MENUMENU

Reportagem


Ben Howard

Acabou de ficar muito mais interessante

Coliseu dos Recreios

27/05/2018


A todos os que este domingo deixaram o Coliseu dos Recreios algo desapontados pela falta de “hits” na setlist que Ben Howard trouxe a Lisboa – “keep your head up, keep your heart strong”, porque o britânico está cada vez mais longe dos seus dias de folk clássica, a mesma que o revelou e seguramente a responsável pelas longas filas de gente que antes da hora marcada já tentava assegurar lugar perto do palco.

Ben Howard ainda conserva a sua camisa hippie e o seu cabelo de surfista descolorado, mas as ondas que agora agitam a sua sonoridade são muito mais experimentais, algo até psicadélicas, bem longe das estruturas musicais previsíveis de Every Kingdom ou da tentativa de chegar a um público mais vasto nos rasgos de rock e electrónica de I Forget Where We Were. Diríamos que o músico está num momento onde pode finalmente fazer a música que bem lhe apetece, sem a inocência do primeiro disco ou a pressão do segundo.

De Every Kingdom só nos chegou, e já no encore, a doce “Promise”, acalentando consigo falsas esperanças de que nos pudesse ainda oferecer para a despedida quem sabe uma “Keep Your Head Up” ou uma “Only Love”. Percebemos o enfado de quem, à saída, esperava ouvir estes clássicos de há quase uma década atrás, mas não haveria também quem por ali nesta noite acusasse ainda algum cansaço destas músicas que rodaram até à exaustão? (Em nota pessoal, se me é permitido, vos digo que até hoje o riff repetitivo da “Only Love” não me traz quaisquer saudades). Arriscamos dizer até que estas músicas ansiadas poderiam soar meio alienígenas depois de cerca de uma hora de concerto, em que fomos descobrindo o novo Noonday Dream, que sai esta sexta-feira, com Lisboa a receber honras de estreia ao vivo de muitas das suas faixas, neste início de digressão.

A parafernália de instrumentos em palco impressiona logo ao início, duas baterias, teclados, violinos, violoncelo, sintetizadores, baixo, várias guitarras (em “A Boat To an Island On the Wall” que abriu a noite conseguimos contar cinco guitarras em simultâneo), bem diferente da modesta passagem pelo NOS Alive há alguns anos atrás, e percebemos que este vai ser um concerto meticulosamente orquestrado, possivelmente bastante próximo daquilo que vamos poder ouvir em disco.

Nota-se algum nervosismo em palco, próprio de quem ainda precisa consolidar novas músicas ao vivo, e sente-se a concentração e atenção aos detalhes nesta indie folk, diluída em paisagens bucólicas que vão sendo projectadas nos panos dos ecrãs. Em entrevista, o músico confessou que Noonday Dream derivou de uma série de fragmentos das suas viagens exóticas pela América Central e de profundas ligações à natureza “bon iverianas”, bem como de uma história bizarra que envolve um buraco que terá cavado no seu quintal em busca de isolamento, na qual queremos fervorosamente acreditar porque todos adoramos excentricidades artísticas. Há melancolia no ar e Ben Howard poderia bem incluir-se na categoria dos “sad boys” dos quais James Blake esta semana tanto deu que falar, mas existe ao mesmo tempo uma aura sonhadora, um sentimento de paz na sua música que consegue apaziguar uma plateia que, ainda que pacientemente atenta ao novo disco, se encontrava ansiosa de mostrar a sua adoração.

A primeira explosão chegou já perto do final da noite quando Ben Howard, após apresentado grande parte de Noonday Dream, visitou o seu segundo disco I Forget Where We Were, de 2014, com a faixa homónima, seguida de “Small Things”, para a qual nos confessou sentir-se algo enferrujado. E foi com o coração do coliseu nas mãos que músico e banda se despediram regressando para um encore que ficou curto para aplacar toda aquela emoção que ainda não tinha encontrado escape.

À saída cruzamo-nos com o desapontamento de algumas caras desconsoladas e com a excitação da surpresa de outras que pareciam ter acabado de redescobrir um artista. Por aqui incluímo-nos no segundo grupo e apraz-nos dizer que após este quase encontro às cegas, Ben Howard acabou de ficar muito mais interessante.

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(Fotos por Paulo Tavares)

sobre o autor

Vera Brito

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