MENUMENU

Reportagem


Dawn Richard

A mescla musical de Nova Orleães e o funk vivem-lhe no sangue.

Galeria Zé dos Bois

16/06/2016


Dawn Richard (ou, artisticamente, D∆WN), que supostamente merecia um palco como o dos festivais de grande dimensão deste País, passou recentemente pela Galeria Zé dos Bois. Repete-se, porque ainda não se acredita: uma artista com centenas de milhar de seguidores no Facebook, colaborações com gente muito relevante e, ao que consta, a primeira actuação em vídeo a 360º da história do YouTube, viria a uma das grandes salas de Lisboa como se estivesse no início da carreira, em fase de afirmação. Um grande trunfo por parte da programação da ZDB que, no que toca ao r&b contemporâneo, tinha já dado cartas, como bem se viu no (óptimo) concerto de Kelela há cerca de dois anos, sem esquecer THEESatisfaction ou, com mais rimas e uma componente mais transgressiva, Mykki Blanco e Le1f.

Sem peneiras, a sala encheu e foi aquecendo os motores com um competente DJ de serviço, que fez jus à obra de Dawn: salpicou as colunas com um pouco de r&b, um pouco de hip hop e sons refogados num tacho congénere – em comum têm a qualidade e a frescura num panorama crescentemente formular. Fauna diversa, parte dela conhecendo melhor a obra do que outra, mas toda ela curiosa para ver o que sairia dali de uma actuação que muito prometia – GET HYPE, para aproveitar a expressão que tem dominado a Internet nos últimos tempos, à conta de certo duelo em certa série sobre guerras, dragões e castelos.

Por volta das 22h40, aí estava Dawn, equipada precisamente à Game of Thrones, ostentando o microfone como espada, pronta para degolar tudo o que fosse preconceito musical e não só. O que a diferencia dos prazeres pop/r&b mais popularuchos? Fazer o que lhe dá na telha (da MTV e das Danity Kane para o mais aguerrido DIY), seja em auto-tune ou no mundo da moda, sem alarido desnecessário e deixando o seu produto falar por si. A mescla musical de Nova Orleães e o funk (este pelo pai, Frank Richard) vivem-lhe no sangue e tal facto é notório.

O público (liderado em entusiasmo pelo seu elemento mais velho, nada como a sabedoria dos mais velhos ou então já não se fazem jovens como dantes) levantou-se em suada onda, estando já a noite ganha. Dawn Richard fez-se acompanhar de dois dançarinos (Michelle Makela e Anthony Jackson) que se contorciam livremente a espaços, protegendo-lhe cerimonialmente os flancos, conferindo outra dimensão à simples e efectiva mise en scène: um triângulo com luzes dentro, para que ninguém se enganasse: era mesmo D∆wn que ali estava, sem necessidade de luzes à frente do palco, que aqueles vultos chegavam para nos meter a todos de rastos.

Todos tinham, pois, Faith em Dawn, nunca a perdendo (como reza a letra). Em cruzamento com um Guetta e Azealia Banks, mas com brutas reminiscências de eurodance, se arrancou à grande. Batidas por minuto em altas, com um número de megafone que muito agradaria a terroristas de campismo festivaleiro (em particular a um certo limiano que muito invejou não estar naquele festão na ZDB), apenas variando para que o público pudesse respirar, que a anfitriã é que mandava.

Como já se deu a crer, este era um concerto há muito aguardado; nenhuma canção do repertório de Dawn era mais apropriada ao momento do que Calypso, incluída em Blackheart, aclamado álbum de 2015. “Been waiting for this feeling”, cantava, correspondendo o público aos saltos e os dançarinos rodopiantes, com as suas luvas com luzes, faróis de aviso ao tráfego em palco, numa mímica esfuziante; também Blow encaixou no estado de espírito da sala, rebentando (salvo seja) de vez com as dúvidas de que se estava perante uma artista que, sendo já experiente, tem uma irreverência e energia de fazer inveja a muitos que para aí andam a proclamar revoluções em palco.

Se Berry Gordy ou os irmãos Holland e Lamont Dozier (na Motown) ou Jerry Wexler (na Stax) eram os grandes magos da produção da soul e r&b de há meio século, Machinedrum e Kingdom fazem hoje as honras. Já não há sopros nem guitarras, mas sente-se o TR-909 na música de Dawn Richard, completada pela sua voz versátil em Not Above That, uma colaboração com Machinedrum/Travis Stewart.

Em Wake Up só não houve shots, contrariando-se a letra. Tal como no vídeo (apresentado como um “filme de moda”), viu-se uma espécie de fénix que veio mostrar que se pode andar pelo mainstream e por salas de aficionados como a ZDB. Sendo a sua música tão idiossincrática, Dawn Richard quase que parece do punk – reforçou a convicção ao dar tudo no meio do público, desafiando-o: “Y’all motherfuckers better jump!”. Até as tábuas saltaram, que a coisa não era para menos.

E assim terminaram quarenta minutos que foram de tudo menos sono.

“Boycott Beyoncé”, lia-se numa t-shirt; depois do que se viu é o mais provável. Se Josephine Baker era a Vénus de Bronze, então Dawn Richard, com os seus períodos de cores à Picasso, é uma Vénus de muitas cores e muitos sons – em comunhão com os que a vêem e ouvem, como se testemunhou após o concerto.

A época de festivais já abriu e não abafou Dawn Richard, que é, só por si, um festival.


sobre o autor

José V. Raposo

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