Reportagem


Korn + Heaven Shall Burn + Hellyeah

A redenção em forma de estrondo

Campo Pequeno

15/03/2017


© Débora Jacinto

Na passada quarta-feira os Korn tiveram finalmente oportunidade de colocar para trás das costas a visita anterior ao nosso país. Após os problemas técnicos que encurtaram em muito e acabaram por fazer desistir a banda da sua actuação no Rock In Rio Lisboa do ano passado, a redenção veio em forma de estrondo, com os fãs a aderirem em massa e a encherem a arena do Campo Pequeno, numa noite onde a sintonia entre ambos foi perfeita.

Antes disso, coube a duas bandas darem o pontapé de saída às hostilidades. Primeiro os Hellyeah, que contam na sua formação com  o vocalista Chad Gray (Mudvayne) e o baterista Vinnie Paul (ex-Pantera), e que entre apelos à união da família heavy metal, passaram maioritariamente por Blood For Blood, de 2014, e Undeniable, de 2016, de onde retiraram Moth, tema que Gray nos contou ser sobre erros passados, e Human, primeiro single do mais recente disco, por exemplo.

Logo depois seria a vez dos alemães Heaven Shall Burn subirem a palco, tal como a intensidade vivida fora dele. O mosh aumentou, os circles pits multiplicavam-se e a partir de certo ponto a noite dos seguranças de frente de palco passou a ser regida por um simples lema: “Crowdsurfers no meu caminho? Apanho-os todos”.

Com relativo pouco tempo ao dispor, a banda optou por percorrer a sua discografia, com quase um tema por álbum, terminando com a poderosa Endzeit, retirada de Iconoclast (Part 1: The Final Resistance), de 2008, e o vocalista Marcus Bischoff a viajar nos braços do público.

Passava pouco das 22h quando tudo ficou pronto para darmos as boas-vindas aos Korn. Palco cortado ao meio por um pano simples, onde atrás de si os testes de som tinham sido efectuados, e à sua frente apenas o icónico microfone em formato de figura feminina, desenhado por H.R. Giger.

Quando o pano cai ao som Right Now e visualizamos o também famoso boneco que tem acompanhado a banda ao longo da sua carreira desde Issues, sabemos que vamos iniciar uma viagem pelo tempo ao som de alguns dos maiores sucessos dos Korn, até porque surpreendentemente (ou não, dependendo se tal como nós consultaram as setlists dos concertos anteriores), a digressão tem vindo a ser feita em modo best of, apesar de haver um novo disco para apresentar, e que até é um dos trabalhos mais fortes que a banda já lançou em alguns anos.

No entanto The Serenity of Suffering não haveria de ficar de fora e logo ao terceiro tema ouvimos a forte Rotting In Vain e um pouco depois Insane. Entre estas duas houve espaço para Somebody Someone, que deixou o público em êxtase, logo seguidas de Word Up!, a divertida cover de Cameo e Coming Undone, que como já vem sendo habitual, é intercalada com um trecho de We Will Rock You.

Por esta altura Jonathan Davis aproveita a pausa entre músicas para finalmente endereçar algumas palavras sobre o concerto do Rock In Rio, pedindo imensa desculpa em nome da banda e dizendo que são merdas que acontecem, não sendo culpa de ninguém. Não duvidamos que ainda existam fãs melindrados com a fatídica data, mas também sabemos que todos os que estavam presentes no Campo Pequeno já tinham perdoado isto desde que a banda subiu ao palco.

Se é fácil apoiar nos bons momentos, esta foi uma demonstração cabal que os fãs da banda estão também com ela nos momentos menos bons, e se poderia haver alguma desconfiança em relação a este espectáculo, a casa cheia e o entusiasmo da plateia desmistificou desde logo isso, tirando dos ombros da banda qualquer peso acrescido que pudesse sentir nesta passagem específica por Lisboa.

Mas fuck that, que todos nós queremos um single, e foi a isso que tivemos direito logo de seguida. A partir daí foi clássico atrás de clássico, como se o público não estivesse já efusivo o suficiente, e a Make Me Bad juntou-se Shoots and Ladders, com a triunfante entrada de Davis com a sua gaita de foles e, no final, um pedaço de One, dos Metallica.

Quando a banda sai de palco e deixa apenas Ray Luzier, sabemos que é tempo para o baterista brilhar com o seu longo solo a introduzir Blind. A pequena mas eficaz Twist e Good God haveriam de fechar esta primeira parte de concerto, com duas grandes explosões de energia guardadas para o encore.

Primeiro com Falling Away From Me e logo de seguida Freak on a Leash, dois dos temas que apresentaram muito boa gente aos Korn e que em 2017 ainda fazem a delícia dos novos fãs e dos saudosistas.

Podemos especular que, talvez se os Korn tivessem completado o concerto do ano passado no Rock In Rio, não estivéssemos na sua presença em nome próprio agora. E pesando os prós e os contras, talvez isso nem tenha sido assim tão mau.


sobre o autor

Hugo Rodrigues

Multi-tasker no Arte-Factos. Ex-Director de Informação no Offbeatz e Ex-Spammer na Nervos. Disse coisas e passou música no programa Contrabando da Rádio Zero.

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