Reportagem


Bruno Nogueira + Manuela Azevedo + Nuno Melo + Nuno Rafael + Nelson Cascais

Deixem o Pimba em Paz

Theatro Circo

16/05/2017


Portugal, território de muito distintas zonas geográficas, tem em cada uma delas um distinto pedaço do que constitui o seu maior património. Seja o Minho, ou o Alentejo, o interior e o litoral: há cantares, ditos, gestos, tradições, e tudo isto faz parte de uma espécie de herança que carregamos e temos o dever de prosseguir. Um dos mais relevantes exemplos deu-se no século XX: o francês/corso Michel Giacometti entregou-se ao património musical do nosso país e calcorreou-o, com o intuito de lhe registar as suas diferentes vozes, e chamou a nossa atenção para o longo trabalho que há ainda por desenvolver.

Talvez, num hipotético seguimento desse legado, possamos apontar o trabalho do frequentemente-humorista, esporádico-actor, mas-certamente-um-artista Bruno Nogueira – sim, ele mesmo – que num curto espaço de tempo se lançou a ‘Som de Cristal’, série televisiva de destaque aos músicos pimba, e ainda ao espectáculo ‘Deixem o Pimba em Paz’, na companhia de Manuela Azevedo, Nuno Rafael, Nelson Cascais e Filipe Melo. A produção musical ficou encarregue destes dois últimos. Obviamente, a pergunta que se impõe é: merece o pimba estar presente neste legado, no património musical que carregamos na nossa cultura? E deverá pôr-se esta pergunta, sequer? (obs: há pouco tempo, Vítor Rua defendeu publicamente a ideia de Quim Barreiros ser um genuíno e importante artista pop português).

A premissa é simples: na música pimba há património valioso e genuíno que representa uma enorme dimensão da nossa portugalidade; e ainda por cima canta-se em português, com muitas das suas letras frutíferas na rima e nos jogos de palavras. Mas é inegável que grande parte, senão todo esse património, está extremamente afastado dos pólos culturais relevantes: é música do povo, digamos, de índole comercial que prontamente descartamos por uma miríade de motivos. É uma discussão que se poderá ter, mas não aqui. Por agora, cinjamo-nos a ‘Deixem o Pimba em Paz’, que passou pelo Theatro Circo, em Braga, no passado dia 16 de Maio.

Os músicos dispõem-se rodeados de instrumentação vária: Nuno Melo entrega-se ao piano, e, fora um par de ocasiões pontuais, por lá fica durante todo o concerto, e Nelson Cascais será fiel ao seu contrabaixo. Nuno Rafael tanto se desdobra nas guitarras como oferece uma ajuda na percussão electrónica; Manuela Azevedo nunca deixa de emprestar a voz, seja para um coro ou para assumir o protagonismo, e percute também; e, por fim, Bruno Nogueira, sobre o qual incidem invariavelmente as atenções, há-de cantar e violentar um tambor em várias ocasiões. Um brilharete!

Deixem o Pimba em Paz © Nheko

© Nheko

Há uma diferença de base entre o que se ouve no espectáculo destes cinco e as versões habituais das canções: os arranjos, que nem sempre são fiéis à sua estrutura original, foram muito bem conseguidos e variados entre si. Logo as duas primeiras do alinhamento, 24 Rosas de José Malhoa e Azar na Praia de Nel Monteiro, transformam-se em música furtiva, aliciante, cujo habitat natural é um bar soturno ou um cabaret para corações transviados; a letra é a mesma, mas muda a sua envolvência, e a guitarra, assertiva e lânguida, dialoga permanentemente com o piano e o contrabaixo, fora a extensa parafernália ao dispor de Bruno e Manuela.

Faz-nos pensar, por exemplo, numa emulação de Tom Waits no seu seminal Rain Dogs (e, mais tarde numa outra música, uma homenagem ao crooner Leonard Cohen), mas nunca imaginámos uma atmosfera tão sorumbática para a interrogação “como é que eu hei-de me ir embora / Com as perninhas todas à mostra?”. A verdade é que são temas líricos presos aos mais nobres e pertinentes motivos: a mágoa da traição, a morte, o amor, apropriados e enquadrados em instrumentação de primeiríssima água. Ao longo do espectáculo, vários foram os territórios musicais por onde deambulámos: Na Minha Cama Com Ela, original de Mónica Sintra, ficou exercício pop brilhante e ensolarado; A Garagem da Vizinha transformou-se em canção cândida, quase pastoral; Mãe Querida, sem artifícios vocais, uma sincera entrega, mas mais moderna; e sempre a sensação de que se fez homenagem e reapropriação de uma forma muito digna: rir com, e não de.

O mais arriscado, e certamente um dos momentos altos da noite, construiu-se à volta da Vem Devagar Emigrante, de Graciano Saga. Antes da música, o mestre-de-cerimónias explicou que não tinham “ideia de como enquadrar a música no alinhamento, até que, numa noite de ensaios com muito sexo e drogas, a coisa surgiu”, e transformaram a original numa certeira paródia ao hip-hop e à figura do MC. Conseguiram elevar (ainda mais) o absurdo da letra original, com as interacções entre Bruno e os refrões de Manuela; resultaram lágrimas choradas, divididas entre a visceral comédia e a hilaridade do resultado final.

E se o departamento musical é exímio e vale por si só, há ainda a vertente humorística, que bebe também da obra que interpreta (e pela forma como o faz), mas tem ainda na figura da sua personagem maior um inesgotável poço de graça. Seja entre as músicas ou enquanto as canta, Bruno conduz o serão a seu bel-prazer com uma capacidade artística que não lhe conhecíamos. A música pimba foi bem tratada, e ainda pretexto para rir, muito, e para levar a cabo um concerto distinto.

Pouco tardou para que a sala, cheia, se rendesse ao encanto do grupo. O conceito e a aposta nunca nos afiguraria possível – ou boa ideia, sequer – e muito menos que se reunisse este elenco para os concretizar. Depois da apresentação em várias salas do país, que desde 2015 já teve mais de vinte datas, seguem para os Estados Unidos e para o Brasil, para depois terminar em território nacional. São derradeiras oportunidades para aferir o espectáculo, e ter a certeza que não podemos, de todo, deixar o pimba em paz.


sobre o autor

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa.

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