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Reportagem


Benjamin Clementine

"I’m sending my condolence to fear. I’m sending my condolence to insecurities.”

Vodafone Paredes de Coura

19/08/2017


© Hugo Lima | fb.me/hugolimaphotography | hugolima.com

Em cima do início do concerto de Benjamin Clementine, era difícil vislumbrar um espaço vazio em todo o anfiteatro de Coura. Milhares e milhares de pessoas, com muito pó à mistura, fizeram rebentar o recinto pelas costuras. Se juntarmos a isso as intransitáveis zonas de restauração, percebemos facilmente que o festival atingiu (ultrapassou?) o limite de público. Mas foquemo-nos na música.

O público é uma das principais diferenças face à memória da estreia em Portugal de Benjamin Clementine. Em Lisboa, no SBSR 2015, eram algumas centenas. Agora, são muitos milhares. E a diferença faz-se nos dois sentidos. Recordamos um grande concerto em termos musicais, mas também um Benjamin que, quando falava connosco, parecia distante, semi-alheado do público, balbuciando umas palavras pouco perceptíveis. Agora, tudo mudou. Melhor exemplo, num dos momentos mais arrepiantes do festival: o músico britânico foi maestro (a acertar as sílabas e o tom durante minutos) de uma orquestra com milhares de vozes, as nossas, a cantar, com as luzes apagadas, “I’m sending my condolence to fear. I’m sending my condolence to insecurities”. E estas palavras, dois dias depois do ataque da Catalunha, ganharam um condão especial.

Também em termos instrumentais as músicas estão diferentes. Não estão tão focadas no piano e na voz de Benjamin Clementine. Há, em palco, uma espécie de cravo e um coro com um som teatral meio fantasmagórico. Sinal de um disco novo (sai em Setembro) que parece ser mais desafiante, com tonalidades mais experimentais Ouça-se “Phantom of Alepoville”. Sobre a Síria, talvez, mas principalmente sobre o bullying. E fica vincado na cabeça: “Oh Leave Me, Oh Love Me”, repetido várias vezes com uma alma imensa.

Nem tudo foi perfeito: num dos temas, uma brincadeira com Portugal, happy e free, soou um tanto ou quanto básica. Um pequeno deslize, dado que o músico quer tudo menos ser previsível. Assim se explica que “Cornerstone”, um dos principais singles do disco de estreia, não tenha feito parte do alinhamento.

Já na fase final, Benjamin ensaia uma suposta imitação dos anjos. Algo impossível. Esta não é uma voz perfeita nem fácil de escutar. Não é 100% afinada, faz umas divagações excêntricas e toca em algumas frequências extremas. Ou seja, é tremendamente real. E absolutamente notável.


sobre o autor

Joao Torgal

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