a maior parte de nós faz quando não sabe lidar com certas emoções.

E porque a vida faz-se de regressos, os LCD Soundsystem terminaram com a mesma estratégia de pontapé de saída. Novo trio de ataque para nos arrasar por completo: “New York, I Love You But You’re Bringing Me Down” com o público a erguer as lanternas que a Vodafone oferecia pelo recinto e criando uma linda moldura humana, “Dance Yrself Clean” para sacudir as energias, e “All My Friends“, o hino à existência e à alegria de viver. Terminou em beleza. Melhor, só com confettis e balões a iluminar o céu num eventual amanhecer de Verão.

Foi um concerto perfeito? Não, mas a magia aconteceu. Sei que foi um privilégio assistir a este parágrafo da história da música. Com novo álbum mais dia menos dia, resta-me esperar que haja nova tour e passagem por Portugal, desta vez em nome próprio e sem se perderem num cartaz de festival.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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