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O Elogio da Ousadia — Jazz em Agosto (curadoria de John Zorn)

por Ricardo Almeida em 6 Julho, 2018

Ousadia em Agosto

Agosto, saudoso instante em que Sísifo respira fundo antes de ver o pai de todos os calhaus escapar-lhe das mãos e a rolar novamente encosta abaixo. Agosto libidinoso, entre jarros de sangria e vestidos curtos. Agosto e o elogio da falta de noção. Agosto e as filas intermináveis para a Costa da Caparica. Agosto e os carros com autocolantes da seleção e matrícula suíça. Agosto e a malta nas praias (pelo menos naquelas em que não se consegue aceder aos dados móveis) a ler livros que, na melhor das hipóteses, nunca deveriam ter sido publicados.

Contudo, ali na Avenida de Berna, esse oásis no deserto de Lisabon, junto a certa esplanada que também alberga uma faculdade, há um Agosto que interessa. Deixem os gins para outro sunset— num daqueles eventos que de jazz só têm mesmo o nome. Guardem as fatiotas, que está calor. Botem uns calções, apanhem uma cidra e, qual Crocodile Dundee da selva de betão, enfiem-se nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, desta feita férteis em experimentalismo, ousadia e improvisação transidiomática.

E a respeito de ousadia, quem mais indicado que o enfant terrible— hiperactivo seria eufemismo —, o visionário John Zorn para nos ensinar de uma vez por todas a montar um arraial de verão? Ninguém, claro está.

É, pois, com curadoria do nova-iorquino de 64 anos — e muitos mais discos no seu curriculum vitae — que se celebrará a 35ª edição do respeitadíssimo festival Jazz em Agosto. Trata-se de uma edição especial, visto que é primeira vez que o evento é pensando em torno do universo de um só músico, celebrando o legado e a filosofia do compositor, saxofonista, improvisador e produtor responsável pela editora Tzadik.

A 35ª edição do Jazz em Agosto irá decorrer em vários espaços da Fundação Calouste Gulbenkian, nomeadamente no Anfiteatro ao Ar Livre, no Grande Auditório, no Auditório 2 e na Sala Polivalente do Museu Calouste Gulbenkian – Colecção Moderna.

Serão dez dias escolhidos a dedo, e um programa que conta com ilustres como Thurston Moore, filho da no-wave, pai do indie rock que interessa, constantemente numa promíscua relação com os trilhos do noise; Marc Ribot, esse, que este ano voltou à carga com os seus Ceramic Dog, e já colaborou com alguns dos maiores desta vida, incluindo Tom Waits e Elvis Costello; e devaneios imensos sob a alçada de Secret Chiefs 3.

Entre 27 de Julho e 5 de Agosto, passarão ainda pelos jardins e salas da fundação o realizador Mathieu Amalric, que vem apresentar o novo capítulo do seu documentário John Zorn (2016-2018), a soprano Barbara Hannigan, que interpretará, juntamente com Stephen Gosling ao piano, um projeto do próprio Zorn, Jumalattaret. Conta-se ainda com o inédito encontro de Zorn, no órgão, com o vulto da electrónica Ikue Mori, no projecto The Hermetic Organ. Estarão presentes dois projectos portugueses que partilham afinidades com Zorn, os The Rite of Trio e os Slow is Possible. Estes são apenas alguns dos nomes maiores do festival, que conta também com um filme-concerto e cinco filmes, podendo a programação completa, bem como todas as informações relevantes — incluindo horários e preços — ser encontradas no site da Fundação Calouste Gulbenkian.


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Ricardo Almeida

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