Reportagem


Future Islands

Movimentos serpenteantes

Hard Club

24/10/2014


© Jorge Silva

Na passada sexta-feira, os Future Islands encerraram a sua breve estadia em Portugal, esgotando o Hard Club, tal como aconteceu em Lisboa na noite anterior, feito que sou incapaz de compreender/explicar. Reconheço a musicalidade agradável, puxando às doces batidas sonhadoras dos 80s, e a figura de palco que é Samuel T. Herring. O crooner ama e respira romantismo, sofre e chora, e purga os fantasmas em movimentos que se assemelham a algo entre o espasmo involuntário e a quase-agressão de quem tem à frente, encostado ao palco.

Aproveitando e bem a sala recheada, recuaram breves meses na sua carreira e deram início à noite com o belíssimo e esperançoso “Give Us the Wind”, do álbum On The Water (2011), recordando-nos que não se iniciaram agora nestas lides. Avançando para Singles (2013), os acordes compassados de “Back in the Tall Grass” abriram caminho para o primeiro grande momento da noite, com “A Dream of You and Me” e, de repente, a sala transformou-se num enorme coro de vozes e palmas. Os sintetizadores convidavam à dança e muitos tentaram imitar Samuel – falhando grosseiramente devido à falta de espaço –, especialmente na sequência de “Sun in the Morning”, “Walking Through That Door” (do álbum lançado no longínquo ano 2010), “Balance” e “Before the Bridge”. E, claro, do novíssimo e ainda mais contagiante “Doves”.

Seguindo os traços clássicos dos contadores de história, os Future Islands concederam-nos algum tempo para respirarmos, antes de atacarem o grande momento final. “The Great Fire” (2011), “A Song for Our Grandfathers” e “Light House” fogem do registo mais dançável dos norte-americanos, mas nem por isso perdem força, adquirindo ainda maior personalidade em palco. E depois aconteceu “Seasons”, o segundo grande momento da noite. Telemóveis no ar – a filmar, a fotografar, a encher o ouvido do amigo que já não arranjou bilhete –, e a sala do Hard Club ganhou proporções de estádio de futebol que acolhe a banda megalómana do momento. Valesse a vontade do público e repetiriam a música umas duas ou três vezes. Prometia-se um fim apoteótico e assim foi, com “Tin Man” e “Long Flight” (ambas do álbum de 2010) e a palpitante “Spirit” encerrava a festa na perfeição. O quarteto saiu em glória mas o público gritou por mais, o que resultou num encore que começou morno com “Fall From Grace” (finalmente ouvimos o mais pujante growl de Samuel) e “Inch of Dust” (2010), retomando o ambiente de festa com “Vireo’s Eye” para arrasar de vez com todos nós.

O alinhamento construído de forma inteligente, navegando um pouco por toda a discografia, deu a conhecer aos mais incautos o enorme talento dos Future Islands. A linha musical e a nítida inspiração no sintetizador mais retro está sempre presente, e que bem que o fazem. E, claro, têm nas suas fileiras o enorme Samuel T. Herring, uma personagem que marca a música contemporânea pela sua inigualável presença – não gritou tanto quanto esperávamos, mas os socos no peito e os movimentos mais serpenteantes enchem as medidas de qualquer um.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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