Reportagem


Ermo

A dose certa de extravagância

Sé La Vie

11/04/2015


© Cláudia Andrade / nervos.pt

Para quem tem bom ouvido e bom gosto, os Ermo não são mais uma mera promessa da música nacional, mas sim a confirmação de que há lugar para a unicidade e a dose certa de extravagância. Se os conhecemos num ambiente lúgubre e melancólico, hoje encontramos estes rapazes de Braga cada vez mais mergulhados nos prazeres da vida.

Em Março último lançaram o seu mais recente EP, «Amor Vezes Quatro». Um título inteligível para o trabalho conceptual: quatro faixas, quatro reflexões sobre o amor, o sentimento que nos alegra e atormenta em iguais proporções, que nos rouba toda a racionalidade, e sobre o qual temos apenas uma certeza: «de que nos vale a vida sem poder amar?», como ouvimos logo na faixa que abre o álbum.

O primeiro concerto de apresentação só podia ser em Braga, num dos mais recentes espaços da cidade: o Sé La Vie. A frente de palco foi apertada para quem fez questão de responder ao convite dos Ermo. E nem Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, faltou, uma espécie de confirmação do valor e da importância da banda.

Do disco ouvimos “Fado Teu”, a ode ao amor carnal e obsessivo, seguida da impulsiva “Súcubo”, que cresce ao vivo, evoluindo instrumentalmente face à versão de estúdio e navegando por um ambient bem mais expansivo. Ouvimos “Recreio”, a faixa que encerra o EP e que transporta segredos no seu deboche, segredos esses que nem sempre queremos desvendar. Aliás, o grito «cala-te e come» do single “Pangloss” (2013) foi o perfeito elo de ligação que nos conduziu à faixa homónima do trabalho e que o inaugura. “Amor Vezes Quatro” adquire maior beleza em palco, um testemunho sobre o sentimento permanente e contínuo, que nos mastiga e nos derruba incessantemente, mas do qual não fugimos nem desistimos, pois teimamos em amar.

Recordámos ainda “Projéctil” (2013) para encerrar o concerto, uma trova ao espaço cultural da cidade de Braga – uma instituição da bem infame Rua do Caires – e onde gravaram o primeiro disco.

Num palco encarnado como o sangue que nos enche de vida, os Ermo mantiveram-se como nos habituaram: Bernardo Barbosa inabalável na sintetização do som e António Costa a consubstanciar a sua arte, a perfeita voz para uma geração que precisa de se alicerçar num futuro demasiado turvo.

A próxima apresentação ao vivo está já agendada para quinta-feira (16 de Abril), no Musicbox. Resta-me esperar que Lisboa não desiluda e que no final da noite se contem apenas 5 ou 6 bilhetes por vender à entrada.


sobre o autor

Isabel Leirós

“Oh, there is thunder in our hearts” – Fernando Pessoa

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