MENUMENU

Reportagem


Kurt Vile & The Violators + Meg Baird e Mary Lattimore

Noite de luxo por parte de Kurt Vile e seu círculo de amigos.

Lisboa Ao Vivo

25/10/2018


© Paulo Tavares

“Idiossincrático”. Eis um adjectivo desgastado pelo uso nestes tempos em que tudo o que é bicho-careta se quer distinguir dos demais, mas sempre pela negativa e pela falta de gosto. Porém, há quem tenha emergido e estabelecido uma carreira relevante, com nova mundividência nesse mundo imenso (e confuso) dos cantautores da música independente – que muitos nos têm visitado. De entre estes conta-se Kurt Vile.

Natural de Landsdowne, na Pensilvânia, terra essa que já nos deu Steve Gunn (ele próprio antigo membro da banda de Vile) e que se situa na órbita cultural de Filadélfia – metrópole que nos deu os The War on Drugs de Adam Granduciel, de que Vile foi membro fundador e que também fez parte da banda deste. Entre abrirem os concertos uns dos outros até às primeiras edições foi um pulo e a partir daí lançaram as respectivas carreiras. Desde a estreia com Constant Hitmaker (Woodsist, 2008), Vile tem percorrido os caminhos do lo-fi, da folk e de uma sonoridade que se aproxima do heartland rock, com um timbre próprio de cantautor. Entre colaborações (com Courtney Barnett) e LPs e EPs, o sósia de “Weird Al” Yankovic tem sido do mais prolífico que se vê por aí.

Só nos últimos sete anos, Kurt Vile veio a Portugal uma mão-cheia de vezes; só nesta quinta-feira passada actuou duas vezes em Lisboa. Em aperitivo no Chiado, deu-nos uma declaração de amor e um “heyo” de saudação e cinco canções (e convívio com os adeptos), incluindo “Pretty Pimpin”, “Dust Bunnies”, “Bassackwards” e “Loading Zones”. Andor até ao Braço de Prata pelas 22h00.

Abriram a noite Meg Baird e Mary Lattimore, amigas de Kurt Vile – guitarras e uma harpa recebendo o público com um abraço terno. Se numa corre a folk no ADN (membro de Espers, Heron Oblivion e familiar de Isaac Greer), na outra, sósia de Elisabeth Moss, casam-se a música clássica com a popular. De disco pronto a sair (Ghost Forests; Three Lobed Recordings), deram-nos uma amostra do que aí vem: acordes esparsos na guitarra, o dedilhar na harpa a ditar a textura e a voz angelical de Baird a encimar um concerto que bem poderia ser uma canção de embalar de meia hora (é elogio, atenção) para adultos. Pelo que se ouviu, foi um bonito e válido motivo para seguir o encontro de ambas – uma pena que alguns imbecis das filas de trás armados em papagaios tenham estragado a envolvência que se exigia. Se nos lerem: fiquem em casa ou cortem a língua.

Meg Baird & Mary Lattimore

Meg Baird & Mary Lattimore

O grande círculo de amigos de Kurt Vile mostrou-se com a entrada em palco: cabeludo como Joey Ramone, falsamente lânguido e nunca tenso com nada salvo com os diálogos travados com as suas guitarras e pedais. Há um belíssimo Bottle It In (2018; Matador) para apresentar, mas também um corpo de trabalho invejável que tem tantos pontos altos quanto guitarras e banjos tem Vile nas suas hard cases.

Sejamos peremptórios: Loading Zones, que teve honras de abertura, é já um clássico de Kurt Vile. Ele e os seus Violators estacionam de borla numa cidadezinha da folk psicadélica e temos obra feita. Logo de seguida fazem marcha-atrás cronológica até ao gigante Smoke Ring for My Halo (2011; Matador) com Jesus Fever; agora numa versão mais sóbria, sem perder a graça nem o pendor psicadélico.

Tirando no tempo da bateria, Vile não tem pejo em dar largas à imaginação e se precisar de dez minutos para contar o que lhe vai na veneta, fá-lo. Bassackwards é disso exemplo (não único nesta noite). A sua letra é um monólogo tão Vileano numa metafórica sala de estar com umas cervejas y algo más e um humor melancólico tão seu: I was on the ground but looking straight into the sun, but the sun went down and I couldn’t find another one. Prolífico mas simultaneamente com narrativa de slacker, Vile oferece-nos novo clássico, para ser ouvido com um sorriso e num sofá confortável – enquanto se reflecte porque é que o Sol se perde por aí.

Já tardava uma incursão por Wakin on a Pretty Daze e ela deu-se com Goldtone. Versão superior à de estúdio, de percussão mais vincada e um refrão mais vigoroso, a sua letra corporiza o paradoxo prolífico/slacker de Kurt Vile: “I might be adrift, but I’m still alert, concentrate my hurt into a gold tone”.

A música de Vile, para além do seu humor e perícia técnica, encerra uma beleza única – melhor dizendo, idiossincrática. Runner Ups, cinematográfica até dizer chega (imaginem-na numa sequência de Paul Thomas Anderson ou em mais uma reflexão de Sorrentino sobre o envelhecimento), é de beleza inexpugnável: quem nunca se desiludiu com e perdeu amigos que atire a primeira pedra – ou que mije para cima da vida. Teremos sempre substitutos.

Parece-nos que nesta sua digressão em jeito presidencial (vota Vile ’18) apostou em trazer as suas músicas mais longas, como discursos monolíticos do que mais representativo tem a sua obra. Eis uma grande interpretação de Wakin on a Pretty Day; os Violators dão a base rítmica e parte dos arranjos (grande Rob Laakso) e Vile transforma, como só ele sabe, uma guitarra acústica numa eléctrica capaz de deitar abaixo todos os edifícios devolutos ali da zona.

Kurt Vile & The Violators

Kurt Vile & The Violators

Conforme cantou antes em Hysteria, os pormenores na sua música são tudo: a subtil mudança de melodia e o uso criterioso de pedais em Wakin… ou os seus trejeitos e saltos (e pontapezinhos à Elaine Benes) que remetem para um Joey Ramone contemporâneo, com uma reencarnação de Tom Petty na composição. “Idiossincrático” assenta-lhe que nem uma luva, tal como “fundamental”, que o actual cancioneiro de guitarras independente norte-americano não se constrói sem ele.

Se noutras canções ouvimos a influência de Bob Seger, nesta versão ao vivo de KV Crimes temos Lynyrd Skynyrd em barda, porque até na sweet home Philly podemos mascar tabaco e sacar uns riffs de bater o pé. A Skinny Mini de Vile é como a Skinny Minnie de Bill Haley (sempre o cancioneiro dos EUA): maluca até dizer chega mas a menos tempos do que a segunda.

Com Wild Imagination disse-se adeus e com Pretty Pimpin se voltou ao palco. Canção de topo de catálogo de Vile e Violators, imediatamente reconhecível (ao contrário do homem no espelho que Vile vê na letra) pela sua melodia e pela ginga de uma bateria boa desde o estúdio (Stella Mozgawa, pois então). A setlist previa o fim da picada com Baby’s Arms, mas a estupidez administrativa dos regulamentos autárquicos (só bestas quadradas e corruptas como as que têm ocupado os Paços do Concelho é que ordenam medidores de decibéis num recinto longe de residências) amputou-a de mais convívio com os Violators.

A felicíssima união entre as nuances da obra de Kurt Vile e a tradição do heartland rock e da folk traduziram-se num grande concerto. Se o artista chegou, mesmo ainda jovem, a uma fase da carreira em que é já frustrante a quantidade de canções boas que ficam de fora do alinhamento, o que foi tocado em palco deu para o gasto e para ver todos as pedras que compõem o imaginário Vileano, o de um grande escritor de canções e intérprete.

Não houve um solo que soasse mal ou um acorde mal jogado e foi possível assistir – lá está – à evolução de todos os pormenores que constituem a idiossincrasia da sua obra. Se é um ganzado ou se anda sempre cego pouco importa (até porque anda sempre atento, como bem canta), que as liras das musas transformam o trovador de voz de gato de Filadélfia num portento. Só faltou mesmo um banjozito.

No dia seguinte acordámos de manhã e reconhecemos ao espelho que foi um grande concerto, sem runner ups. Se for para isto, quereremos sempre ouvir os seus golden tones.

Galeria


(Fotos por Paulo Tavares)

sobre o autor

José V. Raposo

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