MENUMENU

Reportagem


Iminente

O dia de lendas hip hop

Panorâmico de Monsanto

22/09/2018


Quem vai ao Iminente desde a primeira edição, sabe bem que a cultura hip hop é uma constante, diríamos até, a predominante do festival que Vhils e a Underdogs lançaram em 2016, preenchendo um espaço em falta, dentro do marasmo dos muitos festivais nacionais. E isto faz todo o sentido num festival que tem na sua génese a missão de aliar arte e música urbanas emergentes, já que não existe nenhuma outra cultura, como o hip hop, capaz de englobar as mais diversas áreas: música, dança, arte, poesia, com um mesmo espírito crítico e criativo, numa mesma linguagem ou, parafraseando a mensagem que Valete nos deixou ontem, “num só caminho”. Rappers, DJs, MCs, b-boys, writters – tem sido possível ver um pouco de tudo neste Iminente, como aliás, em edições anteriores.

Este ano, o Iminente, deu também uma larga passada internacional cruzando o Atlântico, trazendo-nos muitas velhas guardas do hip hop da Costa Este americana, onde afinal tudo começou. “Hoje está aqui um dia muito bonito”, relembrava Keso, na sua actuação ao final da tarde, com o orgulho de estar a partilhar o mesmo palco, onde mais tarde iriam subir todas estas lendas do hip hop. DJ Maseo dos De La Soul, Kool G Rap Havoc (Mobb Deep), transformaram ontem o Panorâmico de Lisboa numa cave underground de um qualquer subúrbio nova-iorquino, em três concertos que carregaram consigo o enorme peso do passado, não só por todos eles serem pilares da construção do hip hop, mas também porque todos eles fizeram questão de nos dar uma lição de história que, em certos momentos, confessamos nos ter parecido algo desajustada para a realidade de 2018, mas já lá chegamos.

Kool G Rap

DJ Maseo começou o seu concerto recordando alguns grandes nomes recentemente desaparecidos: o rapper Prodigy (a metade ali hoje em falta dos Mobb Deep), Phife Dawg dos A Tribe Called Quest, assim como perdas mais antigas de J Dilla e Tupac, até hoje insuperáveis. “I don’t want to celebrate death, I want to celebrate life. Celebrate life, love and hip hop culture!” E DJ Maseo ontem ofereceu, de facto, um set variado de muitos clássicos, que levou os b-boys do festival (que já tinham deslumbrado todos os presentes, nas battles que ocorreram no primeiro piso do Panorâmico, ao início da tarde), a dançar no alcatrão em frente do palco principal durante mais de uma hora.

E se há pouco nos referimos a uma sensação de “desajustamento” foi porque, se por um lado, este desfilar de clássicos preencheu a noite de uma nostalgia deleitante, por outro sabemos que esta não é a música mais revelante e que interessa nos dias de hoje. Com todo o respeito e admiração por todas as lendas do hip hop americano que ontem passaram pelo palco principal do Iminente, no final fez-se um balanço a momentos algo mortiços e de pouco entusiasmo. Talvez porque esta realidade gangster do hip hop americano nos seja algo distante (nunca a poderemos entender com a mesma emoção de quem a viveu), e porque, possivelmente, mais de metade dos presentes seria ainda criança na década dourada dos 90. Também não ajudou o estado lastimável em que a voz de Kool G Rap se encontrava ontem, que levou o próprio a pedir desculpas e que dificultava seguir a meada ao enredo das suas rimas. Assim como, a certa altura, nos pareceram demasiado pesadas as imagens de memória a Prodigy, que passaram ininterruptamente em todo o concerto de Havoc. É importante não esquecer o passado, mas é ainda mais importante conseguir seguir em frente.

Valete

 

Não interpretem estas nossas considerações como uma desvalorização da velha escola do hip hop, não é isso a que nos referirmos, até porque se assim fosse não vos diríamos agora que o melhor concerto da noite de ontem foi dado por Valete e pelas suas tropas. Enquanto aguardamos por disco novo do rapper, após um hiato de 12 anos desde Serviço Público, cada concerto de Valete é como um dia de chuva no deserto, momentos raros que fazem brotar vida no rap português.

Com uma clara intenção de trazer de volta “o rap sujo”, começou o seu concerto dirigindo-se ao público da seguinte forma: “estamos no festival certo, nós representamos a música alternativa em Portugal, nós representamos o hip hop original” e pelo meio haveria também de apelar a todos os artistas ali presentes para construirem música com espírito, música que nos ajude a todos “a viver melhor, a pensar melhor” – esta parece ser a empreitada maior do rapper que está de regresso com o seu “rap consciente”.

Velha e nova escola “num só caminho”, muitas homenagens a praticamente todos os nomes incontornáveis desta cruzada do hip hop português, com nomeações para todos, que desfilaram em vídeo: Mind da Gap “os pioneiros”, Xeg “o sábio”, Capicua “a imperatriz”, Dealema “os espartanos”, Papillon “o infante”, NERVE “o escultor”, Plutónio “o snipper”, Da Weasel “os faraós”, Slow J “o anjo azul”, e muitos outros, com a homenagem mais sentida para “o ilusionista” Sam The Kid.

As lendas internacionais que nos perdoem mas o dia de ontem pertenceu à música portuguesa, que está viva e de muito boa saúde como se viu em muitos outros concertos: na emoção da guitarra de Noberto Lobo, nas rimas genuínas do portuense Keso, nos beats de DJ Glue que lotaram a cave ou ainda em todo o talento que a Príncipe tem descoberto e lançado nos últimos anos. Passado e presente unidos rumo ao futuro.

Galeria


(Fotos por Inês Ventura)

sobre o autor

Vera Brito

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