Reportagem


Capicua

Um concerto especial, num espaço intimista, dedicado aos temas mais introspectivos e emocionais.

Galeria Zé dos Bois

07/05/2016


© Pedro Geraldes

Lado esquerdo. Foi com o lado do coração que Capicua baptizou o concerto de ontem na ZDB, em Lisboa. Um concerto especial, num espaço intimista, dedicado aos temas mais introspectivos e emocionais.

Longe vai o tempo do primeiro disco de Capicua, quando a rapper denunciava em “A Última” o boicote dos grandes promotores aos artistas do hip-hop (“em festivais não é suposto, só toca banda de rock”). Desde o ano de 2012, Capicua foi derrubando sucessivas barreiras e viu abrirem-se, com todo o mérito, as portas dos grandes festivais. A verdade é que ao ar livre e perante grandes audiências as letras acabam por ser sufocadas, tanto pelo beat como pela excitação envolvente, tornando essas actuações especialmente adequadas aos temas mais festivos e combativos. Um concerto como o da ZDB faz por isso todo o sentido, para que os temas mais delicados e emotivos tenham espaço para respirar e ser apresentados em toda a sua beleza, até porque é nessas faixas que a veia lírica de Capicua mais se destaca.

Perante um aquário repleto que aguardava o início do concerto ao som do proverbial Tim Maia, devidamente acompanhada pelos habituais side-kicks M7 e D-One (aos quais entretanto se juntou Virtus), Capicua replica a abertura do segundo LP, com “Lenga” e “Sereia Louca”. No interlúdio, dirige-se ao público para explicar aos mais distraídos o âmbito do concerto. O contacto com a plateia foi aliás uma constante ao longo de toda a actuação, fosse para contar histórias relacionadas com cada música ou para explicar porque evita tocar certos temas que entretanto a saturaram. Seguem-se “A Mulher Do Cacilheiro”, uma versão a capella de “Alfazema” e “Medusa”, todos hinos à dimensão feminina, que embora sejam temas frequentemente visitados ao vivo, ganham aqui uma expressão mais definida e contundente.

Capicua chama em seguida Tamni ao palco, para interpretar o refrão da história de amor e saudade de “Soldadinho” na remistura de “Medusa”. Segue-se “Amigos imaginários”, um tema resgatado da mixtape “Capicua Goes West” que a rapper confessa ser frequentemente pedido nos concertos, embora a popularidade da canção sempre a tenha surpreendido. Logo depois é tempo de “Luas”, um genial exercício de escrita que habitualmente não faz parte dos alinhamentos ao vivo e que a própria Capicua admite ter recuperado especialmente para este concerto. Mas que faz todo o sentido, tal como a obrigatória “Casa no Campo” logo depois, uma das letras mais bonitas e consistentes de todo o reportório. Com o calor a apertar dentro da sala, tempo para “Fumo Denso”, uma música de DJ Ride ao qual Capicua emprestou a voz, e para uma versão reduzida a capella de “Vinho Velho”, também extraída de “Capicua Goes West”. Para fechar a parte mais emocional do concerto, a incontornável “Lupa”, uma balada com refrão de Aline Frazão cujo ritmo lento contrasta com uma letra que fala de amor ardente.

Encerrado o registo mais intimista do concerto, Capicua propõe uma incursão por mares mais agitados. Quase como se começasse um novo concerto, Capicua atira-se a uma versão a capella de “Liberdade” de Sérgio Godinho, acompanhada de apelos à libertação de Luaty Beirão e dos 16 activistas condenados pelo regime angolano. Dado o mote, segue-se o cântico revolucionário de “Pedras da Calçada”, surgido no seguimento do movimento Occupy mas que mantém a actualidade apesar do “tempo novo” entretanto anunciado. Regresso às origens com “Maria Capaz”, o primeiro single do álbum de estreia, à qual se segue uma versão abreviada de “Egotríptico”, a resgatar o tom das tradicionais battles de hip-hop e a dar espaço ao flow corrosivo de M7.

Com o final do concerto no horizonte, Capicua envereda por uma versão a capella de “Jugular”, seguindo-se o cântico temerário de “Medo Do Medo”. Para terminar, há ainda tempo para a inevitável “Vayorken”, a música que se tornou num autêntico êxito de Verão, invadiu as rádios generalistas e catapultou Capicua “do gueto alternativo que passou a ser a norma” anunciado em “1ºDia” para a notoriedade musical. Hoje Capicua é uma artista conhecida do grande público e confortável em diferentes registos, mas a verdade é que é nestes ambientes mais restritos e acanhados que, por a sua mensagem penetrar mais fundo no coração, o seu talento brilha mais.


sobre o autor

João Pedro

Dissidente e subversivo por natureza. É benfiquista militante. Já desistiu de mudar o mundo e agora só tenta que o mundo não o mude a ele.

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